Skip navigation

Velar corresponde à ação de colocar, aninhadamente, princípios e valores dentro de um espaço delimitado, podendo pertencer a um determinado intervalo de tempo, interrompendo-se ou tendo uma continuidade quase que permanente para a conjuntura de um grupo social. É claro que nada é imutável, pois se agregam novas referências e os processos com isso passam por alterações, independentemente, da intensidade. O mecanismo é espontâneo e automático, impregnado ao saber humano e, consequentemente, inerente ao aprendizado das novas gerações. A esse ritual, há um véu que protege e dá segurança àquilo que fora construído, assim como possibilita a estabilidade e a ordem comunitária de maneira geral. Analogamente, reporto-me a uma terminologia presente à ordem mística e que nos ronda através dos séculos em virtude de sua suposta conotação ameaçadores: apocalipse. Pela tradução grega, a palavra remonta um significado simples de reação às novas gerações, no sentido de se revelar, ou, trazer à tona, todo o contexto então velado que pulsa e aguarda as novas vidas que se aproximam da realidade.

A caminhada da humanidade se dá, exclusivamente, frente à preexistência de algo. Cada um dos nascidos vivos recebe, simbolicamente, um conjunto composto de herança, para apoiar e dar sustentação ao seu desenvolvimento. Somos acolhidos pelos padrões, pelos rituais que nos condicionam às relações, pelos mitos que formulam concepções, pré-concepções e até julgamentos. A gentileza dos três reis magos, no nascimento de Jesus de Nazaré, tem por ícone, a representação daquilo que o garoto encontraria frente à realidade histórica em que se inseria, bem como pela trajetória que deveria seguir perante a expectativa de um messias esperado. Algo que se assemelha no momento em que se elege o nome, integra-se a uma religião, planejam-se os cuidados e a educação do rebento que surge nas famílias. Vela-se nessa recepção toda a riqueza que se possui no sentido de melhor oferta a fazer ao seu e, igualmente, uma perspectiva de resposta, positiva, para todos esses cuidados e zelos que se tem com aquele de é sentido com amor.

Uma importante noção é que, individualmente, cada um faz e transforma, de acordo com aquilo que recebe nesse princípio da vida. O esforço, a dedicação, e, essencialmente, a ampliação da visão sobre o mundo, possibilitam um aprimoramento significativo, ou declínio,  para esse legado. O fato é que vivemos, apocalipticamente, cada dia dessa caminhada. À medida que vamos contatando e interagindo com os estímulos do meio, o véu que protege nossas heranças é retirado e com isso o encontro daquilo que realmente somos e sentimos, confronta-se com o que é. Voltando às oferendas a Cristo, o ouro era o símbolo do poder e da riqueza, demonstrando as tentações e os enfrentamentos que seriam realizados pelo Nazareno. A mirra, artigo de escambo para a comercialização e reverência aos profetas, exatamente como Jesus passou a ser visto. E o incenso, a mística que enaltecia os sacerdotes que religavam os povos a Deus. Dentro do paradigma atual, o modelo que leva os países é o da economia, propagado pelo ouro que motivava Roma e demais territórios contemporâneos das conquistas impostas. Hoje, obrigatoriamente, necessitamos da competitividade, impomos isso aos nossos contatos, pois não aplicamos esse pressuposto à superação pessoal, mas, sim, à ultrapassagem, desmedida, ao outro que nos cerca e assemelha. Convenientemente, trocamos, sem o princípio do auxílio e da colaboração, mas tão somente pela ampliação de espaço e de reconhecimento. No final de tudo, reunimo-nos nas diversas casas de Deus para pedir perdão pelos nossos erros e uma mãozinha para conseguirmos ir um pouco mais além, dentro da própria matéria.

