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A formação social, provocada pela necessidade de melhorias à funcionalidade operacional da rotina diária, sucedeu, espontaneamente, num despertar de afetos, consolidando, em essência, num matriciamento social do Sistema Nervoso Central. A relação com os estímulos do ambiente e aqueles produzidos internamente na individualidade de cada ser permitiu uma multiplicidade de sinapses, ação e reação ocorridas entre o neurônio emissor e o receptor, provocando redes cognitivas para a compreensão e a formação de ideias. Os grupos cognitivos elaborados passaram a intelectualizar-se, através da associação de elementos armazenados pela memória. O efeito disso foi o estabelecimento de uma limitação e delimitação entre o eu, o outro e o meio. O homem primitivo deu início a redução de espaço e de tempo entre si e o mundo externo. Diminuiu a lacuna entre a sua ignorância sobre as formas e os métodos de realização de seus atos e dos fenômenos naturais, e assim restringiu o abismo de vazio pertencente. O não reconhecimento evoluiu para o singelo princípio de entender. O reducionismo conquistado desmembrou-se na alternativa de marcar ou demarcar áreas de ação, estremando limites de possibilidades para agir e executar.

Por esse fluxo comportamental em busca de aperfeiçoamento, marcado por conquistas significativas, é que a função mental da consciência expanda-se, tendo como ponto de partida, a cognição (Nicolas Humphrey “apud” Steven Mithen, 2002). Consciência é o atributo de conhecer em si e compartilhar com o outro (Zenan e cols., 1997 “apud” Dalgalarrondo, 2000). Um resaber, especificado pela subjetividade e repassado, colocado em comum, aos semelhantes. Falando em minimizar, o ser primitivo passou a ter a habilidade de antecipar, por conhecer, o que se passava ao seu redor e, também, de pré-definir as intenções e os atos dos seus, pela dedução e a intuição. O método dedutivo, protagonizado por Descartes, foi estruturado milhares de anos mais tarde a esse empirismo animalesco, assim como o intuitivo, disseminado por Bacon e consolidado pela onda mística que assolou o mundo a partir do século XX. A ramificação à essa esfera consciente, foi a exposição de mecanismos de defesa, individuais, justamente para preservarem a área de domínio de cada um. A aproximação levou à identificação e essa a simpatia ou a negação, perfazendo um perfil preexistente para os da convivência.

O homem, ainda muito inicialmente, conseguiu, então, avaliar o que pensava e sentia, não só em si, mas na totalidade, derivando em uma resultante infinita de olhares à vida. Não se pode deixar de considerar que, foi justamente ai, o início da habilidade de julgar e de pré-conceber da humanidade, tidas essas como as grandes chagas da humanidade. É claro que essa rudimentar engrenagem era ativa, eminentemente, na mente de cada uma das partes e, somente aos poucos, passaram a serem divididas externamente. Um crescimento que ocorreu de dentro, do próprio ser, para fora, no mundo que habitava. Parecido com o processo de uma flor desabrochando. Não dá para deixar de ser empático, e sentir que o leque de infindáveis novidades e a rústica estruturação neurológica, clamava inicialmente pelo ensimesmamento dos Neandertais para, assim, ter-se, adiante, as condições de emparelhamento e partilha com os demais. Uma onda propagada a partir de sensações, evoluídas para percepções, sem consciência nos primeiros momentos, moduladas entre a obtenção e a não retenção plena das informações, à uma consciência de si e somente depois para as coisas e as outras vidas. Até mesmo porque a função da memória era tida ainda, da mesma maneira, como simplória.

Outra importante ramificação para esse funcionamento, foi a aparecimento da introspecção, ou, percepção para dentro. Isso marca a atenção concentrada dispensada para si frente ao mundo. Nada mais elementar para os processos de diferenciação de si ao resto. Foi esse foco de concentração que gerou o condicionamento da figura e do fundo, onde a primeira circunda uma área central para a observação e o a segunda, uma periferia sombreada, sentida, porém, sem necessariamente passar pelo registro claro e determinado do consciente. Independentemente de ser registrados, agindo ativamente para a confabulação do pensamento e a posterior e necessária evocação, o material marginalizado existiu e influenciou. Esse aspecto foi corroborado por Sigmund Freud (1900) quando dissertou sobre as teorias do consciente, inconsciente e do pré-consciente, afirmando que não somos detentores plenos da nossa própria vontade, onde somos regidos, em boa parte das vezes, pelo conteúdo que se mantém na escuridão inconsciente da mente: “o consciente inconsciente de culpa”.

O centro é eleito pela preferência, requisitada pelo interesse impulsionado pelo conjunto genético herdado pela concepção somado pela aquisição das características adicionadas pela relação com os incentivos do meio ocupado. A correlação efetiva uma determinante pessoal a ser seguida, fazendo dos demais itens subjacências que circundam o mote essencial que leva o ser como veículo condutor. Humphrey reitera, antropologicamente, o que a psicopatologia reafirmou após uma maior dimensão do conhecimento a cerca do afeto e do comportamento humano: a mente pessoal, ímpar e individualizada, molda-se pelo modelo das mentes dos similares a quem se vive.

“Assim, uma antropologia da consciência não busca a mudança de enfoque da sociedade para o indivíduo, mas antes o reconhecimento da sua relação dialógica: “Devemos focar-nos na consciência, não para fetichisar o self, mas para iluminar a sociedade.” (Cohen, 1994:22). A principal virtude deste argumento, é a sua proposta de uma perspectiva que reconcilie “selfhood” com “personhood”, ou seja, a consciência que o indivíduo tem de si mesmo e o lugar que ocupa no contexto das suas relações sociais.

