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Adentrando o terceiro milênio, dotados de uma organização e um concretismo de excelência, ainda nos deparamos com elementos misteriosos, situações sem respostas e, principalmente, uma divergência abrangente em relação a várias questões, posições e atitudes estabelecidas frente aos desafios naturais da vida, como aqueles elaborados pela condição intelectual do homem que pensa. O que chama à atenção, é que a ordem relacionada à dúvida origina-se quase que exclusivamente da raça humana e não das demais espécies de vida, tão pouco dos fenômenos manifestados. Os processos de análise e interpretação dos fatos, empíricos ou científicos, atrelam-se exclusivamente, ao olhar do sujeito que se envolve. A participação do tempo, do espaço e o contexto pertencente à realização das coisas, agregam e subtraem elementos e, assim, alteram seu eixo essencial para as relações estabelecidas. É a visão do ser que dita a forma para ser daquilo que o rodeia. A somatória de olhares provoca uma multiplicidade de possibilidades, repetições e inovações do que passa a ser.

É através do funcionamento mental e do respectivo amadurecimento do caráter e da adequação do temperamento, componentes da personalidade única e intransferível de cada um, é que se dá a construção da percepção sobre tudo o que ocorre e a saudável limitação entre o que se é e está com a situação semelhante dos que nos rodeiam. Ou seja, cada ser humano caminha para o estabelecimento desse mecanismo, mesmo que em direções diferenciadas, em velocidades alternadas e de maneira própria. A questão é que isso é uma das verdades intrínsecas das pessoas. A partir da percepção, conexões são estabelecidas com o que já fora experimentado, associando-se o conteúdo por similaridade, simpatia ou antipatia dentro dos contatos formalizados. A consciência vem, consequentemente, como derivação da usinagem de todo o material. Entretanto, nem tudo que se percebe, obrigatoriamente passa a ter um estado consciente. A consciência designa os valores e a representação do que é angariado para a vida pessoal. Pela ausência de um conhecimento absoluto sobre o meio externo e, principalmente, em relação a si, há um choque conflitante, interno, nas pessoas, selecionando aquilo que é conveniente e interessante do que possa vir a ser ameaçador.

Essa dinâmica se dá através de dois componentes fundamentais. Há uma parte simbólica, representativa, onde a imagem do que se vive é compactada e internalizada como um mito. O segundo insere-se na subjetividade individual da pessoa. Existe um único veículo para essa edificação que é o afeto aplicado. Encontramos no meio social, ou coletivo, uma das fontes de conteúdo que passam a participar das interações. Os paradigmas culturais e o conjunto de, supostas, verdades universais, condensam uma das primeiras heranças para o ser humano. Propagam-se tais conhecimentos, inicialmente pela família e depois por cada um dos sistemas sociais em que se participa. A outra fonte origina-se daquilo que é desconhecido, naturalmente, para cada um de nós, estabelecendo o conflito básico entre o desejo pessoal e as imposições da sociedade. A relação entre o que se quer tenências inatas e estágios evolutivos próprios,  e aquilo que precisa ser seguido, ou, a manutenção das ditas verdades universais. A outra referência é a interna do próprio eu do indivíduo, que pulsa às novas inclinações para o aperfeiçoamento e a evolução.

“Que eu faça um mendigo sentar-se à minha mesa, que eu perdoe aquele que me ofende e me esforce por amar, inclusive o meu inimigo, em nome de Cristo, tudo isto, naturalmente, não deixa de ser uma grande virtude. O que faço ao menor dos meus irmãos é ao próprio Cristo que faço. Mas o que acontecerá, se descubro, porventura, que o menor, o mais miserável de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais insolente dos meus caluniadores, o meu inimigo, reside dentro de mim, sou eu mesmo, e precisa da esmola da minha bondade, e que eu mesmo sou o inimigo que é necessário amar?” – (Carl Gustav Jung – Obras Completas, vol. XI).

