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E ele era alguém, um sujeito indefinido, que, ao mesmo tempo, categorizava o princípio e a razão de todos. Não fazia diferença, já que essa igualdade totalitária dissipava-se em diversidade não identificada, sem reconhecimento de uma identidade para cada um. Havia números e o rol de batismos que nomeava e, de serventil utilidade, facilitava apontar cada um naquele todo, indivisível. Algo em comum, universalmente, pertencia a essa população: o céu, cobiçado, almejado e causador da ansiedade que movia a dinâmica de vida desses que,  ávidos salivavam, pela aproximação à idealização.

Ele nasceu. Antes mesmo de iniciar sua caminhada, foi apontado por uma nomenclatura eleita, nomeou-se com algum tipo de desígnio. Sem consciência, apenas saboreando as sensações do novo estado, recebeu as vestes, através de um rito, de infinitos mitos que o religaram a outro ser, externo, imaterial. É claro que não estavam certas as distinções entre crer, temer ou obedecer por conveniência e expectativa. Não faz mal, afinal, tudo era definido em meio à inconsistência do que era impreciso. Não se viam reis, nem mesmo magos, mas os presentes que festejavam a inédita vida que se aproximava, era justificada pela emoção, mesmo sem uma racionalidade pautada pela lógica, contudo, rica em falácias de apelo à eternização das fantasias.

Alguém o pegou (ele) pela mão e o introduziu em todos os sistemas ofertados, intencionando a construção de uma suposta alegria, que somada a todas as demais, falseadamente prometidas, desenharia a grande obra artística intitulada felicidade, recompensa à luta e ao bom comportamento. Passou a aprender, mesmo sem a compreensão apropriada. Reproduziu, mecanicamente, muitos significados que, mesmo reinterpretados, nem sempre eram aplicados. Ocorreu algum tipo de formação, um direcionamento para a ação frente a esse grupo que pertencia e, enfim, uma ação direta para a realização projetado pelos muitos alguéns a quem ele era tutelado.

                “O inferno e o céu continuam a existir. São eternos. Quem os tira do céu tira-os para a terra.”

Autor – Pessoa , Fernando

 

“Queremos ir ao Céu, mas não queremos ir por aonde se vai para o Céu.”

Fonte – Sermões Autor – Vieira , António

http://www.citador.pt/frases/citacoes/t/ceu

                Fernando Pessoa, somente no século XIX, conseguiu extrair desse conjunto, o princípio dessas intenções de galgar para se chegar ao céu. Seu pressuposto, mesmo versado pela poesia, sua alma natural, apresenta-nos uma ambivalência conhecida. Mostra que se o céu está presente e é bom, tornando-se o sentido para a caminhada, da mesma forma, convivemos com o inferno, seu oposto. Revela-nos, à consciência, já que já a era percebida, que esses espaços não se distanciam dele (ele) e nem mesmo ausentam-se de alguém. O céu e o inferno pertencem a todos e a intimidade com qualquer um depende do que se está e do como se conduz para essa formação. Antônio Vieira, por sua vez, educa ao público comum que, intenciona-se algo e direciona-se por viés diferentes a esse propósito

Foi esse saber, indiscutivelmente, associado a outros preexistentes, que aproximaram a sombra do paraíso. Estar, é diferente do que se deseja ser, ou, da proposta em assumir aquilo que reflete a satisfação e a aceitação do outro. Assim se deu com ele. Naturalmente, tinha em sua direção, a meta de um céu, e assim o fez. Realizou vários tipos de aprendizado para se habilitar e puder competir com facilidade em suas conquistas. Trabalhou horas, dias, meses e praticamente quase todos os anos de sua vida. Atravessou madrugadas, finais de semana e a maioria das horas de lazer, ocupava-se para ampliar as riquezas e o conforto que considerava fundamental para seu sucesso. Sua aplicação foi tamanha, abrindo mão da relação como filhos que teve, da esposa que optou em ter. Foi tão meticuloso que suas interações foram centradas em uma caixa quadrada em que todos os contatos que lhe eram convenientes ali estavam e podiam ser acessados. Chegou ao ponto de consolidar com tamanho êxito seu mundo que nada o influenciava e nem desviava a sua atenção. O mundo poderia terminar que isso nem passaria por sua atenção concentrada e determinada na finalidade do céu.

