Skip navigation

E disse o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal, e que ainda retém a sua sinceridade, havendo-me tu incitado contra ele, para o consumir sem causa.


Então Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida.
Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face!


E disse o SENHOR a Satanás: Eis que ele está na tua mão; porém guarda a sua vida.”
Jó 2:3-6 (
http://www.bibliaonline.com.br/acf/j%C3%B3/2)

 

                A expressão popular, tão comumente utilizada pela massa social, talvez, não represente, na íntegra, a passagem do Jó nos livros do velho testamento. Uma provável interpretação humana sobre a narrativa do mito de um homem de fé. Paciência, originalmente enraizada na palavra paz, oriunda de uma fonte indo-europeia. Sua derivação latina “Pati”, congrega a ação de aguentar, suportar o sofrimento e a dor. Os gregos, em sua raiz “Pathe” amplia a definição falando em sentimento: aguentar o sofrimento do afeto, o sentimento abalado. O que foi afastado das origens da palavra paciência foi o direcionamento grego, para uma ramificação patológica no sentido de se tratar a pessoa doente, “patos”( http://origemdapalavra.com.br/palavras/paciencia/). A frase pontual que afirma a paciência de Jó, conota a capacidade do ser para suportar o insuportável, inclusive, vangloriado por atitude tão pouco comum frente às características de uma cultura imediatista e descartável como é expressa, principalmente, no ocidente. Uma postura percebida com estranheza, fazendo do indivíduo que a ativa, alguém no mínimo estranho e à margem do padrão. Há quase uma não conformidade por tal atitude e, muitas vezes, uma total desqualificação para com quem a adota, por abandonar a esperteza tão cultivada pela maioria.

De fato, o homem de fé, que segue princípios e valores, e não me refiro somente aos espirituais ou religiosos, aponto, sobre tudo, as virtudes humanas a fim de chamar à atenção dos mais céticos ou agnósticos. São, com certeza inquestionável, a carência de uma filosofia consistente e saudável que provoca a maiores e mais drásticas chagas enfrentadas pela coletividade humana ao longo de toda sua história, até os dias de hoje. Jó era um homem simples, camponês, pai de família e fruto de uma geração de enlaces monoteístas, onde a figura de Deus era divinizada, considerada como o grande provedor e condutor da dinâmica sobre a vida. Todas as histórias propagadas, através de gerações, descreviam a benevolência do criador, mas, ao mesmo tempo, a necessidade de quitação das próprias dívidas angariadas pelas escolhas de seus filhos. Considerando uma civilização maltratada e com inúmeras dificuldades, além da falta de conhecimento sobre os fenômenos tanto naturais como os não gerados ainda pela inteligência do homem, a reverência era singular, própria dos que ansiavam por proteção e amparo.

O bem e o mal, naturalmente presentes no cotidiano, oscilavam não só na rotina dos povos, como nos discursos daqueles que profetizavam a palavra de Deus. Logo, a rudimentar estrutura de vida, somada as ameaças do desconhecimento, com a iniquidades vividas, faziam de Jó, assim como muitos outros, tementes. Uma relação com o Pai estabelecida muito mais por medo, do que propriamente dita por respeito. Então, assim, funcionava Jó, seguindo os padrões estabelecidos pela sociedade vigente, onde provavelmente, era dotado de mais fé do que um mero apavoramento. Jó sucumbiu, enquanto só, sobre as perdas externas provocadas pela competição estabelecida entre Deus e o Diabo, quando das perdas ocorridas nas suas terras. O elemento externo não motivou receio sobre suas reações, ao contrário, foi ter com o Pai pra lembrá-lo das causas do acontecimento e a certeza nas futuras perspectivas. Entretanto, quando a dor assolou, diretamente, seu mundo interno, houve um prenúncio para algumas mudanças em sua conduta.

Ao contrário do que se proclama, não foi o Diabo que induziu Jó a blasfemar. Apenas ulcerou seu corpo e transformou sua pele em feridas cálidas. Nem mesmo a indignação da esposa o fez fraquejar, pois reagiu as suas palavras e reações, evocando o princípio divino sobre mais um dos catastróficos acontecimentos em sua vida. Somente quando acolhido por seus amigos de caminhada, “Elifaz o temanita, e Bildade o suíta, e Zofar o naamatita; e combinaram condoer-se dele, para o consolarem.”
Jó 2:11, recolhendo-se a terra por sete dias e sete noites, que Jó renunciou a sua fé e a sua determinante concepção, passando a adotar outra maneira de pensar, discursar e agir. Por identificação e simpatia, nutridas pelo sentimento de amor, aqueles que consigo estavam, indignaram-se, externando toda sua fúria e frustração com os fatos agora expelidos por Jó. Todas as suas percepções e sensações assumiram a lógica e em seguida buscaram o questionamento aniquilador dos princípios de Jó, essencialmente, pela então dita paciência experimentada até então.

