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Existe, no início desse terceiro milênio, a convergência, por parte de segmentos variados, a respeito do processo de evolução do homem, antropologicamente falando. Partimos de um estado bastante rudimentar e alcançamos estágios bem diferenciados para o uso das nossas capacidades e habilidades. Superficialmente, torna-se incontestável as conquistas do homem diante de si mesmo e seu controle sobre o meio que se insere. Robert Foley (1998) descreve suas pesquisas relacionadas à evolução da humanidade (Os Humanos Antes da Humanidade) e suas reflexões iniciais indagam uma questão ímpar, talvez, raramente ponderada: quando nos tornamos humanos? As descobertas dos fósseis apontam um intervalo de tempo oscilante, entre um a cinco milhões de anos. Nada significativo perante tanto tempo e pela dificuldade de manuseio de provas mais contundentes. Inconformado, o Antropólogo direciona a análise para uma vertente mais qualitativa, colocando em xeque o conceito de ser humano, possibilitando inúmeras possibilidades, de acordo com a percepção construída por cada pessoa,  bem como as diferentes correntes filosóficas.

Semelhante, genericamente, com o ecossistema, sempre existiram valores e ética entre as criaturas vivas. Por sinal, os animais nunca os perderam, ao contrário, naturalmente, perpetuaram esses princípios através das gerações subsequentes. Uma postura coerente. A partir de um determinado período, ainda não especificado, passou-se a ter consciência de sua realidade e das forças oriundas do meio. As sociedades foram formadas, dentro de uma intenção, talvez, não muito estruturada, justamente para enfrentar, combater e controlar os sistemas em que atuava. A inteligência, associada ao pensamento, à memória e às manifestações afetivas, geraram e desenvolveram modelos culturais, característicos a cada grupo constituído. A interação entre a realidade externa com o mundo interno evocado pelas formulações cognitivas nos fez pertencer a essa nossa gênese e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, distanciar-se, como se múltiplas realidades, emanadas de cada ser, fomenta-se universos em paralelo.

Percebe-se, e no mesmo momento, o que é passa a ser incorporado por um estado de como ser, definido, individualmente, por cada indivíduo. A inteligência significa o símbolo, dentro de uma vertente lógica e, simultaneamente, o abstrai, subjetivando o objeto com o conteúdo processado nas mentes. Logo, cada um desses objetos é possuidor de múltiplas interpretações, todas coerentes aos olhos dos que veem. A esse mecanismo, poderia, analogamente, aproximar esse prenúncio de criatividade do homem, ao ensinamento místico,  secular, que afirma sermos feitos a imagem e a semelhança de Deus. Tornamo-nos criaturas criadoras. Inovamos e reelaboramos infinidades situações. Além disso, alcançamos as fronteiras entre a vida e a morte, rompemos o espaço, alteramos o tempo. Limites que nos aproximam, cada vez mais, da capacidade atribuída a Deus. Toda essa concepção elaborada, mesmo sem a devida compreensão daquilo que é e como é esse Deus. Dinamicamente, começamos a trajetória evolucionista pelo comportamento funcional e reativo aos estímulos, passando para a elaboração dessas atitudes e da dos outros e hoje nos situamos na manifestação do afeto.

“Se não pudermos desemaranhar a linguagem do comportamento social e econômico, talvez venhamos a ser levados à ideia básica de que o que nos torna humanos é a cultura. Os antropólogos usam o conceito de cultura numa miríade de sentidos, mas o cerne de todos eles é a ideia de um gabarito cognitivo sobre o qual é formada toda a estrutura do comportamento humano. Seu elemento crucial é que ela fornece flexibilidade que permite que todos os tipos de comportamentos, pensamento e ações sejam modificados, e que as ações mais díspares sejam integradas. O homem, como animal portador de cultura, pode substituir e abranger todos os aspectos da humanidade, da tecnologia à política e à estética.”

FOLEY, Robert. Humanos Antes da Humanidade. UNESP. 1998.