 Contudo, o que parece faltar, é a especificação do que é, afinal, o self. Cohen (1994) parece entendê-lo como a capacidade que cada indivíduo possui para reflectir sobre a experiência idiossincrática que tem de si e do mundo, mas parece tomar por garantida a forma como isso se processa (remetendo-o sobretudo para processos de raciocínio reflexivo) e, principalmente, de que modo essa experiência é, simultaneamente, constituinte do e constituída pelo contexto social e cultural.

A relevância do contributo de Christina Toren (1990) reside, precisamente, na abordagem que faz à cognição, tendo em conta que uma antropologia que integre o indivíduo no inquérito antropológico não pode descurar  aspectos ligados à consciência, sob pena de reiterar equívocos, assumindo  uma reflexividade permanente nos agentes, que nem sempre existe.

 Toren (1990) procura reconciliar os panoramas teóricos da antropologia e da psicologia, apontando as suas limitações e recuperando, ao mesmo tempo, as ideias mais relevantes de ambos, relacionando o domínio psíquico com as relações sociais, no contexto das quais aquele se desenvolve.”

(Alice Cruz. Terrenos Incertos: Antropologia e Consciência. http://www.uc.pt/en/cia/publica/AP_artigos/AP20.21.06_Cruz.pdf)

 

                Essa compactação de modelos mentais foi o que poderia ter sido. Os recursos dispensados a essa era, devido a limitação, só poderiam ser potencializados, se ocorresse a somatória de experiência e a junção da falta de saber, peculiar a cada criatura. O próprio “self” referido nem existia, apenas uma globalização universal, atomizando o modos operante. Atualmente, no olho do terceiro milênio, encaminha-se para vigorar a particularização do eu, o ego de cada um, formalizando outro tom para limitar e delimitar a interação com o nós. A real e concreta introspecção até agora não executada em virtude da busca feita pelo homem às conquistas externas. Um ponto de fusão com os pressupostos da mística e da teologia que congrega a responsabilidade pessoal sobre os efeitos vivenciados ao longo da existência. O que gera curiosidade para esse aspecto, é a intensa ação realizada por várias civilizações em torno desse encontro consigo, o auto aperfeiçoamento e a reforma íntima. Discussões acerca da erradicação do julgamento proferido e do pré-conceito realizado, dando o direito de todos exercerem o seu bom senso, capacidade evolutiva, sobre aquilo que faz em sua própria vida.

A abrangência social eficaz, só se fará a partir da valorização da identidade. O egoísmo que predomina, resulta, justamente, da intenção de sobrevivência que ameaça cada parte pelo fato de terem como referencial o modelo mental da coletividade, fomentando por milênios os pressupostos do senso comum, ou dos conceitos padronizados para cada uma das diferentes realidades. Se a razão dita que somos os únicos responsáveis pelo que nos acontece e que apenas nós saboreamos os resultados obtidos pelo comportamento e as reações afetivas, logo, nada mais óbvio do que suprir a pessoa com seus próprios atributos pessoais para que assim possa realizar com excelência os enfrentamentos impostos pela vida. Assim, a prática de julgar e pré-conceituar, direcionada ao alheio, poderá ser saudavelmente substituída pela análise e a avaliação dos próprios padrões comportamentais, utilizando-se de fatos concretos e não de devaneios e fantasias produzidas nas margens sombrias da consciência incompleta que se faz por termos o outro como foco da pré-ocupação e da antecipação do que ainda não surgiu. É assim, que para essa fase em que nos encontramos,  que é possível conceber, primariamente, a escalada humana à ascensão. Muito provável que novas situações se agregarão e mudanças serão necessárias a esse princípio, afinal, evoluir é permanente e contínuo. Desse novo ponto, uma ressocialização saudável, integrativa e, de fato, verdadeira, poderá ser conquistada.

Não aleijemos a pobre humanidade mais do que ela já está com tantas sacudidelas da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, de cima para baixo e de baixo para cima. Do individualismo para o colectivismo e do colectivismo para o individualismo. Não sejamos tão crianças que queiramos levantar ao ar a esfera pretendendo agarrá-la apenas pelo hemisfério da direita ou apenas pelo da esquerda, ou apenas pelo hemisfério superior, porque a única maneira de agarrá-la bem tão-pouco é pôr-lhe as mãos por baixo, nem ainda abraçando-a com os dois braços e os dedos metidos uns nos outros para não deixar escapar as mãos e com o próprio peito do lado de cá a ajudar também; a única maneira de equilibrar a esfera no ar é deixá-la estar no ar como a pôs Deus Nosso Senhor, ás voltas à roda do sol, como a lua à roda de nós e assegurada contra todos os riscos dos disparates da humanidade.Imagem 
Não temos mais remédio do que ir aprender tecnicamente como funcionam estas coisas tão naturais!
O Mundo da Natureza é o modelo dos modelos de todas as maquinarias, porque não havemos então de acertar também o mundo social no seu próprio funcionamento como todas as outras máquinas do mundo?”.

Almada Negreiros, in “Ensaios”

(http://www.citador.pt/textos/deixemos-a-humanidade-a-sua-ordem-natural-jose-sobral-de-almada-negreiros)

 

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