Assim como fora entre o anjo bom e o mal, luta semelhante travou-se entre a não conformidade de Jó e a permanência de seus amigos sobre os atributos da divindade de Deus. Além dos malefícios sofridos, Jó agora era confrontado com as premissas daqueles que tinha como fiéis a si, acima de qualquer coisa, mas que não arredavam da posição crédula de fidelidade a um ser maior e mais perspicaz que Jó, no caso Deus. Sua sensação era de uma traição  originada do Pai e também, naquela hora, dos próprios irmãos. Aos consoladores e orientadores cabiam a doutrinação pelo bem e a Jó a profanação da imagem de Deus e dos próprios que debatiam consigo.Nem mesmo a interpelação de Eliú, após longo tempo de debate, fez Jó ceder em seu ponto de vista. Assim, não fez Jó jus as condecorações aplicadas pelos homens que o leram. Negligenciou seus princípios, afastou-se da direção reta do caminho que percorria e deixou-se seduzir pelas ausências materiais que confortavam todos a sua volta. O homem, encarnado, não suportou a dor, nem mesmo deu conta de seus sentimentos. O próprio Jó não exerceu sobre si a paciência desejada pelas hierarquias, em nenhum dado de dor que vivera, seja pelas chagas ou pelas imposições contundentes de seus amigos.

O conflito de Jó poderia ser considerado um ícone simbólico de todas as alterações passadas pelos homens em sua histórica humanidade. Perdas, dores e sofrimentos são temas universais frente ao contexto antropológico distribuído nos capítulos do livro da vida. Da Genesis até os segundos que dominam os parágrafos desse artigo, a insurreição promovida pelo homem contra si mesmo é factual. A diáspora estimulada por cada um dos eus em relação ao seu eixo vital, ou seja, tudo aquilo que venha a ameaçar ou ferir a zona de conforto e de estabilidade pretendida, é encarada como desafiadora, deslocando o sujeito do tracejar pré-definido do caminho proposto por si mesmo. A conveniência torna-se derradeira, assumindo o controle dos posicionamentos estabelecidos pelo olhar que pensa e engatilha as reações comportamentais. A maneira como se provoca o enfrentamento é o termômetro de amenização ou exaltação do sofrimento que não se suporta. Não é seguindo a fala dos outros ou mergulhando em suas vibrações que necessariamente algum tipo de mudança acontecerá e, caso se realize, não é sinônimo de que o seja para ascender.

Suportar está relacionado ao próprio sentimento, aquele vem a ferir e macular a integridade do ego que pulsa, egoisticamente. Processar esse turbilhão interior é quase uma saga, incansável. Exclusivamente, a fé atribuída a si é imprescindível para que qualquer um consiga, então, estabelecer sua religação, efetiva, com Deus ou a transpessoalidade que conecta com outras almas. Não se pode depositar em ninguém aquilo que não se conquista como um atributo, pessoal e intransferível. A fé e a crença precisam de um direcionamento a minha possibilidade para ver e, posteriormente, realizar. Descrente dessa premissa, é inviável toda e qualquer esperança de que outro o fará, muito menos que esse crerá em mim, nas minhas intenções ou atitudes. O oposto disso, retrata a miserável comiseração auto aplicada e imposta para que a sociedade próxima aja como compaixão, piedade e assim se estenda toda a miserabilidade, secular, humana.

É esse princípio que ameniza o peso da dor e dá forças para que se possa suportá-la. A própria redenção é que nos encaminha aos decretos do merecimento. Merecer um caminho límpido para então conquistar a religação a Deus, à origem. Poderíamos supor, que todos os diálogos travados do livro de Jó, representam a própria mente humana, dividida, primitivamente, entre os instintos de sobrevivência, que podem conduzir a atos maus, ou, à ligação com componentes cognitivos, estabelecidos pelo processo evolutivo que nos proporcionou a inteligência. Paciência está intimamente relacionada à espera do encontro com a própria realidade, a situação vigente em que se encontra.  Caso isso não seja permitido, o afastamento de si mesmo será inevitável e, consequentemente, a dor se ampliará até o ponto da insustentabilidade, momento em que o superego coletivo se manifesta, aplicando sua soberania.

“Depois disto o SENHOR respondeu a Jó de um redemoinho, dizendo:
Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento?
Agora cinge os teus lombos, como homem; e perguntar-te-ei, e tu me ensinarás.
Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência.”
Jó 38:1-4

 

                Esse, certamente, não representa meu Pai, retrata não tão somente, a imposição arbitrária do homem que se endeusa, exortando  seu controle sobre os da própria espécie. Essa é a fala do superego humano, que cria e impõe a lei, aos que as infringem. É esse deus humano que habita as mentes das pessoas pertencentes às sociedades. É o próprio homem que se cobra, culpa-se e com isso aniquila suas possibilidades. Apenas os seres humanos têm a capacidade para por em duplicata os feitos realizados por outrem. Atribuir isso ao Pai é fazê-lo tirano, incoerente perante a dádiva oferecida através do livre arbítrio,  gerenciando a tal liberdade, fazendo-nos escravos desse próprio presente. Não há indulgência nem atitudes ajuizadas pela divindade. A espiritualidade apresenta não somente os frutos derivados da semeadura feita por cada um. É o homem que se nomeia réu, juiz, promotor e aplica-lhe a pena que considera cabível.

Valores e virtudes são o que fazem um homem de fé. Crédulo em seus princípios, sem rigidez, nem afastando outros estágios de evolução, mas,sim, respeitando todos e tudo. É essa orquestração entre pensamento e ação que consolida a tão ambicionada coerência que muitas vezes não se faz presente nos fatos. Jó, repetindo a palavra, de fato, não foi paciente. Abandonou a si e aquilo que suponhava acreditar. Caiu em si, unicamente quando sua consciência trouxe à luz a percepção de sua pouca fé. Repensou e refez. Qual o resultado? Repetiu o ano e sabe lá Deus por quantas encarnações.

Imagem

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: