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É incrível como se procura a propagação da vida através do tempo. Fico pasmo, na verdade, com a ânsia das pessoas em elencarem possibilidades para manterem suas vidas em um amanhã, distante, e, totalmente questionável quanto à sua existência. Uma pesquisa europeia, publicada no final dos anos 90, revelou que metade dos pesquisados alimentavam suas vidas, em termos de ações e de perspectivas, direcionados às eventuais conquistas adquiridas a médio e longo prazo. Desculpe-me os crédulos das causas perdidas, mas isso não é viver de fato, apenas, é escolher morrer de direito. Um direito filosófico imputado sobre a égide dos pensamentos e dos comportamentos suicidas, que separam o ser do exato instante da execução sumária de sua vitalidade, projetando-o a um contexto enfadonho de ilusões e de falsas vitórias, a serem alcançadas. Outro recurso utilizado pelo homem com a finalidade de amortizar suas dores e penas, essas sim angariadas, fruto do esforço e da boa ou má vontade de seus atos.

Nos primeiros anos do século XIX, Arthur Eddington, percebeu que a relação entre tempo e espaço, era fato. Contemporâneo ao Físico britânico, Einstein trabalho concepções semelhantes e dessas elaborou a teoria da relatividade, imortalizada pela academia científica e perpetuada em vários segmentos pertencentes às áreas de conhecimentos. Considerando o espaço como uma matéria estendida, distribuído, uniformemente, constituída de infinitos elementos, macros e micros, ou seja, desde animais de porte até as mais ínfimas bactérias, átomos ou estruturas subatômicas, a lógica nos reportam a fatos contundentes. Cada uma dessas estruturas é dotada de massa, são dinâmicas e se deslocam. Só, e apenas somente, por essa razão, a composição de massa da matéria em movimento, deforma esse espaço e, inevitável e consequentemente, o tempo. Como é incalculável o número de objetos dinâmicos, partes desse grande todo, há convexidades sobrepostas e oponentes a distorções côncavas, por esses caminhares, atravessadas por retas paralelas ainda não percorridas.

O raciocínio não se interrompe ai. Toda massa, em agitação, só se faz por conter em si, grande carga energética, ou matéria sutil, quântica, que a permite. Assim, da mesma maneira que o espaço se altera, as massas modificam-se na medida em que ocupam e projetam-se em locais diferenciados. A combinação e a associação de ambas, produzirão, então, diferentes tipos de frequência, personalizadas pela similaridade de seus elementos. O ser humano, com isso, constrói padrões de perfil, adequando-se ao meio em que se encontra inserido, assimilando referências semelhantes e opondo-se aos contrários. Fomenta-se, por esse princípio, um buraco, ou vários, ao longo de toda a extensão espacial. O tempo, então, é associado, por sua concepção relativa de ação sobre esse vazio circundado pela energia humana. A cronologia não para, assim como não anda. São inertes vistas às alternâncias medidas aos espaços circundados pelas escolhas e junções realizadas.

“Deste modo, uma esfera de grande massa (simbolizando o Sol) provoca uma concavidade no pano, a qual faz com que outra esfera, de menor massa (simbolizando a Terra), que esteja em movimento na sua proximidade, não siga o seu trajecto rectilíneo, mas seja apanhada pela deformação e descreva uma trajectória curvilínea em torno da primeira. Mas esta esfera também deforma o pano, provocando também uma concavidade, podendo “aprisionar” perto de si uma terceira esfera, de massa menor (simbolizando a Lua). Deste modo podemos “visualizar” a deformação que a massa, e também a energia, uma vez que ambas se equivalem (E = mc2), produz no espaço.”

(http://profs.ccems.pt/PauloPortugal/PHYSICA/Deformao_do_espao_tempo/Deformao_do_espao_tempo.html)

                Logo, o futuro é o presente distanciado de consciência e de ação, pois se age pela impulsão a frente, curvando o espaço e o tempo, e assim, retornando ao seu ponto de origem, o instante presente. Gramaticalmente falando, o que é resulta do que foi, assim como o que será, depende da ação daquilo que é. Um tripé indivisível e absoluto. E , a verdade, inquestionável, encontra-se naquilo que está, e em mais nada. Pelo desdobramento das nossas partículas subatômicas, é o homem a sua própria máquina do tempo, angariando as condições necessárias de lançar-se ao passado ou ao futuro. Na primeira situação através da função mental da memória e da senso percepção, e na segunda pela emissão de componentes que elaboram o conteúdo, a velocidade e a forma do pensamento, além os recursos cognitivos que justapõem a análise da relação com os estímulos. Porém, todo o processamento do material captado ocorre na frequência estabelecida no aqui e agora, representado pelo instante presente.

