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E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.”

Oswaldo Montenegro

                Tanto de fala em afetividade. Os discursos empíricos são carregados de testemunhos sobre o tema. As artes dissertam com voracidade a respeito do sentimento. A vida acadêmica passou a dar um tom científico, explorando e buscando explicações para suas manifestações e, igualmente, as áreas transcendentais, tentam decifrar alguns dos elos perdidos para as reações das pessoas. De fato, o assunto é de uma complexidade tamanha, não só em seu caráter interpretativo, mas, também, nas consequências provocadas ao processo de desenvolvimento e de reforma pessoal de cada indivíduo e o posterior impacto à sociedade.

A afetividade representa toda uma vida, única, ímpar, envolvendo todas as dimensões psíquicas do sujeito. Por sua manifestação e, apenas por isso, é que nos habilitamos a qualificar o que nos cerca e o espaço em que nos inserimos. Caso contrário, a limitação de vazio seria de dimensões incalculáveis, quase que próximas ao infinito, à realidade de cada um. Por essa razão, faz-se necessária uma compreensão que supra as intenções das artes, do populismo, da ciência e até mesmo daquilo que transcende. A integração que envolve e compromete o ser com sua afetividade está, nada menos, do que na associação a todas essas percepções.

Há várias modalidades que constituem a dinâmica afetiva, visto que somos e, “afetamos”, através do que sentimos. Existe um alicerce básico para a estruturação da nossa afetividade. O humor, ou estado de ânimo, é a base para a ramificação de todos os demais tipos de reações frente aos estímulos vividos. É a disposição afetiva que caracteriza uma raiz essencial daquilo que se é consolidando uma usina geradora de convicção para os enfrentamentos da vida. Nessa matriz, vamos assim denominá-lo, trafegam as emoções estáveis, assim como as impulsivas, reagentes numa intensidade maior, quando provocadas diante de alguma situação que as solicite.

A partir do humor, encontramos tipos de vivências afetivas que se manifestam em todos. Não existe uma ordem que as defina, porém, didaticamente, as subdivido em dois grupos distintos, a fim e melhor compreender seus mecanismos e funcionamentos. O primeiro deles seria aquele cuja resposta está veiculada as manifestações mentais inferiores, no sentido de compactuarem com uma reatividade imediata e impulsiva sobre indivíduos e coisas. Encontram-se nas respostas emocionais e passionais as definições para externar a afetividade. Emoções são definidas como respostas pontuais, externadas, situacionalmente, sempre desencadeadas por estímulos importantes. Provoca uma alteração generalizada do corpo biológico, com possibilidade de reações somáticas. Já as paixões, essas se conceituam por um estado afetivo muito forte, dominando toda a atividade mental da pessoa e com isso centralizando todo seu foco motivacional e de interesse, marginalizando todo o restante dos acontecimentos, mesmo que esses sejam tão ou mais importantes que o objeto da paixão aplicada.

De acordo com a evolução filogenética, a estrutura das emoções é consolidada, por partes antigas do Sistema Nervoso Central (SNC), como as “mesiais dos lobos  temporais e frontais. Tais estruturas seriam basicamente o hipocampo, o fórnix, os corpos mamilares, o hipotálamo, os núcleos talâmicos anteriores e o giro do cíngulo no lobo frontal.” (DALGALARRONDO, 200). Essa teoria originada de Papez (1937) possibilita a justificativa para essas manifestações mentais inferiores. Ora, antropologicamente falando, cabia ao homem primitivo fazer uso das emoções e das paixões dentro da forma de relacionamento com o ambiente e as vicissitudes rotineiras. Fomos, inicialmente, reativos, com uma demanda imediata e impulsiva e, apenas posteriormente, é que elaboramos e ampliamos a nossa forma de consolidação emocional.

Aqui entra o segundo  agrupamento, ou, as manifestações mentais superiores. Sentimentos e afetos compõem essa classificação. Sentimentos representam formações afetivas estáveis, são brandos e dentro de uma linha de convicção, associados aos conteúdos intelectuais, ou, às interpretações promovidas para aquilo que se envolve e se compromete dentro das interações. É de cunho eminentemente mental, como rompantes somáticos ocasionais. Os afetos dão a qualidade que pertence ao que se define, ou a ideia. Uma associação praticamente simbiótica, onde uma precisa do outro para se dar vida a vida.

