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É inegável o impacto da filosofia cristã sobre a construção do saber, tanto ocidental como oriental. Alicerçado sobre as premissas da filosofia grega, o conhecimento humano foi manipulado pelo homem, crente e seguidor da filosofia do Cristo. Não menos importante, vale ressaltar a dicotomia presente à experimentação espiritual usufruída pela sociedade. Ao longo dos séculos, e isso já era percebido, anteriormente, a Jesus, o bloco místico das civilizações, é departamentalizado em três blocos distintos, determinando a dinâmica funcional da fé. Inicialmente, há o grupo de pessoas que institucionalizaram os processos de religação a Deus, interpretando, mistificando e ritualizando as ações com o intuito de adestrar e conduzir rebanhos dentro de uma mesma linha de convicção, pautada pelo interesse e a conveniência das demandas do poder atribuído ao exercício divinizado. O segundo, constitui-se de seguidores dessas instituições. Ausentes de críticas e, nem sempre disciplinados, porém, cordatos, alimentam e nutrem ao longo da história um padrão considerado socialmente necessário para o bem estar das famílias, do estado e do bem comum. Finalmente, há o segmento originário de uma gênese, ou os praticantes  que tentam o exercício de uma espiritualidade pura, oriunda da raiz do comportamento ético e saudável demonstrado pelos ícones religiosos, sem rótulo e nem etiquetas.

Independentemente dessa divisão, a sociedade é marcada por uma cultura de fé que norteia até mesmo os ditos agnósticos. Cultura é uma palavra latina cuja origem apontava para o cultivo de plantas e de atividades agrícolas, definindo, assim, a celebração provocada pela união das pessoas que atuavam por um objetivo afim. A propagação do saber, tendo seu início formal com a atuação dos filósofos gregos, a palavra ramificou-se para a relação de ensino e aprendizagem, método socrático atribuído ao exercício da palavra e a fomentação do pensamento dos discípulos e da comunidade como um todo. Ampliada, cultura, através dos tempos, passou a designar cuidado, zelo ao culto, ao semear do conhecimento. Aquele que  detém, compartilha, mas o faz com cuidado e dentro de um papel diligente. É curioso que, a eclosão evolutiva do homem primitivo, deu-se a partir não só das formações de grupos, mas, especificamente, pelo fomento da agricultura, onde essa aproximação se tornou resoluta, criativa e de benefício para as pessoas da sociedade (FOLEY, 1998). Inicialmente, a primitividade alçava, numa percepção mais grotesca e vital, a produção de alimentos para nutrir, contudo, a reunião de todos gerava o cooperativismo e os princípios das relações sociais, cercada de valores pessoais e da ética coletiva.

Anteriormente a esse período, a antropologia nos aponta, através da descoberta de fósseis, uma preexistência formal do homem consigo e com seus iguais, através de fósseis que ritualizavam o encaminhamento dos mortos a um lugar, então, meramente desconhecido (MITHEN, 2002). A junção para esse mecanismo evolutivo contribui para a égide de todo o processo cultural da humanidade: a união de forças para se galgar e conquistar tudo àquilo que era desconhecido pelo homem, pela utilização do veículo social, ou, da agregação das forças que desconheciam e, ainda desconhecem, a fim de desbravar e transpor aquilo que se estabelece para além da matéria, ou do que se domina. E o que não seria o saber, se não, algo previamente desconhecido. Sua exploração transpõe-se pela criação dos mitos simbólicos e a perpetuação pelos ritos praticados e repassados através das gerações.

A cultura protagoniza, nada menos, que a somatória das projeções humanas, não somente por seu conjunto de conhecimentos e de habilidades, mas, igualmente, pela carga de emoção que os acompanha, promovida pela realidade interna de cada pessoa e dos grupos que se constituem. Não existe, apenas, uma reprodução da rotina e dos fatos vividos, a cultura fomenta, essencialmente, a capacidade criadora dos grupos coletivos, suas características e o modo vivente de como atuam. Em todas as formas de execução da cultura, estabelece-se a relação conflitante entre o mundo interno do homem e seus enfrentamentos com aquilo que fora padronizado e instituído como estável e fomentador do controle em relação ao meio em que se insere. O verdadeiro duelo de Titãs travado entre o ser, o que ele é e como se aciona frente à vida, com todo o conjunto pré-definido, repassado como legado, ao longo da perpetuação das existências.

Os símbolos, construídos pela pessoa humana, não se originam da religiosidade, entretanto, a cultura dominante das instituições de religação a Deus, potencializaram e, da mesma forma, enraizaram muito suas características e maneira de funcionamento diante da rotina das comunidades. As famílias assim se designam, as rotinas trabalhistas, as disciplinas e até mesmo as práticas universais para os direitos humanos orientam-se pelos padrões místicos do além-matéria. Há uma constante representada na influência entre o que se deu, passado, com as expectativas do que virá, futuro, circundando o vórtice motriz do comportamento e das reações presentes, o instante atual para o exercício do viver. Manter-se atento aos erros pretéritos e semear a chaga maior da existência, a culpa, faz eclodir a dor e o sofrimento e a prisão a não repetição daquilo que foi desviante. O olhar fixo ao que ainda estar por vir, gerando alternativas e possibilidades, supostamente mais favoráveis, incita a ansiedade que sufoca o que fora feito e delimita a ação atual para que numa linha reta, continuemos a seguir por uma estrada referida como a ideal.

Coletivamente, retomando mais uma vez os primórdios primitivos da evolução, o não saber sobre o que é e como se é após a morte, coloca em xeque a ontologia da supremacia do homem sobre o sistema em que atua. Talvez, seja esse o maior de todos os desejos da nossa raça: poder continuar. Dar prosseguimento a um constructo que se faria irracional, caso ocorresse um fim abrupto proporcionado pelo fenômeno morte. Essa senhora tão atuante e, ao mesmo tempo, de desconhecimento incalculável, é a responsável, absoluta, pela instabilidade e a falta de controle de seus seguidores, até mesmo por muitos daqueles tomados pela fé. O resgate do eu, da identidade única de cada um, passa a ser a semeadura saudável para uma cultura de paz e a troca sincera entre os que interagem. Fazer-se, de fato, imagem e semelhança de quem nos cria, é interromper a delegação da responsabilidade pela dor, o sofrimento e a ansiedade que nos assola.

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