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O tema mais discutido e as políticas públicas de saúde com maior incidência na nossa sociedade nas últimas décadas é a relação com as drogas, sejam essas lícitas ou ilícitas. Investimentos altíssimos e discussões científicas exaustivas sobre o caráter epidêmico nessa relação entre o homem e seus veículos de fuga da realidade. Além disso, devido à complexidade desse transtorno e a demanda apresentada, divisões significativas nas escolas voltadas ao diagnóstico e tratamento das substâncias psicoativas, debatem, infrutiferamente, a respeito da eficácia dos processos de redução de danos a uma faixa estatística de dependentes. Não se questiona a necessidade curativa, muito menos a preventiva direcionada ao mundo das drogas, que por sinal, toma conta, genericamente, de todas as civilizações, sem distinção para os traços epidemiológicos. Meu artigo de hoje não tem a finalidade de entrar nessa seara, apenas descer um degrau e analisar outro tipo de vício ou dependência, que por sinal, em muitos casos, transforma-se numa mola propulsora para a associação da química como opção de comportamento.

                Se existem dúvidas sobre a certeza epidemiológica das drogas, acredito que ninguém questionaria esse traço de perfil aos vícios de comportamento. Universalmente falando, todos, sem exceção, apresenta algum tipo de conduta repetitiva, um estilo de vida, um hábito ou qualquer outro tipo de conceituação. Lembrando que veneno é definido de acordo com a dosagem e que essa poção só a é assim conferida quando feri a integridade do viciado ou daqueles que estão a sua volta. Agora, como isso se desencadeia? Ao nascermos, isentos de registros simbólicos e estruturados, iniciamos a nova trajetória pela vida. O processo de aprendizado, através dos estímulos educacionais e culturais, vão estruturando referências valorativos em na personalidade, fundamentando nossas características pessoais, ou, psicanaliticamente falando, aferindo o nosso caráter. Esse mecanismo é apreendido. O que é inato e constitucional é o temperamento que, associado ao caráter, fundamenta, então, a personalidade.

                Poderíamos ponderar que o temperamento é um mix de todas as experiências anteriores, definindo no reencarne, o estágio evolutivo em que a alma se encontra e, então, manifestarár-se. A somatória dessas vivências, ocorridas pela repetição de padrões oferecidos pelos cuidadores e responsáveis, estabelece núcleos de referência a serem escolhidos e aplicados no decorrer do amadurecimento consequente desse processo de desenvolvimento. Os núcleos se estruturam em tipos de ferramentas, especializadas, a serem aplicadas frente aos desafios e obstáculos ocorridos nos caminhos da vida. Esse mecanismo origina a pré-concepção e os elementos para julgamento que adotamos nas nossas relações com as coisas e as pessoas. Todo novo estímulo é anelado aos núcleos formados e armazenados no banco de memórias e nos conjuntos de experiências, atuais ou pretéritos, que se manifestam concretamente, pelas imagens do que passou, ou, pelas sensações daquilo que não se tem claro, porém, efetivamente, é percebido de alguma maneira por algum tipo de sentimento.

                Atitudes pessimistas, interações negativistas, ponto de vista radical, a submissão ou o autoritarismo. A postura egoísta e a arrogância. Ser dependente de alguém, falar mal dos outros, o altruísmo exagerado e sem limites, os favorecimentos e as contrariedades em relação às situações, enfim, todas as muralhas erguidas com a finalidade de proteger nossas limitações e muitas vezes fortes tendências para sermos o que abominamos. O interessante é que há um fio, onde a ponta que origina esses novelos está na formulação de ideias sobre algo. A etapa de experimentação dessas ideais consolidam suas verdades e as razões lógicas para o exercício da racionalização e da luta pela imposição a outras verdades que nos cercam e aparecem,  sem menos esperarmos, para contrapor tudo àquilo que desejamos solidificar. A repetição da experimentação transforma-se numa recorrência que se padroniza como o modos operantes que funciona e, além disso, reduz os níveis de ansiedade e possibilita o controle sobre todo um sistema onde haja inserção.

