Skip navigation

Perder é uma ação que ocorre, continuamente, na vida das pessoas. Anteriormente à perda, faz-se necessário a adoção de um sentido e percepção de oposição a algo. Deriva-se das aproximações realizadas, das mais simples e óbvias às mais complexas. Quando em relação, aquilo que inicialmente havia sido estabelecido como integração, desdobra-se para a comparação. Associam-se os critérios pertinentes de cada um dos objetivos recrutados, incluindo seres vivos, e estabelece-se, inicialmente, um princípio de igualdade. Coloca-se cada um lado a lado (comparare), e situa-os em um mesmo eixo para a integração. Porém, isso é instantâneo, veloz e eliminado numa fração de segundos. Aquilo que justifica a proximidade por semelhança, desaparece e imediatamente após, é substituído pela necessidade de avaliar, diferenciar, valorizar (parare). É nesse exato momento que a liberdade individual é acionada, as escolhas acontecem e as diferenciações aplicadas. Angario com o que aproximo pela opção e distancio com o que deixei para trás. A imaturidade humana e nosso estado, ainda de pouca evolução, acabou condensando significados e atitudes. Aquilo que era para se comparar, passou a se comprar e assim valores passaram a participar das seleções exercidas pela vida.

Em relação aos valores, parte da dos componentes que os constituem, referem-se à realidade pessoal do sujeito. Outro bloco origina-se do inconsciente coletivo, estruturado através dos elementos culturais promovidos pela sociedade ao longo das gerações. A última base liga-se aos componentes da razão internalizados e utilizados para a promoção do bem estar e da qualidade de vida das pessoas. Valore são conceituados com a edificação de ideias exercidas pelo comportamento, atuante e coerente. Um elo entre a filosofia e a parte experimental da vida cotidiana. Há oposição entre os diferentes tipos de valores, definidos por uns como bons, por outros como ruins e a tão ambicionada verdade mantém-se com um ícone idolatrado e mistificado na maioria absoluta das imposições valorativas dentro das relações humanas. Justifica-se essa afirmação pela simples lógica de que o homem é inconsistente, incompleto e permanece no caminho de ascensão para a sabedoria intelectual e emocional. Todos, juntos e misturados, não poderíamos alimentar a expectativa de uma resultante diferente, a não ser a da incoerência e da exatidão. Mesmo assim, as escolhas acontecem e se proliferam infinitamente em todos os cantos do planeta, dentro de cada uma das civilizações, a todo e qualquer instante.

Por nem sempre serem sólidas e seguirem uma cognição apropriada, as perdas tornam-se mais significativas do que os ganhos, fazendo da dinâmica de muitas vidas, um processo nada saudável em termos de equilíbrio e de harmonia. Não aponto para as perdas naturais, implicadas às escolhas que pertinentes ao funcionamento, às táticas e às estratégias dos planos de condução vivencial. Destaco, aqui, àquelas desnecessárias, improdutivas e retrogradas à caminhada. A capacidade de modificação, promovida pela inteligência, permite com que erros sejam refeitos e outra direção estabelecida para as ações. Já o enraizamento em pontos de vista engessados e radicalizados a princípios frágeis, dão a autorização para a perpetuação dos enganos. A humanidade tem uma capacidade tão gigantesca, mesmo sem ter noção dessa habilidade, que consegue dentro do caos, conquistar situações que a beneficiam. A participação dos ganhos secundários na vida de cada um de nós é algo fantástico, grandioso e de impacto imensurável. Mesmo diante de um sofrimento real, rodeado com dores, emocionais ou físicas, limitações e desamparo, a pessoa consegue pinçar nesse abismo de transtornos, um benefício. Apega-se, como se fosse o próprio alimento de sua alma, o r que respira, e escolhe permanecer, então, mergulhado no marasmo nocivo em que se encontra.

Estabilizar-se como doente, ou desequilibrante, de imediato, oferece maior atenção, pena, redução significativa de responsabilidades e o reforço social da penúria e da lástima vivida pelo então coitadinho. Porém, a maior dádiva é permanecer sem a consciência do mal que provoca em si mesmo, é não enfrentar as causas que conduziram a tal estado e a permanência, ao menos por tempo determinado, em um estado emocional vegetativo e a condição de filosoficamente morto. Com isso, a perda primária localiza-se dentro do próprio agente direto das consequências promovidas pelas escolhas. O eu é fragmentado, dissipado e ausente de um movimento próprio e eficaz, a si e aos que o cercam. É importante lembrar, que aos que provocam essa condição às suas realidades, a dor e o sofrimento são compartilhados, ou seja, vivem tais emoções e estados, a pessoa e os que o acompanham, direta ou indiretamente.

