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Uma jornada de equívocas e consequentes desilusões. Essa é a marca natural para se encontrar o amor. Os primeiros passos desenham as confusões, certo estado perdido. Em verdade, uma avidez inicial que nos faz deslocar, ir à direção de um destino qualquer. Esse estranho desconhecido impulsiona, motiva e, mesmo diante de eventuais ameaças provocadas pelo ignorado, o fortalecimento interno se expande, dando a sensação de poder e uma capacidade incalculável. Há uma pura disposição que leva à experimentação. Tenta-se, erra-se e é quase como se tudo fosse à mesma coisa, a princípio, boa, pelas expectativas que o inédito gera. A necessidade de se afastar de um mundo de sombras, aquele que faz morada e toma conta da alma, almeja encontrar a luz em lugar não definido, num outro ser que é visto como ideal, ou, responsável pelo preenchimento de um espaço, tido como vazio, já que a própria riqueza omitida pela escuridão. Indubitavelmente, muita alegria se manifesta.

Em seguida, espontaneamente, estabelece-se uma limitação entre os envolvidos, reafirmando o espaço pertencente a cada um. O ciclo do desenvolvimento, mostra a individualidade e a auto preservação que se ambiciona para se sobreviver com qualidade. Mesmo que meio desordenado, inevitavelmente, emerge um dos choques com a realidade. O egoísmo exacerbado confunde-se com a precisão de se proteger. Verifica-se um desejo com restrições, um prazer nem sempre acompanhado da satisfação. A crença pelo acolhimento incondicional é alterada, porém, negada e até mesmo anulada pelos mais apaixonados. O receio conduz à introspecção, um retorno para si, revalidando e reconsiderando o tão cobiçado encontro entre almas que se complementam.

Um tempo para a aproximação consigo passa a existir. Pondera-se, analisa-se, considera-se. A excursão dentro de si surpreende e conduz por entremeios peculiares. A maturidade floresce e a identificação daquilo que se é e da identidade que atua, destaca-se em saliência maior.  O conviver por si, só, amplia o afeto com o ser único que acompanha o ente, infinitamente, ele mesmo. Contudo, a prontidão ainda não é consolidada. O eu não se basta, nem mesmo se suporta dentro da ausência em que se põe. Desencontrado na individualidade, solitário na companhia externa, mais uma tentativa vem à tona, uma derradeira ação que objetiva completar esse vazio interno com o rio valor que não pertence ao eu, mas, sim, ao outro.

 “Os amantes arrependem-se do bem que fizeram, quando o seu desejo já se extinguiu, ao passo que aqueles que não têm amor nunca tiveram a oportunidade de se arrepender; pois não é sob o jugo da paixão, mas voluntariamente, e conduzindo bem os seus interesses, sem ultrapassar os limites dos seus próprios recursos, que eles fazem bem ao amigo. Além disso, os amantes repassam na mente os danos que o amor lhes causou nos negócios e as liberalidades que eles fizeram, e, acrescentando a isso a dor que sentiram, julgam que há muito tempo que têm vindo a pagar o preço dos favores obtidos. Já aqueles que não estão apaixonados não podem nem usar como pretexto os seus negócios negligenciados por causa do amor, nem alegar as intrigas dos familiares, de modo que, isentos de todos esses aborrecimentos, eles só têm que se empenhar em fazer tudo o que acham que deve agradar ao seu bem-amado.”  


Platão, in ‘Fedro’  –  http://www.citador.pt/textos/amor-sem-amar-platao

                Identifica-se, por simpatia, aplicando a empatia, e dessa forma, lança-se à construção de um terceiro ser através da somatória de dois que se coadunam. Percebe-se, em um grupo considerável de pessoas que se agrupam, afetivamente, dentro dos mais variados segmentos sociais, que há algum tipo de interesse que alicerça essa conexão. O contentamento se dá, mas a plenitude raramente é identificada. O “se não” é pertinente e a euforia inicial e propulsora, vai dando espaço para a frustração que cresce, desmedidamente, alterando-se a uma forma monstruosa e dominante para os encontros de amor. Subterfúgios são utilizados com a finalidade de contornar os resultados desmedidos e, inclusive, o forçar e a imposição das supostas verdades pessoais se aplicam com meio de convencimento para a mudança do que está ao lado, em conveniência ao encontro do que o eu quer.

Afastamentos, cisões, conflitos e até mesmo o ignorar pulsa, intensamente, como produtos resultantes desses processos. Incompreensões, desgastes e a irracionalidade, inclusive, pode se fazer presente. O amor próprio exacerba-se, transtornando sua real precisão, com o egoísmo enaltecido que nos leva a ser só e poli queixoso a tudo e todos, eximindo-nos da responsabilidade única sobre os próprios fatos que acontecem à vida pessoal.

Quando se encontra o amor, o pacto com o respeito é estabelecido. Não importa o jogo de verdades, sabe-se, somente, que o que é sentido por cada um, naquele instante, assume a veracidade indispensável para quem a constrói. O aprisionamento é banido, considerado uma violação à integridade daquele que é amado. Os interesses se afastam em detrimento à reverência que se aplica ao que se é e como se é, retratando o estágio evolutivo, distinto, de cada um. Encontrar o amor se dá pelo reconhecimento das próprias limitações, dos erros e das insanidades que nos levam ao desequilíbrio. É expressá-lo, sem esperar absolutamente nada em troca, senti-lo e irradiá-lo, mesmo que distante, rigorosamente igual, quando não se tem retorno e até quando há uma emissão inversa do sentimento.

Tudo isso, previamente, precisa passar pelo crivo da pessoalidade, ou seja, da paixão que precisa ser estabelecida consigo. Só dessa forma, de fato, pode-se aplicar toda essa pureza, a outrem. Assim, a luz irradia, toma conta da escuridão e a precisão para encontrar no outro, aquilo que apenas me pertence, cessa. Perceber e sentir esse outro como um veículo meio e não fim, um complemento, feito com ou sem a troca, mas, pela pura consciência de ser, é, então,  quando se encontra o amor.

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