                O eixo fundamental para essa cultura humana culminou com o surgimento da arte e da religião. A arte, veículo projetivo do homem, aplicando à sua obra o significado que é atribuído à realidade de sua personalidade. A elaboração, ausente de consciência, do que se percebe nesse universo pessoal, na alma. Isso se deu na passagem do Paleolítico Médico para o Superior. A conexão entre as habilidades técnicas, naturalista, sociais e linguísticas ofertam o produto artístico que pertence ao ser até a presente data. Aqui passa a ocorrer uma remodelação do funcionamento cognitivo e da interação do ser com o meio e com as outras pessoas. Interpreta-se, discutisse e sobre o criado formulam-se repetidas recriações, ou, reinterpretações. O homem se apresenta e, concomitantemente, é reapresentado pelos que se relacionam. A entrada no mundo m do outro pelas expressões externadas por tantos criadores. Iniciaram-se, então, as co-interpretações. O que era definido em si mesmo transpôs a outra definição, formulada pelo eu que a tornava pública pela arte, pela linguagem e continuamente reinterpretada por todas as demais pessoas estimuladas pelos mesmos estímulos ‘“e dessa forma, permite que a aplicação do conhecimento ultrapasse os propósitos específicos para os quais normalmente é utilizado, criando novas ligações representacionais entre domínios diferentes’” (Annette Karmiloff-Smith apud MITHEN, Steven. A Pré-História da Mente. UNESP. 2002).

Concomitantemente, erguem-se os alicerces místicos, percebidas nas pinturas representadas por imagens antropomórficas, inclusive com sinais de feitiçaria, ou xamânicos, dentro de um processo de comunicação com os seres desenhados. Ou seja, estabelece-se uma conexão com a vida além a matéria, do concretismo e da realidade vigente. A ritualização para esse envolvimento é percebido não apenas nas projeções artísticas, como também, nas ações de desligamento dos mortos, constatadas nos sepultamentos e alegorias que envolviam essa despedida. A partir do rito, eclodem os mitos, ou, as projeções intelectuais elaboradas e padronizadas por um senso comum,  sobre os fenômenos sobrenaturais e que se distanciavam do poder de controle do homem. Há uma razão que possibilita uma hipótese para esse fato. A produção do conteúdo mental, provocado pela especialização das funções mentais, de certa forma, desorganizavam os vetores de causa e efeito e conflitavam com o que era naturalmente essencial o meio em si, e a contínua associação de percepções externadas por cada membro da sociedade. Aquilo que ate então era um instinto inato, um princípio de sobrevivência e de prazer, desafia-se com a construção de realidades sobrepostas ao que, simplesmente, já o era.

Seria imprudente negar que a humanidade  recriou a criação do Deus, Criador, que fora evocado e sustentado pelo homem. Aliás,  ser humano gerou um Deus ao se desejo e interesse, conveniente à completude do que se ausentava ao seu domínio concreto: a transpessoalidade, o que estava além do pessoal palpável e imaginável. Uma divindade, consequente, de suas projeções mentais. O mesmo individuo que se vê controlando e conduzindo a vida, através dos demais animais, é tocado pelo poder e se endeusa, emergindo sua onipotência, ou capacidade única para, a onipresença, sujeito exclusivo da manipulação e onisciência, com consciência exclusiva para esse intento. Exatamente o mesmo perfil do Pai por ele criado. Uma genética etérea perfeita. Assim, se, antropomorficamente, isso lhe era possível, ampliou essa habilidade e lançou-se às crenças para o além-físico. A cultura de sobrevivência para após a morte instaurou-se, bem como as relações entre o mundo material e o estão denominado espiritual até se chegar a viabilidade de ação dessas outras faixas de atuação sobre a realidade concreta em que se encontra.

A incapacidade parcial de auto reconhecer-se visto a imensidão de conteúdos inconscientes e de conexões que atuam sem a devida justificativa, faz-nos impotentes frente a própria vida pessoal. Esse vazio, ou elo perdido, buscou razões e explicações fora de si com a intenção de complementar esse eu fragmentado que nos habita. Nada melhor do que nos apropriarmos de um ente altamente capaz, maior, para projetarmos aquilo que tanto ansiamos como referencial para sermos vistos. Cria-se, assim, um Deus delirante permitindo-me muito mais o ser, pela tentativa, do que me aproximar. Por essas razões, o homem apropriou-se de Deus, tentando tornar-se aquela imagem, projetada, desejada e a semelhança, idealizada, conveniente para suas precisões.

A existência de Deus está para além do questionamento humano. É um puro e simples estado de sensação, de acolhimento. Foge a racionalização e se desfaz pela estruturação meticulosa das explicações. É tão somente um estado para o amor verdadeiro.

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