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Dei início aos meus estudos na área da espiritualidade aos 15 anos de idade. Ao contrário da regra, não me inclinei a isso nem por amor e nem pela dor. Indignado e questionando milhares de coisas após a leitura do livro Nosso Lar, rastreei uma série de bibliografia para confrontar a obra de ficção científica que havia caído em minhas mãos. Só o título original reli em torno de três vezes. Das leituras parti à convivência e estudos nas casas espíritas, passando a pesquisador sobre as relações da saúde mental e as manifestações mediúnicas. Assumi esse empreendimento depois de observar que muitos pacientes que frequentavam os ambulatórios, acometidos por desequilíbrios mentais, buscavam nos atendimentos espirituais um tipo de medicação para amenizar suas dificuldades. Para meu espanto, os doentes saiam dos acolhimentos fraternos melhores do que em relação aos oferecidos pela terapêutica tradicional.

Coincidentemente, fora questionado, recentemente, sobre a minha segurança e credibilidade em relação às manifestações da mediunidade. Percebi-me no túnel do tempo, regressando à minha adolescência e refazendo o caminho da edificação das convicções atuais.Quantas coisas se passaram, experiências vividas e respostas, mesmo sem um ponto final, carregadas de dúvidas, elaboradas ao longo dessas décadas que se passaram. Minha resposta começou a ser elaborada através de uma relação. Mediunidade não é a mesma coisa que médiuns.

A mediunidade poderia, sem dúvida alguma, estar descrita nos livros de semiologia da psicopatologia como uma nova função mental, assim como ocorre com as demais. Apresentei essa possibilidade em 2003 no livro Saúde Mental e Ciência  Espírita  –  Concepções da Linha de Integralidade Soma Etérica. É uma resposta espontânea e involuntária do indivíduo frente à sua relação como os elementos transpessoais, ou distantes da relação material, ou, ainda, vulgarmente falando, espirituais. Todos, sem exceção, somos dotados para esse funcionamento e exercício. O médium é o aparelho que executa essa habilidade e isso, pelo livre arbítrio, é dotado de várias formas e intenções diferenciadas. Voltadas às necessidades, maturidade e caráter de cada pessoa. Esses pré-requisitos podem potencializar ou alterar a natureza desse funcionamento mental mediúnico, da mesma forma que o faz em relação a todas as demais, como por exemplo a inteligência, o pensamento e a vontade.

Sujeitos que ocupam essa identidade mediúnica, por vezes, podem, inconscientemente, o fazerem, a fim de usarem como escudo para suas dificuldades de interação e enfrentamento da realidade que lhes é apresentada. Transcendem o material, fazendo da manifestação um veículo para deslocamento a um imaginário idealizado. Outros, manipulam esse traço, inversamente, para potencializarem sua relação com a vida real, conquistando ganhos à personalidade e ao reconhecimento, sendo assim melhores aceitos e conquistando benefícios com suas supostas habilidades. Em ambas as situações a natureza é eliminada e substituída pela engrenagem da mecânica da vida encarnada, exatamente como muitas outras possibilidades construídas pela humanidade. Nesse momento afastarei da discussão o contingente de médiuns que usam a função mental da mediunidade dentro da filosofia cristã e dos pressupostos doutrinários fraternos e acolhedores.

Dando continuidade a minha resposta, a mediunidade não exercida e compartilhada, assim como aquelas mal utilizadas, podem provocar desequilíbrios às pessoas devido à falta de harmonia consigo pelo não uso de suas capacidades. Refiro-me á formação de sintomas e à concretização de diagnósticos clínicos, direcionados à saúde física, ou transtornos psicopatológicos. É fato que cada pessoa o terá de acordo com sua evolução e necessidade, mas assim o será. Ao longo de vinte anos de convivência com pacientes em clínica e hospitais psiquiátricos, pude verificar que uma das etiologias de vários quadros tratados era relacionada ao desequilíbrio da faculdade mediúnica, ou por agravos aos níveis conscenciais ou por relações aberrantes com o sobrenatural.

Os itens para verificação disso estavam nos discursos, nas visões e nas audições que eram acometidos os pacientes. Também não apresentavam resolutividade aos protocolos tradicionais para tratamento das doenças e quando submetidos a possibilidades diferenciadas para resgate do bem estar, falo da aplicação de métodos de tratamento espiritual, produziam-se benefícios indescritíveis para a retomada de uma vida saudável ou próxima a isso ao menos.

Agora, meu momento de maior reflexão ao longo da elaboração das minhas afirmativas, embasadas pela experiência e percepções, aconteceu no instante em que associei a falta de fé ocorrida e traduzida em grande escala em muitos médiuns com quem convivi. Noto que a fé está presente até o momento em que o exercício mediúnico contribui, expressivamente, aos ganhos projetados às manifestações. Amenizados na dor, a participação e a caminhada pela seara espiritual é ovacionada e enaltecida. Estabilidade conquistada e mantida, questionamentos relevantes passam a surgir pela ambivalência do que é real ou não. Afirmo isso pois transitei por centenas de casas atuantes no segmento da mediunidade e pouquíssimos são aqueles pares ligados à obra do bem que persistem com suas atividades e convictos da opção que um dia fizeram.

Vivenciar o mundo espiritual é uma graça, mas ao mesmo tempo um fato. Passar por essas relações, interagir e auxiliar necessitados, seja pelas conversas, doutrinações, psicografias ou qualquer outro tipo de conduta, tem um caráter de normalidade e naturalidade enquanto nos fazemos partes integrantes. Afastar-se é alimentar a dúvida e seguir pelo caminho oposto. Porém, isso não significa que as interações e as comunicações cessem. Prosseguir é inevitável para quem  já esteve. Acontecer, natural para quem nem pensa em passar perto pelo simples fato de ser inerente a formação humana. Em ambos os casos, volta-se ao desconhecido que por efeito ameaça e atemoriza. O desespero, toma conta e a falta de controle sobre si atordoa e enlouquece, de alguma maneira e em intensidades diferentes.

A mediunidade é uma certeza. Nosso meio de comunicação e interação. Só é loucura por se desconhecer ou mal utilizar. Só é falta de fé se não a reconhecer em virtude de uma visão torpe e desacreditada de vida em si.Imagem

2 Comments

  1. Clécio, ótimo texto. Está dentro da visão Transpessoal que estou fazendo pós agora. Mesmo antes da Psicologia ou da Doutrina Espírita entrar na minha vida, eu também observava esse fenômeno do desequilíbrio mediúnico ser confundido com transtorno psicológico. Posso compartilhar esse texto com meu grupo? Abraços, Chico.


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