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Há um eixo, um tipo de mola propulsora, que vitaliza a própria vida. Designa-se como homem, pelo fato de fazer-se, em questão, ávido, talvez ansioso, em mudar a ordem natural das coisas. Todos os demais animais do reino, a própria flora, mantêm-se indiferente àquilo que é. A dita irracionalidade,  dos seres que não pertencem ao conjunto dos humanos, é submissa sem alternativa para o contrário, porém, ativa, singularmente, no sentido de reagirem ao que ameaça e transforma sua naturalidade. O “cogito”, símbolo da racionalidade e da intelectualização, critérios de diferenciação e de exclusividade em relação ao todo, é que rege e normatiza as relações e a dinâmica funcional da existência. Implica na imposição e na invasão de uma única raça, sobrepondo-se a todo um sistema. Por essa razão, lógica, é que se percebe a ação do homem à vida, onde todo aquele que a si não se assemelha, aliás, iguala-se, segue à ordem do objeto, ou da meta de conquista e de manipulação por esse pensamento.

                O objeto é, e por isso se define. Vai além, ampara-se em um como é, simplório e distante de ornamentos, possibilidades ou de análises combinatórias. É óbvio, pois existe. Por si só é livre e subjeto da própria subjetividade. Único, bússola de sua caminhada e destino. Sobressai-se não pelo que se constitui, mas porque vive. Atrevo-me em afirmar que é esse objeto o ícone daquilo que Sartre postulou como existencialismo à forma de estar para as pessoas. O objeto não precisa do outro para incorporar a própria identidade. Vaga, oscilando apenas diante dos obstáculos e das interações corriqueiras apresentadas por aquilo que denominamos de vida. Interfere e é influenciado, tão somente pela reação, mas, jamais, pela premeditação. Não intelectualiza, senti e externa, permitindo o ciclo vital transcorrer dentro da espontaneidade que lhe confere.

                Já o sujeito, principal e coadjuvante, indivíduo de nossa raça, é fenomenológico. Percebe, separando a si do objeto. Interpreta a si mesmo e ao mundo alicerçando-se à consciência que suas experiências constroem. De maneira inteligível, define e associa, descreve e classifica, mas, sem nunca alcançar a totalidade dessa visão, ou seja, especializa-se pela fragmentação. O homem sujeito, não se dirime da onipotência, pois toda sua produção está para a subjetividade, assim como a é dentro de um olhar exclusivo dentro do espaço e do momento em que acontece.

“A minha civilização repousa sobre o culto do Homem através do indivíduo. Teve o desígnio, durante séculos, de mostrar o Homem, assim como ensinou a distinguir uma catedral através das pedras. Pregou esse Homem que dominava o indivíduo … 
Porque o Homem da minha civilização não se define através dos homens. São os homens que se definem através dele. Há nele, como em todo o Ser, qualquer coisa que os materiais que o compõem não explicam. Uma catedral é uma coisa muito diferente de uma soma de pedras. É geometria e arquitectura. Não são as pedras que a definem, é ela que enriquece as pedras com o seu próprio significado. Essas pedras ficam enobrecidas por serem pedras de uma catedral. As pedras mais diversas servem a sua unidade. A catedral as absorve, até às gárgulas mais horrendas, no seu cântico. 
Mas, pouco a pouco, esqueci a minha verdade. Julguei que o Homem resumia os homens, tal como a Pedra resume as pedras. Confundi catedral e soma de pedras, e, pouco a pouco, a herança desvaneceu-se. É preciso restaurar o Homem. Ele é a essência da minha cultura. Ele é a chave da minha Comunidade. Ele é o princípio da minha vitória.” 

 

Antoine de Saint-Exupéry, in ‘Piloto de Guerra’  –  http://www.citador.pt/textos/e-preciso-restaurar-o-homem-antoine-de-saintexupery

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                Através da evolução, ocorreu esse princípio de diferenciação. O homem percebeu-se a parte do meio em que se inseria, deu conta de si mesmo frente a essa participação com o ambiente, passando a estudá-lo, como o fez consigo mesmo. Decodificou o que não lhe pertencia, mas, apenas, ao que fazia parte. Conquistou a consciência autopsíquica, própria, e, a alo psíquica, em relação ao outro. A paixão arrebatadora e possessiva pelo saber, gerou um “philo”, ou amor, operante em busca de um elo perdido: a terminável ou interminável caminhada pelo conhecimento pleno. Através de mitos, consolidou toda uma simbologia para os elementos que passava a dominar, como para os que deseja ter nas próprias mãos e, com isso, formalizou-se em ritos de descoberta e de manutenção, uma espécie de controle, de si para a vida.