O céu que havia sido revelado, passou a ser confrontado. Apesar desse resultado, deparava-se que nem sempre fazia uso do que obtinha. Que o amor que produzia, raramente conseguia ser drenado em favor dos escolhidos que passaram a fazer parte de sua vida. Muito tempo passou, contudo, ele tão somente se deixava isso como a brisa suave que passava e depois dava continuidade ao princípio que estabelecera. Até que, num determinado instante, intensificou a sensação de permanecer só, mesmo quando acompanhado, miserável, no mesmo momento em que seus bolsos transbordavam em moedas. Sem teto e nem mesmo um lar na mesma hora em que seu corpo repousava nos melhores e mais confortáveis lençóis de esticados na cama que ocupava a gigante estrutura de concreto onde se hospedava. Repentinamente, deu-se conta de que a luz do céu em que pensava aproximar-se, ofertava um manto de sombra, fruto de suas vontades, que foram desejos de outros e perpetuaram-se pela motivação de todo mundo. Ele passa a entrar em contato com a sombra que até então se tinha como opositora, rival e incabível aos propósitos aplicados.

“Não preciso de amigos que mudem quando eu mudo e concordem quando eu concordo. A minha sombra faz isso muito melhor.”

Plutarco

 

“A vida é uma simples sombra que passa (…); é uma história contada por um idiota, cheia de ruído e de furor e que nada significa.”

William Shakespeare

 

http://pensador.uol.com.br/sombra/

                Ele foi o melhor amigo de sua ambição. Racionalizou, nego e usou todos os mecanismos de defesa que poderia para manter-se firme àquilo que queria. Cegou-se, tirando dos olhos a luz e desenhando à sua volta vários pontos escuros que o impediam de ver o que era. Vivenciou em si o que Plutarco havia orientado. Caiu em si e releu a própria história que escreveu. Abateu-se com os ruídos e furores Despencou na insignificância de sua idiotice shakespeareana. Aquilo que um dia fora divinizado, passou a comédia no ápice de suas realizações e acabou em tragédia na hora da tomada da consciência.

Notou que seu céu possuía vários pares de orelhas e multiplicava-se ao infinito, numa razão desproporcional em bocas. Os olhos tomavam contam de todas as partes de um corpo indevido, já que o céu era para ser da ordem do imaginário. Um ser limitado frente à vastidão daquilo que é, com uma extensão de pele que dava o tom do sentir por onde estava e passava. Ele olhou-se, refletido em imagem, e num piscar de suas pálpebras, mergulhou num labirinto repleto de sem saída, uma sala de espelhos que ofertava numa repetição em milésimos de segundos, as próprias faces de si mesmo, utilizadas nessa trajetória. Ao mesmo tempo em que se via com traços de todos, era tomado pelo sentimento angustiante da presença de ninguém. O único não localizado nessa sua experiência, acabou sendo ele mesmo.

Despertou à realidade desconhecia. Oscilou entre o céu e o inferno, simultaneamente, dentro da própria vida e com isso, permaneceu, continuamente, em lugar algum. Fora eleito o representante de todos, pela magnífica capacidade de reproduzir o interesse e as necessidades de cada um. Centrou-se no eixo alheio, dissipando a própria identidade e o desejo latente que pulsava a fim de se manifestar. Ele consagrou-se à vida eterna, perdendo à vida para a falta de sentido e sua insanidade de direções, entretanto, alimentou e nutriu a semente do controle e da limitação que confortava a estabilidade de todos. Foi visto como herói. Hoje se sabe que ele se reproduziu veloz e incontrolavelmente, tomando conta de todos os espaços em que todos habitam. Imagem

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