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Onde há uma mãe e seu filho, lá ou em algum outro lugar, encontra-se o pai. Figura, biologicamente universal e socialmente pertencente aos clãs e às comunidades. Já o cálice, esse é sagrado, não apenas dentro da ritualística religiosa, mas, assim como dentro do cenário político, onde desde a era do domínio da monarquia, brindava-se e se confraternizava às voltas das mesas que dispunham as ceias de acolhimento dos influentes, dos militares e de outras figuras representativas do próprio governo ou dos controles autocráticos de outras nações e povos. Entretanto, há uma abstração, um tanto quanto representativa pela ação lógica, situada em, cale-se. Reporto-me aos signos naturais que formam a estrutura humana, numa tentativa, talvez vã, de edificar uma compreensão a cerca da dinâmica comportamental, e funcional, existencialista em verdade, da trágica situação do homem frente à sua construção política e coletiva.

Tragédia não conota, de acordo com a percepção popular, algo catastrófico, mas, apenas, a conclusão de algo onde a felicidade se ausenta. De origem grega, a palavra passou a ser aplicada ao contexto cultural, onde as peças e os poemas produzidos retratavam, justamente, essa não felicidade de um povo qualquer, projeção dos gregos em detrimento à própria realidade. Antígona, personagem descrita por Sófocles, exemplifica essa condição, quando vai ao encontro de Creonte na tentativa de conseguir velar o corpo do irmão morto que, punido pelo soberano, é impedido de ser ritualizado. O enfrentamento da personagem, bem como seus rompantes de afrontamentos, em instantes delicadíssimos no diálogo torna-se não reconhecidos. Ao contrário, a mulher, cala-se, frente à imposição autoritária do senso comum, vigente à época do relato. Poderia se considerar que, Antígona, simbolizava nada menos, do que a carência e as precisões de um povo, ao qual não se governava por e pela massa, mas, somente, pelos interesses e conveniências levantadas pela minoria dominante.

Creonte, não apenas era pai de Hêmon, futuro marido e defensor de Antígona, mas tinha sob sua tutela, a vida e a orientação de milhares de súditos, filhos de seu poder. Foi criador e autor de estratégias. Protetor, defensor e ao mesmo tempo algoz. O pai deles, seu povo, pai nosso pela evocação e veneração dos tutelados. E essas agregam ao meio reprodutivo a função paterna. Zeus não tinha filhos, porém, era tido como o pai de todos os deuses. Uma idolatria inerente a essa figura que se constitui em limitador, orientador e objeto de amor daqueles que protege, supostamente. Agregando ao império, o “calix” (do latim), ou “kylix” (do grego), salvaguarda o vinho que elimina a sede e ao mesmo tempo faz a boca calar pela degustação de seu conteúdo. É ícone da celebração, festejando, unicamente, tudo aquilo que se identifica, simpatiza e internaliza, jamais seu opositor.

“Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue”

 

                Chico Buarque, inspirado pela(o) pai(xão), do desrespeito e da invasão dos limites privados dos cidadãos brasileiros, imortalizou e deu contemporaneidade a versos que se seguirão presentes na música, na poesia e em todas as áreas das ciências humanas. Grita, em coro, para que aquele que lidera e assume o controle do estado, para falar e assim exercer o livre arbítrio. Conota o silêncio sufocado, na época pela repressão da ditadura, em uma semelhança secular que impede o a de vir de cada um, do uno, que é a individualidade e a identidade do sujeito alienado parental. O vinho que tanto acompanhou a história, embriagou o Ato Institucional (AI5), tornado a felicidade tão ambicionada em sofrimento e padecer da maioria sofredora. Antígona, que representou uma causa própria, em verdade, apenas emergiu de uma massa que se calava sob os efeitos de tantos porres de “vinho tinto de sangue” que entorpeciam o medo que fazia acatar os cidadãos.

“Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa”

 

                A representação social é algo, no mínimo, intrigante e, ao mesmo tempo, espetacular. Depoimentos verificam, no gerenciamento de suas rotinas, o incômodo e a dificuldade de se manterem silenciados. Complementam, informando às vezes em que o prejuízo acontece mesmo quando em manifestações discretas de suas inconformidades. Sussurros calados, em situações efêmeras. Tomados de passionalidade, assim como o fez Antígona, adentrando ao espaço de Creonte e suplicando objetivamente pelo irmão morto, ou, discreta e imperceptivelmente, alcançando interpretações dúbias pela manifestação de atitudes indiretas, subliminares, não menos explícitas e desejantes que o próprio verbo bem pronunciado. Não é pela manifestação da mudez que o desconforto e a vigilância não se manifestam, temeroso pela reatividade daqueles que se contrariam, sem mesmo saber o que justifica tal repressão. Essa foi Ismene, irmã de Antígona, que acatou a posição de Creonte, mas, rebelou-se em seu mundo interno diante do afronte de seu líder. Enquanto Antígona emitia seu “grito desumano” com a finalidade de ser ouvida, Ismene, atordoada e calada, protegia-se do monstro que surgia “da lagoa”, fecundado e nutrido, como analogamente ocorre no líquido amniótico da mãe que gesta após a concepção com o pai. Figura apresentada por seu governante nas horas de contrariedade.

“Talvez o mundo não seja pequeno (Cale-se!)
Nem seja a vida um fato consumado (Cale-se!)
Quero inventar o meu próprio pecado (Cale-se!)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai! Cale-se!)
Quero perder de vez tua cabeça! (Cale-se!)
Minha cabeça perder teu juízo. (Cale-se!)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (Cale-se!)
Me embriagar até que alguém me esqueça (Cale-se!)”

                Assim como na obra de Sófocles, a canção de Chico apresenta um coro, ou a representatividade do senso comum, aclamando, com ou mesmo sem concordância, as solicitações do Corifeu, retratado por Creonte em “Antígona” e pelo Estado no período da revolução. O questionamento proferido pelos que enfrentam, Antígonas, Marias e Joões, ou pelos que reclamam silenciados, Ismenes, Pedros e toda uma multidão de amedrontados, confundem-se em uni som, mesmo sem a emissão de uma única palavra que seja. O que é o contestar, a não ser o livre exercício de gerar possibilidades, alternativas, integrar-se a uma das várias faces desse diamante chamado vida! Há um mundo pequeno, minúsculo em alguns casos, assim como a imensidão nos pertence. Suas finalizações, apenas são situacionais, sem poder se aplicar a arrogância de uma conclusão que a fecha. Criar é da natureza humana e por esse princípio somos regidos sem que se imponha a estagnação ou a mera aplicação da coisa pronta sem a chance de também gestar o novo. Ofertar ou retirar a vitalidade vem da tentativa e do erro, da experimentação, um belíssimo aprendizado que se não exercido, atesta o óbito filosófico ao direito da vida. Guiar-se pelo que se percebe, pensa e reage, é a essência do abandonar a cabeça alheia, sem se guiar pelo modelo pronto e que reclusa, denegando o juízo do outro em prol da própria capacidade que habilita em observar e pensar os fatos e gerar as verdades pessoais imediatas. Ser o que é, como é, mas pertencer ao meio, caminhando pelas ruas, ofertando e recebendo, embriagando-se com o néctar do “vinho tinto de sangue” que corre nas veias dos que participam. Muito mais do que ser esquecido, é ser respeitado por esse modo de se conduzir, sendo esquecido não pelo abandono, mas, pelo direito de se expressar e alcançar o que é preciso.

A eclosão de sentimentos e a atitude das pessoas não é um aspecto pertencente a um conjunto unitário. Há uma intersecção onde ações e reações pertencem a outros espaços, em outras épocas e ao longo de toda a antropologia que remonta a humanidade. Antígona, foi batizada, repetidamente, em episódios diferenciados da história. Enfim, a tragédia humana é contemporânea, alterando-se personagens, enredos, mas, de composições capitulares . Não penas formalizadas pelas artes, mas igualmente presente na vida de cada um, também somos personagens e, simultaneamente, autores, de alguns finais repetidos e frequentes onde a felicidade não participa dos ciclos que se encerram. A tragédia humana, nada mais é, do que a representação comportamental daquilo que se vive, logo, se sabe, sobre como atua a dinâmica social e a busca pela compreensão a identidade de cada uma de suas partes.

Não se pode negar, nem mesmo anular, a paixão que se tem por esse saber, não só privado mas coletivo. Se há um ignorar, é óbvio, pois caso contrário, não testemunharíamos tantas reiterações, equivocadas e ignorantes, como as testemunhadas. Querendo ou não, é por esse empirismo popular, que se coadunam a maioria das atitudes e das qualidades relacionais, isso é um fato. Porventura, o retrato fiel daquilo que se chama democracia, pois vem do povo, seus efeitos vão em direção das massas e a construção, de modo ímpar, artesanalmente, produzida pelo povo. Bom ou ruim, certo ou errado, saudável ou não: não existem problemas, apenas escolhas e todas essas, oriundas das relações sociais. Esse contexto, inseparável, nos torna filósofos e políticos, pela ânsia em saber e pela simplicidade em participar.

Percebe-se que qualquer um desses personagens, é ávido pela transformação de um estado e a aproximação da liberdade, de fato. A demanda pela libertação do cativeiro pessoal e da imposição coletiva, mesmo que velada, é absoluta. Os dois únicos veículos eficazes para essa conquista estão no saber, iniciando-se por si mesmo e depois por onde e com quem se insere e através do exercício político, factual. Não a do cargo ou conferido pela força do poder, mas, simplesmente, pelo direito à cidadania e a execução com excelência da responsabilidade social.

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