Querer remontar o passado, a todo custo ou a qualquer preço, é ausentar-se desse instante. Desejar antecipar o que ainda na é, resumido a um desejo de tornar a ser, é marginalizar-se daquilo que se deve estar a executar. Nenhuma das duas escolhas é viver, somente sonhar, idealizar algo oposto àquilo que a realidade retrata. A culpa, uma das chagas da humanidade, simboliza a permanência em um espaço anterior, curvado e deformado por esse tipo de energia nociva. A esperança, em traços geométricos similares, remonta, continuamente, o ícone dos altos níveis de ansiedade, através da secreção das suprarrenais que lançam a adrenalina até essa se compor em atuante nos neurotransmissores e fazendo com que o Sistema Nervoso Central, a máquina operante, manipule todas as energias que deveriam permanecer concentradas no que se deveria envolver e comprometer com o que ainda não é da ordem do pertencente ao sujeito.

Por isso não basta pedir perdão, aconteceu. É preciso transformar. É improdutivo clamar para se alcançar, pois não sabemos se de fato ocuparemos esse lugar no tempo futuro. Viver, é debruçar toda sua garra, energia e intenção ao tempo presente. Isso é viver. Ser simples para conseguir ter forças para as coisas mais complexas. Minimizar suas dores, para da valor às precisões alheias. Nada nos falta, de verdade, a nãos ser a coragem e a fé, imobilizando e engessando, assim, nossas iniciativas frente aos obstáculos da vida. Rezar e ser bem intencionado são muito pouco. Quanto se pede, justamente para o futuro ser alcançado. Quão pouco se agradece e restringe-se a solicitude do apoio para que por mais um dia se consiga manter em pé e fiel aos propósitos estabelecidos. Estar bem intencionado não significa ser, apenas retrata uma bela roupagem que disfarça o que de concreto sentimos e fazemos. Não é necessário ser bom fora dos limites em que se insere. Basta amar e ser responsável como os seus, vivendo e amando, plenamente, de verdade. Fazer isso com os que se assemelham e comungam de princípios idênticos é fácil e sem o devido valo creditado. Agora, aplicar essa postura aos diferentes é onde encontramos o verdadeiro mérito.

A eternidade não se encontra em nenhuma curva do espaço, muito menos em tempos imaginários. Ela é presente e está aqui, em nossas mãos. Basta querê-la, desejá-la, ambicioná-la. A essência da eternidade não se encontra na insignificante percepção de manter-se aceso pelas labaredas da vida, mas, fundamentalmente, nas marcas deixadas pela responsabilidade social, exercida por cada um de nós, dentro das nossas atividades e compromissos, com as pessoas e o sistema em geral. Só isso nos deixará, sempre, vivos, na qualidade de vida das pessoas. O triplex no céu é mentira! O luxo está unicamente aqui, estampado nas reações de alegria de cada uma das pessoas que são impactadas pelo nosso comportamento e nossas reações emocionais. O resto, de nada vale, afinal, projetar-se ao futuro ou ao passado gera tensão pelo deslocamento da massa. Já vier a eternidade do presente, é promover intensidade, a marca daquilo que é duradouro.

“Segundo a expressão de Lavelle, a morte dá «a todos os acontecimentos que a precederam esta marca do absoluto que nunca possuiriam se não viessem a interromper-se». O absoluto habita em cada uma das nossas empresas, na medida em que cada uma se realiza de uma vez para sempre e não será nunca recomeçada. Entra na nossa vida através da sua própria temporalidade. Assim o eterno torna-se fluido e reflui do fim ao coração da vida. A morte já não é a verdade da vida, a vida já não é a espera do momento em que a nossa essência será alterada. O que há sempre de incoactivo, de incompleto e de constrangedor no presente não é já um sinal de menor realidade.

Mas então a verdade de um ser já não é aquilo em que se tornou no fim ou a sua essência, mas o seu devir activo ou a sua existência. E se, como Lavelle dizia em tempos, nos julgamos mais perto dos mortos que amámos do que dos vivos, é porque já nos não põem em dúvida e daqui para o futuro podemos sonhá-los a nosso gosto. Esta piedade é quase ímpia. A única recordação que lhes diz respeito é a que se refere ao uso que faziam de si próprios e do seu mundo, o acento da sua liberdade na incompletude da vida. O mesmo frágil princípio faz-nos viver e dá ao que fazemos um sentido inesgotável.

Maurice Merleau-Ponty, in ‘O Elogio da Filosofia’

 (http://www.citador.pt/textos/o-eterno-e-a-propria-vida-maurice-merleauponty)

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