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Está no eu a mais importante e representativa de todas as relações estabelecidas ao longo do fenômeno vida. Paradoxalmente, lançamo-nos, incansavelmente, não só para o estabelecimento de laços com as demais realidades externas. Almejamos, em verdade, um tipo de troca: projetando ao outro, aquilo que julga, mesmo sem consciência, desejar a passar a ser e internalizar um estado supostamente percebido como sendo mais fácil e até mais qualitativo, quando em comparação com suas eventuais frustrações e insatisfações vitais. A esse fundamentalismo, justifica-se pela razão de encontrar-se nos descontentamentos e desgostos, os vórtices condutores para a pulsão que faz mover a existência de cada um, indistintamente.

A conexão consigo e com os demais, deu-se pela tomada de consciência, estabelecendo para o homem sinalizações que passaram a retratar u divisor de águas, uma limitação imaginária entre cada uma das partes do grande todo social. Originada das concepções morais, a ética eclode, historicamente, como uma frente opositora à dinâmica coletiva praticada, onde regras e atitudes invasivas e desequilibradas eram praticadas em todos os eixos e segmentos propostos à coletividade. Invasões, guerras, violência e desrespeito marcavam, enfim, o comportamento social por séculos, perfazendo o caráter antropológico para a vida humana. Heráclito de Éfeso, século V a.c, define que “a harmonia é resultante da tensão entre contrários, com a do arco e lira.” Refere-se aqui a necessidade de se estabelecer um ponto de equilíbrio entre o instinto, primitivo e rude, com o da inteligência e da afeição.

Em verdade, são os gregos, através das tragédias, antecedendo a Sócrates, que fomentam a raiz da ética individual e matriciada pelo ego. Dois personagens mitológicos, participantes das discussões do saber na Grécia, traduzem com excelência, afinal, quem é e como é o ser humano. Uma ontologia, sem intenção, primeira, a cerca dos enigmas do homem e de seus mistérios para consigo e delatas aos outros. Nietzsche in “A Origem da Tragédia”, (1871), interpreta o conteúdo grego apontando-o como essenciais à ação, inconsciente dos seres. Sua narrativa oscila entre Apolo e Dionísio, apontando-os como símbolos representativos e atuantes à vida da humanidade. Apolo, concebido como o ícone onipotente das horas, era filho de Zeus, logo, dominante do céu onde se origina a luz. Sua mãe, Latona, personificação da noite que concebe a aurora a toda a existência. Tem o poder de fazer nascer e no mesmo instante, retirar. Sua divinização dá à luz ao entusiasmo e a criação, expressada pelas artes. Um emblema de perfeição.

Dionísio, também filho de Zeus, mas com Sênele, que personifica a Terra, é voltado para as pulsões materiais e ao prazer imediato, sem necessariamente, ater-se a satisfação que leva à plenitude. É um insaciável perseguidor da euforia e tendo essa dominada em suas mãos, permite-se aproximar das reações maníacas, ou, as de exacerbada e incontrolável manifestação de vibrações alegres. Rompe, sempre, com os princípios da inibição e faz da obrigatoriedade uma opositora ferrenha aos seus propósitos. É movido pelo fascínio do imediato, daquilo que pode e considera dever saborear, desmedidamente e sem nenhum tipo de preocupação com as relações entre tempo e espaço. Resgatando a teoria de Sigmund Freud (1900), Dionísio é a representação da instância psíquica que denominou de ID, ou, nascente do princípio do prazer universal para cada uma que participa da espécie humana. É inata e de caráter primitivo, agindo sempre em prol da saciação desse prazer interno que clama, incessantemente.

Pertence, a cada um de nós, a incorporação de ambos os personagens. São distintos e com princípios próprios, únicos, porém, associam-se à personalidade do homem, tornando-se apenas um, único, o ser humano conflitante. Almejamos, e isso é uma constante, alcançar o prazer. Idealizamos, inclusive, a satisfação que pode ser obtida através desse, ao ponto de estruturarmos um estado de nirvana, ápice para essa realização. Oscilamos entre o deleite imediato e a sobreposição de satisfações permanentes. Julgamos, em momentos, até mesmo a invasão que podemos provocar ao outro, porém, imediatamente após, a substituímos pela racionalização conveniente que dá o veredito para aquilo que supostamente precisamos e é imprescindível ser feito para obter.

Interessante é que a convivência social é imprescindível e por isso é que nos deparamos com a autocensura ininterrupta, já que é fundamental ser aceito e fazer parte desse enredo, principalmente, como personagem reconhecido e querido por todos. Por isso, devido à evolução biotípica da espécie, a representação de Apolo atua implacavelmente, afinal, seguir a ordem e a coesão faz parte dos itens para a inclusão a esse meio. Por isso, e nesse instante em que nos encontramos, apenas por isso, é que nos dissipamos num sentido de crer que abandonamos aos interesses próprios em detrimento da carência alheia, equilibrando, dessa maneira, as relações.

O tempo nos fez gerar hábitos, costumes foram padronizados e assim, a atitude reta para o indivíduo foi proposta, com isso, a inclusão ao meio coletivo, permitida e um regime de boas maneiras estabelecido para que os seres compreendessem que a própria manutenção, direcionada ao todo, seria o único caminho para a perpetuação de todos. Uma moralização adestrada onde indispensavelmente, a adaptação é requerida aos participantes, caso contrário, a diversidade assume à ordem das esferas excluídas e marginalizadas do centro que rege o comportamento e o afeto humano.

 

                Ajoelhamos e rezamos, mas ao voltarmos para casa, gritamos e desqualificamos. Buscamos fazer o bem pela caridade, e publicamos isso nas redes sociais, confundindo a intenção inicial com a vaidade. Incansavelmente, procuramos pela paz, e a história trás insumos suficientes para esse bom senso, contudo, a proferimos através da guerra, do descaso e da negligência com os próprios semelhantes. Clamamos pela honestidade, mas chupamos a bala no supermercado e não passamos sua embalagem no caixa, ainda acreditando que somos espertos e que um ganho foi obtido por essa atitude. Ora Apolínios e, imediatamente após, Dionisíacos. Os fiéis mandatários universais da personalidade humana.

Isso é resultante da simples equação que define a forma em que nos encontramos evolutivamente: seres com elevado nível de consciência, onde um devir de bem estar precisa ser imposto (Apolo), em conflito com o real estado que ampara nossa condição para ser, que é o do egoísmo (Dionísio). Isso se justifica pelo fato de ainda não percebermos, até mesmo, talvez, não nos darmos conta, de que esse estado de consciência que alcançamos, não é sinônimo de conhecimento, ou seja, tem-se a ciência de que é preciso seguir para a direção do bem, todavia, não se sabe os reais motivos que me levam para isso. Só sei que vou porque todos caminham nessa mesma direção, mesmo que os atalhos dionisíacos, apontem-nos fantasiosos encurtamentos a essa perseguição.

Logo, o princípio ético, volta-se quase que em sua totalidade, para a conveniência e o estado de bem estar do eu, e não para a coletividade a que pertence. Os mecanismos de defesa mental, racionalizam as intenções, negam as realidades, substituem por fantasias, estabelecem formações reativas para que nossa pequenez não seja assim tão observável, introjeta o que se supõe ser melhor e projeta aquilo que não damos conta sore nós mesmos. Apolo e Dionísio guerreiam o tempo todo, sendo que o segundo vence constantemente, mesmo que continuemos a enaltecer as vitória internas conquistadas por nosso Apolo.

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