“Exerce a função criativa e abstrata, produzindo ideias e pensamentos. Quando o sujeito encontra-se em processo de evolução, lança-se em empreendimentos nobres, como estudos, pesquisas, novas atividades e trabalhos com o objetivo de fazer com que as pessoas envolvidas cresçam. Caso tal estado não se faça presente e o ser encontre-se em posição de baixa evolução, utiliza seus atributos negativamente, prevalecendo-se do poder e exercendo liderança opressora e autocrática sobre seus dependentes.”

(GOMES, 2000. )

                Fundamenta-se essa composição através dos estudos de MacLean (1952), quando apresenta “o sistema límbico das emoções.” (DALGALARRONDO, 200). Sua teoria aponta o hipotálamo com fundamento básico da expressão emocional, e o córtex cerebral como a região neurológica que interpreta, decodificando o significado das reações. Nas últimas décadas, dedica-se ao aperfeiçoamento dessa compreensão, onde as amígdalas e a porção medial do lobo frontal também são identificadas como agentes de participação dessas respostas afetivas. Esse estudo mostra uma parte, filogeneticamente, mais avançada dentro do processo de desenvolvimento do homem, assim como ocorreu com o controle das manifestações da afetividade.

A teoria psicanalítica, elaborada por Sigmund Freud (1900), é a mais completa e elucidativa em relação às manifestações da afetividade. O pesquisador refere-se ao tema mais marcante para a humanidade, a angústia. Disserta sobre o tópico relacionando o principal conflito humano, desde a época primeva. Sua tese aponta para o combate existente entre as inclinações primitivas que nos constituem, ligadas a um princípio de prazer básico, inferior onde tudo se quer e deseja  contra as restrições padronizadas pela cultura em termos de conduta, impostas pela construção cultural das civilizações. Justamente, são essas inclinações que se norteiam pelas manifestações mentais inferiores, especificamente, quando não ponderadas e dominadas, Em síntese, não representa o que se quer, mas, sim, o como, a forma de busca para suprir essas precisões. A angústia transforma a energia interna, então quando canalizada apropriadamente, fazendo-a distorcida e com isso provocando alterações de sua emanação até a possibilidade de construir um funcionamento patológico da afetividade.

Nessa batalha, há uma sensação contínua de ameaça, não só a integridade do ego, ou do eu, como, igualmente, de perda daquilo que se almeja, ou do objeto desejado, A resolução salutar é quando se transpõe à ameaça uma percepção de oportunidade, ajustando cada um dos polos envolvidos e assim possibilitando uma alternativa plausível as duas demandas. Quando isso não ocorre, flui o sentimento de perigo e de desprazer, afastando o ser de sua zona de conforto e de estabilidade. Leva-o a perder o controle sobre situações que, supostamente, acreditava estar embasado. No caso da certeza de perda, vem à melancolia e a sensação de vazio. Um luto a ser elabora, compensado ou manifesto através de uma formação reativa àquilo que acontece.

Dentro desses mecanismos é que a pessoa vai formando seus blocos emocionais, direcionados a si , aos outros e ao ambiente em que se insere. A associação por identificação, ou seja, a repetição dos estímulos, fomenta esse armazenamento, potencializando suas características energéticas e comportamentais. Quando mais próximos das funções mentais superiores, maior é a probabilidade de uma equação saudável e evolutiva, mesmo que sujeito aos atropelos negativos que existem. Quanto mais ligados às inferiores, ai sim, tornam-se contundentes os desvios emocionais e de atitudes do indivíduo dentro de suas relações.

O fato é que a afetividade, para ter uma canalização adequada, não pode passar pelo crivo da repressão e do controle limitador, impedindo que seu fluxo seja descarregado naturalmente, ao contrário, armazenando-o de maneira aprisionada. Essa forma, adotada comumente, apenas faz com que o ser não viva, de fato, seu atual estágio evolutivo, já que mascara e desvia, concretamente, aquilo que se é, fazendo uso de máscaras e couraças sociais, não pertencentes ao perfil em que se encontra. Apura-se, com certeza, o modos operantes, o como externar essas características que definem o desenvolvimento presente da pessoa. A evolução, real, encontra-se na experimentação daquilo que se é. Mecanismo exclusivo para a obtenção de comparações e aproximações para diferenciar o que se vive e como se está. Num sentido contrário, alterações patológicas da afetividade passam a surgir e trava-se a ascensão que deveria acontecer. Tema do próximo artigo.

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