                Foi através da linguagem que toda essa retórica foi organizada. Com certeza, letras e suas respectivas uniões, formando palavras, constitui o maior conjunto simbólico elaborado pela humanidade. A Linguística ocupa-se com a extração do significado puro das palavras, assim como a hermenêutica, dos símbolos. Em verdade, existe ai uma aproximação estreita entre as duas áreas, falando-se em simbologia. Contudo, além, e bem mais à frente, do que o conceito do que é, função das duas especialidades, está o reconhecimento do como passou a ser e se modifica, periodicamente, ou, dependendo do olhar daquele que vê. Preexiste à eleição da linguagem, as palavras adotadas pela comunicação verbal e não verbal, o processo mental do agente direto. Refiro-me a intelectualização peculiar, única e intransferível de cada um dos sujeitos. Esse estado mental, compactado por conteúdos que se assemelham , os que se diferem e aqueles desconhecidos, manifestam-se através da engrenagem da consciência, ou material disponível à evocação da memória, e pelo conglomerado inconsciente, ou o arquivado e mantido represado para defesa do ego no sentido de não ameaçá-lo pelo elevado nível de ansiedade

                Paul Ricoeur (1913), expoente representante da Filosofia francesa, pressupõe uma hermenêutica do símbolo, e resgata os estudos do Médico Sigmund Freud (1900) pelo fato da profundidade aplicada ao pensamento do homem contemporâneo (KAHLMEYER-MERTENS. Filosofia, 2013). A consciência é, e apenas é, parte dominante desse sujeito, o homem. O grande fenômeno de ação atua sobre o objeto, ou o meio em que está. Vale a reflexão de que essa só a é pela própria consciência e não pelo fato do objeto. A essência existencial do objeto é ultrapassada pelo fenômeno projetado pela consciência que interpreta a existência do objeto. Esse pressuposto, então, é observado somente quando percebido pela razão ativa das relações. Todavia, o conteúdo omitido pelo véu daquilo que não é consciente, estabelece um fio condutor para o encontro entre o sujeito e o objeto. Assim, acaba tendo uma retirada da existência desse objeto, como do próprio sujeito, por deparar-se diante de uma construção simbólica que torna, situacionalmente, algo.

                Apesar de uma separação virtual entre sujeito e objeto, o que de fato acontece é uma simbiose entre ambos, onde as projeções humanas dão vida àquilo que se encontra filosoficamente morto dentro da realidade inconsciente. Logo, a intencionalidade fenomenológica do sujeito encontra-se naquilo que não pertence à consciência e no que não se deseja revelar ao consciente. A hipostasia, origina-se dentro desse conteúdo, acessível de maneira indireta, num único instante em que o sujeito não se faz subjeto do objeto. Chega-se a resultante de que a consciência se faz existente por algo, pelo encontro, mas não por si, como substância pura. Essa equação é de caráter exclusivo do inconsciente. O pensamento elaborado é fruto da consciência que atua. Já, o afeto, esse é o que irradia e faz pulsar o inconsciente, levando a pessoa a sentir e a encontrar aquilo que é e como chegar a esse ser, dentro de sua essência máxima.

Kennedy (1992) fez um levantamento geral do pensamento antropomórfico, particularmente sua penetração na etologia, que, sugere, ele, levou a muitas interpretações errôneas do comportamento animal. Ele descreve como os cientistas que tentam evitar a antropomorfização de animais o fazem inadvertidamente de tempos em tempos. Ele sugere que as pessoas têm uma tendência à antropomorfização compulsiva porque a ideia de que os animais são conscientes e têm propósitos foi aparentemente incorporada por nós pela natureza e a educação.”

 

MITHEN, Steven. A Pré-História da Mente  –  Uma Busca das Origens da Arte, da Religião e da Ciência. 1998. UNESP

 

                Por essa condução, verifica-se que o homem não vive por si e nem mesmo para si. Projeta-se ao meio como uma maneira de encontrar a sombra que o faz desconhecido de si mesmo. Lapide o outro como essa esse mecanismo o fizesse encontrar o pote de ouro fantasiado no final do arco íris. De fato essa riqueza existe, mas aloja-se no espaço inconsciente, a mola propulsora que dinamiza sua vida. 

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