http://www.jungpsicologiatranspessoal.com.br/textos

                Por esse viés é que as representações mentais se estabelecem. A bússola para a condução da vida. Pela razão de qualificarmos o meio em que nos encontramos, as formações mentais transcendem à matéria. Logo, o que é material, passa a ser aquilo que o olhar do homem a define e concebe. Funcionalmente e mesmo cercado de evidências, há sempre a qualificação projetada pelo indivíduo àquilo que interage, direta ou indiretamente. Considerando um planeta com milhões de habitantes, justificam-se as divergências sobre tantas questões, a revisão de estados e a mudança de condições que marcam a história humana. Sem dúvida, lançamo-nos a um projetar e a uma divinização das conquistas materiais em detrimento do fortalecimento que aperfeiçoa a própria realidade pessoal. O complemento  a essa condição está no impulso que leva a imposição de verdades absolutas por parte das pessoas, num aspecto geral, ou, em situações específicas, como se a subjetividade alheia fosse desmerecida, ou, subjugada quando em uma comparação de perfil competitivo.

O elo perdido, anunciado e ambicionado ao longo dos séculos, não é um mistério intransponível, mas, apenas, sim, uma mera negação e até anulação que o próprio homem aplica a si mesmo como um meio de fugir e não contatar com suas imperfeições, fragilidades e precisão para o endeusamento. Incorporar e mendicância proposta por Jung, é dar sustentação ao que, verdadeiramente, se é. A cultura de busca e divinização daquilo que está fora do homem, desencadeou o desmembramento da identidade, além da essência vital daquilo que nos caracteriza. Não há dúvida de que é muito mais fácil atuar para algo ou alguém, do que para o próprio reconhecimento e aperfeiçoamento. Cuidar e apontar alternativas para  o que não nos pertence, exime a responsabilidade sobre os processos e facilita em muito as intervenções para a mudança. É um manter-se na zona de conforto e na estabilidade tão desejada.

Os símbolos, mitificados, agregados às vibrações afetivas, são elementos meios, jamais fins. Alicerces para a condução, não para a estagnação. A simples alternância para essa equação, implicará em uma resultante mais saudável, denominada flexibilidade. Não no sentido de passarmos a aceitar tudo de todos, até porque é um estado já presencial, mas, sim, para uma prerrogativa de darmos sustentação a uma ação de respeitar tudo de todos, inclusive, nosso próprio estágio atual de evolução e discernimento das coisas. O princípio não se encontra naquilo que me rodeia atua sobre mim, ao contrário, está na parte de responsabilidade que me cabe sobre o efeito dessas relações, libertando-se do julgamento, das preconcepções e do gasto de energia com o que é feito por outro. Compreender, isso sim é vital.

“Quanta felicidade  dá a grata suavidade das coisas.  Como a vida é cintilante e de bela aparência! São as grandes falsificações, as grandes interpretações que sempre nos têm elevado acima da satisfação animal, até chegarmos ao humano. Inversamente: que nos trouxe a chiadeira do mecanismo lógico, a ruminação do espírito que se contempla ao espelho, a dissecação dos instintos? 
Suponde vós que tudo era reduzido a fórmulas e que a vossa crença era confinada à apreciação de graus de verossimilhança, e que vos era insuportável viver com tais premissas… que fazíeis vós? Ser-vos-ia possível viver com tão má consciência?
No dia em que o homem sentir como falsidade revoltante a crença na bondade, na justiça e na verdade escondida das coisas, como se ajuizará ele a si mesmo, sendo como é parte fragmentária deste mundo? Como um ser revoltante e falso?” 

Friedrich Nietzsche, in ‘A Vontade de Poder’  –  http://www.citador.pt/textos/um-ser-revoltante-e-falso-friedrich-wilhelm-nietzsche

 

                Caminhar para uma qualidade de vida maior e para a redenção tão desejada, parte do ser. A construção coletiva e a vida social alcançará a plenitude, apenas, depois que as pessoas se colocarem a disposição do autoconhecimento. Do entendimento daquilo que se senti e a maneira como lançam esses afetos ao meio em que participam.Imagem

                

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