                Nessa fase, consolidam-se, então, as crenças. O indivíduo passa a crer, mesmo que a lógica concreta não se faça presente, não importa. O que vale é a razão subjetiva para dar vida a vida irracional, agora, catalogada e disseminada. Toda crença tem mitos, sonhos ou quimeras projetados cuja intenção e a realização ou a concretização de algum tipo de desejo, mesmo que não muito bem definido. No caso dos vícios de comportamento, o mito está relacionado à aquisição de algo para preencher o inexistente, no próprio pensamento ou no coração. Delego À crença a minha incapacidade e incompetência para enfrentar a alternativa. Ritualizo, assim, como todas as forças a execução plena do que acredito e vou propagando isso a quem posso como se fosse uma doutrina, ou a venda de um desses mágicos produtos que prometem o emagrecimento, a eliminação de celulites e de brinde uma plástica por osmose para contentar os insatisfeitos.

                Todo vício de comportamento é pautado em dois alicerces fundamentais e nada mais: o preparo físico para julgar e pré-conceituar a si, as outras pessoas e os fatos. Isso acontece pela análise seguida de uma avaliação, findando pela determinação de uma sentença sobre as relações estabelecidas pela minha verdade pessoal. Essa referência é que pauta a minha conceituação perante todo o resto que surge. Veja se parto da referência, existe uma sólida afirmativa, anterior, para direcionar o novo e se atribuo esse valor, grande por sinal, diga-se de passagem, é porque o que defino já é da ordem da crença interna. Tudo que parte dos outros, primeiramente, é colocado em xeque para em seguida observar a possibilidade de seleção e compatibilidade com as crenças que regem e conduzem.

                A adoção de padrões impede a multiplicidade e consequentemente fragiliza e limita o indivíduo. A frustração e a ansiedade assolam o cotidiano e o padrão vibracional reduz, caminhando para um negatividade progressiva. A harmonia e o equilíbrio são afetados, independentemente da intensidade, fazendo com que a pessoa se torne mais suscetível aos impactos, ao novo e ao que difere da maneira de perceber a vida. Esse enfraquecimento vai dilacerando a relação consigo e minando as frequências formadas. Todo e qualquer vetor de maior força impactará sobre si, desestabilizando. Isso é uma auto-obsessão. A mesma produção dessa estrutura viciante das outras pessoas, diante da debilidade descrita, confronta  e contamina o viciado no seu comportamento, colocando em dúvida ou desafiando, em todos os momentos aquilo que foi estruturado como defesa ou meras ações de preservação. Aqui, apresento os mecanismos de obsessão do encarnado. Um jogo de tentações provocado para que se assumam os vícios e dos outros, abandone-se as supostas verdades e se adote novas tendências. A mais pura das fragilidades humanas.

                Alguns que lendo minhas colocações poderiam estar se questionando sobre o exercício dos valores e a similaridade com todo o conjunto viciante que citei até agora. Uma indagação pertinente. Apesar da aproximação estreita, as poucas diferenças factuais desencadeiam um abismo que os separa: o respeito. O valor verdadeiro, não a bijuteria ideológica, não é imposta, muito menos absoluta. A joia rara do valor é apenas oferecida compartilhada, pois reconhece as diferenças e é consciente da diversidade de maturidade de seus apreciadores. O valor é tão rico que permanece sempre aberto a somar, jamais dividir. Os valores entregam-se aos que o acolhem e aguardam, sem expectativa, aos que ainda não o percebem.

                O vício de comportamento padroniza e a padronização leva a estagnação. Tudo que é estagnado perde a essência da verdade e do saudável. A saúde e a veracidade são renovadoras, ampliando fatos, colhendo novas informações e gerando conhecimentos múltiplos. Por isso não pode ter a característica recorrente e obsoleta. Apenas faz andar em círculos, rodar, rodar, rodar… gerar tontura e jamais sair do lugar.Imagem

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