“ganho secundário – Na teoria psicanalítica, ganho secundário ou epinósico assinala as vantagens práticas que podem ser alcançadas usando-se um sintoma para manipular e/ou influenciar outras pessoas. Deve ser diferenciado do ganho primário (ou paranósico), que consiste na diminuição de ansiedade e conflitos resultantes da formação de um sintoma. A determinação do ganho secundário pode ser influenciada pela sociedade (pensões ou pagamentos recebidos pela presença persistente dos sinais ou sintomas) ou cultura (desenvolvimento de uma condição clínica sob circunstância de extremo estresse cultural ou expectativas). Ver neurose de compensação.”

(http://www.psiquiatriageral.com.br/glossario/g.htm)

 

                Daí, derivam-se os lutos, os, as perdas permanentes. Cultivam-se a aflição e a dor, gerando pesar. O sofrimento é vivenciado e as lamentações se erguem, intermitentemente, ao longo do desenvolvimento do ciclo perda e ganho secundário. O esforço é figura presente. Luta-se, conflitantemente, entre as acomodações ofertadas pelo ganho secundário e as precisões para adoção de outra postura que altere e modifique essa doença instalada. A fuga, é proporcional, intensificada cada vez que a luta coaduna-se a batalha. Individualmente falando, é comum a agregação de motivações internas para a vitória da acomodação e o triunfo dos ganhos. Cada vez que isso acontece, é dada mais uma baixa na vitalidade psíquica da pessoa e a alma atravessa mais um deteriorização. O luto se estabelece a somatória de óbitos emocionais e filosóficos vão se anelando.

O luto é um estado que vai além da morte física de um ente querido ou personagem significativo da sociedade. Luto é marcado pela alteração do sentimento em relação à convivência estabelecida com alguém ou com alguma coisa. É a resignificação daquilo que é e da nova maneira como um contexto se executará. Uma transição entre o antigo e o novo espaço e momento que se encontrará o indivíduo. É o afastamento de um valor experimentando plenamente, ou, de outros não saboreados pelo afastamento e a marginalização promovida pelas escolhas realizadas. Em essência, o luto, nada mais é, do que a impositiva confrontação com a vida abandonada e negligenciada. Regredimos no luto, reavaliando tudo aquilo que não fora feito, ou mal aplicado às pessoas ou as circunstâncias. Passamos a limpo os erros, os prejuízos e também nos fixamos às lembranças felizes das conquistas tidas nos encontros eficazes. O luto é a oportunidade para a maturidade e a evolução, pela revalorização de tudo o que não se degustou, somente engoliu.

O verdadeiro bem — a sabedoria e a virtude — é seguro e eterno; é este bem, aliás, a única coisa imortal que é concedida aos mortais. Estes, porém, são tão falhos, tão esquecidos do caminho que seguem, do termo para que cada dia os vai arrastando que se admiram quando perdem alguma coisa — eles que, mais tarde ou mais cedo, hão-de perder tudo! Tudo aquilo de que és considerado dono está à tua mão, mas sem ser verdadeiramente teu; um ser instável nada possui de estável, um ser efémero nada possui de eterno e indestrutível. Perder é tão inevitável como morrer; se bem a entendermos, esta verdade é uma consolação para nós. Perde, pois, imperturbavelmente: tudo um dia morrerá. Que socorro podemos conseguir contra todas as nossas perdas? Apenas isto: guardemos na memória as coisas que perdemos sem deixar que o proveito que delas tiramos desapareça também com elas. Podemos ser privados de as possuir, nunca de as ter possuído. É extremamente ingrato quem pensa que já nada deve porque perdeu o empréstimo! O acaso privou-nos do objecto, mas deixou em nós o uso e proveito que dele tiramos, e que nós deixamos esquecer pelo perverso desejo de continuar a possuí-lo! “

 “

Séneca, in ‘Cartas a Lucílio’ (http://www.citador.pt/textos/o-socorro-contra-as-nossas-perdas-lucius-annaeus-seneca)

Imagem

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: