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A Escolástica, vertente da Filosofia, teve seu período de atuação entre o século IX e o XIV. Sua formação ocorreu através das escolas dos monastérios, cuja uma das finalidades era a habilitação dos representantes de Deus para o exercício do sacerdotismo e da pregação, ou, propagação dos ensinamentos cristãos. Seu maior expoente foi Tomás de Aquino, tanto que o período é fragmentado em período pré e pós-tomista, em alusão ao pensador e religioso. Dentre as várias obras compiladas, encontramos em sua “Súmula Religiosa”, especificamente na segunda questão, que disserta sobre a existência de Deus, o tratado mais significativo e influente à sociedade daquela época e, contemporaneamente, as que se sucederam até os dias atuais. Entretanto, faz-se necessária uma rápida retrospectiva histórica, associando ao movimento do Filósofo.

A presença de Jesus Cristo na história, vai além de um marco épico e definitivo para a cultura. Socialmente falando, havia uma desordem dentro da organização política e comunitária dos povos e a pregação do aparecimento de um messias. O Judaísmo, religião oficializada pelo império romano, aplicava-se a esse contexto como forma padrão de domínio no continente europeu e nos países do médio oriente. O Nazareno foi de origem judaica, assim como seus discípulos e boa parte de seus seguidores cristãos. Econômica e, geograficamente, após lutas travadas com o grande expoente do cristianismo, Jesus, e seus simpatizantes, Roma percebe que pode transformar a ameaça em oportunidade, agregando aos seus interesses e conveniências o movimento que tomava corpo do elemento coletivo. Assim, institucionaliza-se o cristianismo e passa-se a dar forma a Igreja Católica.

Essa última afirmativa é verificada pelo Concílio de Constantinopla, no século IV, pontualmente em 333 D.C. O Papa Constantino aproxima da constituição dos personagens na igreja, a imagem da figura feminina, atribuindo a Maria, equivocadamente, o papel e a responsabilidade de mãe de Deus. Promove o ser feminino, então, de uma laica posição no meio dominado pelo homem, hipervaloriza e anula sua ação de sujeito participante da promoção social, como por exemplo, a dogmatização do componente sexual. A finalidade foi quantitativa, ou seja, abranger um número maior de pessoas para a religião, assim como qualitativa, consolidando a estrutura familiar como empreendimento ao estado e um melhor desempenho material aos povos.  Essa reflexão é fundamental pois não apenas os pressupostos de Aquino instigam uma real religação a Deus, cunho da origem religiosa, mas, também, passa a ser usada como mecanismo de ação frente ao indispensável arrebanhamento de seguidores para a manutenção dos interesses dos governantes dominantes e do controle da sociedade em geral.

“Numa sociedade em transição, tramitava a consolidação de uma existência espiritual, valorizando a imperfeição de todos pela junção do corpo com a alma. A ressurreição de Cristo formalizava sua ideia de imortalidade dessa alma que deveria colocar-se, então, à disposição, continuamente, da superação e de um princípio evolutivo. O verdadeiro sentido para a existência do eu e de suas relações políticas, ou coletivas, frente aos desafios e as vicissitudes impostas pela realidade da vida. Para isso, pregava aos seus e aos seguidores, que a fé deve acontecer antes mesmo do conhecimento.

Apesar de um novo julgo, onde a batalha de ideias surge como um contraponto às bélicas, o paradigma social ainda era eminentemente competitivo e voltado para a conquista geográfica e política, promovendo a dominação dos povos e a padronização de posturas veiculadas a um senso comum, conveniente e interessante para a manutenção do domínio. O caos social, deliberado por essa postura impositora e inquisitória, contrapunha-se, ainda, aos pressupostos concebidos por Santo Agostinho.Institucionalmente, a sociedade europeia, agora, era conduzida por meios semelhantes ao que eram praticados, porém, agora, com um princípio de justificativa e de motivação eclesiástica, tomadas em nome de Deus.

Deus, mito divino, usado para as novas, contudo velhas, propostas de conquistas, ambicionadas pelo desejo de controle do homem. De certa forma, isolado em seus pensamentos e na relação com sua experiência de vida, Agostinho teorizava um modos operantes diferenciado para o que era vigente. Não creio numa compreensão totalitária de seus pressuposto para o contexto histórico em que se inseria, mas, apenas, um reconhecimento de sua bondade e de sua conduta louvável para a edificação de um modelo, realmente, diferente e compatível com as novas pregações efetivadas pelo sistema vigente.”

(GOMES. 2013. História da Filosofia UFSC)

Esse enredo, posteriormente, associado ao movimento da Gnose e de outras correntes, favoráveis e desfavoráveis à cultura da religação, emerge a Patrística, fundamentando os alicerces para o culto a um novo saber, não conhecido, necessariamente, mas preciso, frente às demandas de uma velha história que se propagava. Ai, então, surge a identidade de Tomás de Aquino, como defensor ferrenho aos novos paradigmas.

Quando o autor indaga sobre o conhecimento da existência de Deus, aborda a natureza das coisas, inserida num conjunto universal, onde todos se apropriam disso. Logo, Deus está em tudo e passa a ser somente carente de percepção por aqueles que com ele se relacionam. Como partes do todo, o ser humano tem em si, intrinsecamente falando, a verdade, atribuída à existência de Deus, à sua disposição. Já a demonstração dessa existência, a ele parece não demonstrável. Um antagonismo a primeira premissa, já que se há a natureza e a ela pertencemos e por isso identificamos a Deus, sua demonstração encontra-se na ação de todas as coisas, mesmo que não considerada, até hoje, pelo universo acadêmico. A existência de Deus, aponta como sendo algo que parece ser, acontecer. Seu constituinte infinito, onipresença, oniciência e onipotência, o fazem estar e ser em toda relação de tempo e espaço.

Assim, até o final do século XIV, toda a construção de conhecimento, pautada nos estudos de Tomás de Aquino, obviamente, entre outros, dá à estruturação política vigente, os subsídios fundamentais, para um comprometimento do privado com a consolidação desse senso comum ansiado pelas classes dominantes. Essa busca incessante, fez do homem um ser que se eximiu da sua responsabilidade frente os processos naturais de suas vidas, atribuindo a um ser externo essa premissa. Além disso, estabeleceu-se uma das origens organizadas em relação a diversidade, ou seja, marginalizaram-se os filhos desse Deus intelectualizado, como os sendo de mérito, apenas os que o obedeciam e seguiam sua linha de convicção. Vale lembrar, que nem Jesus, muito menos Deus, apontou nenhuma dessas missivas, mas, tão somente o sujeito de sua interpretação o fez.

Por tudo isso, moldamo-nos ao Deus homem e regemo-nos pela estruturação material. De fato, passou-se a buscar a Deus a fim de fomentar o que se desejava e, não , necessariamente o que era preciso e muito menos postulado pela essência de religação. O efeito disso está na eclosão do Renascimento, quando o homem assume-se como regente da onipotência, onipresença e oniciência, e passa a interpretar, dentro de uma justificativa lógica, o que é e como o é, frente aos estímulos do meios. A humanidade caminha dentro da busca dessa conexão entre o que é divino e aquilo que pertence ao homem. O terceiro milênio marca uma nova etapa para essa transição que ainda não solidifica-se, mas que ainda mantém o tom desnorteado para um encontro imprescindível. Imagem

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