A cultura, cultuada pelo paradoxo, de uma premissa mística, que intenciona nos colocar além dessa disparidade econômica e de conquista por espaços e sobreposições de igualdade pela vida, condiciona a uma perseguição ao senso comum. Uma perspectiva de liberdade por pertencer a esse grande todo onde a clausura da identidade pessoal se concretiza, anulando a criatividade e a livre expressão daquilo que se precisa para o aprimoramento pessoal. A contradição está na ânsia pela liberdade universal através da realidade almejada pelo homem espírito, em oposição pelo comportamento que enraíza esse mesmo ser dentro do contexto factual da evolução, simplesmente material. Ao invés do bom uso das riquezas, há a exclusão e as diferenciações. A igualdade pregada pelos sacerdotes e simbolizada pela mirra é descaracterizada, até mesmo porque muitos dos sacerdotes atuais optam pelo ouro e buscam fiéis para isso. E do incenso sobra o cheiro e a  busca de forças para todo esse enfrentamento.

De geração em geração, tudo isso é revelado. Desnuda-se pelo véu e pregasse a repetição. O apocalipse diário situa-se tão somente nisso: a ausência de interpretação e a perpetuação de um mesmo princípio. Em síntese, o os versos do Apocalipse, repassados por João evangelista, apontam as máculas do homem que altera e deturpa o meio em que se encontra. As deformidades dos meios naturais e as punições, óbvias de seus agentes diretos. A história não deixa de ser clara, afinal, mesmo depois de tudo que Jesus sofreu, justamente por se opor a esse senso comum, acabou sendo assassinado e o modo operante, vigente, não se modificou, ao contrário, mantêm-se até o presente momento. Creio que João, como um empreendedor visionário que era simplesmente traduziu, de homem para homem, sobre o resultado provocado pela não ressignificação que deveria ocorrer após o exemplo prática ensinado pelo Cristo.

“Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João seu servo;
O qual testificou da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus Cristo, e de tudo o que tem visto.
Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.”
Apocalipse 1:1-3

 

 

                Visionários, dentro de uma resultante lógica. A ganância e o egoísmo humano em nada mais poderiam gerar, a não ser a degradação de sua própria raça.O enaltecimento de Jesus e de João encontra-se exatamente dentro desse foco, antevendo aquilo que a razão não teria condições para ditar ao contrário. O apontamento a um Criador e a reverência a esse Pai benevolente, não foram novidades à sociedade. Antropologicamente e, dentro da vigência da era cristã, homem e o sobrenatural sempre se coadunaram. Assim como a percepção bizarra que se tinha em relação a nossa própria espécie, violando os direitos do outro e atropelando os princípios e as vidas que se opunham àquilo que era tido como norma. A passagem desses homens pelos meandros históricos, simplesmente emergiu uma chamada à atenção de que as coisas estavam equivocadas e, pela equação aplicada, o denominador comum não teria um valor positivo para a prosperidade das pessoas. A essa não compreensão,e digo, sem a consideração de um ente ou de uma atitude além da humana, mas, tão somente, pelo respeito a si, ao ambiente e ao outro, é o que provocam o Apocalipse nosso de cada dia.

A interpretação de um rito que finaliza a existência para muitos, aproxima-se da insatisfação comungada por muitos dentro de cada dia passado em seu ciclo vital. A modernidade nunca testemunhou um número tão elevado de desmotivação, falta de sentido e princípios de felicidade para o gerenciamento da rotina das pessoas. Isso é verificado nos consultórios na área da saúde em geral e, especificamente, os voltados à saúde mental. Não só isso, empiricamente, os discursos e as posturas revelam esse padrão como modelo genérico à participação do indivíduo à vida. Aos mais entusiastas, caberia falar das dores silenciosas, ou seja, aquelas que atacam, dentro do mesmo princípio da falta de veemência, mas que são ultrapassadas pela esperança de se encontrar algo melhor. A culpa, chaga da humanidade, assim como a melancolia e o apego, ao passado, e as projeções de um encontro feliz no futuro, tornam-nos, filosoficamente mortos, apenas por que não é lá que estamos. Nada mais apocalíptico do que permanecer na expectativa de alcançar algo que nem ao menos se sabe ter tempo ou condição para conquistar, ou, pior ainda, alimentar a ilusão, um tanto quanto delirante, de alterar aquilo que não é mais.

O a de vir, procurado, insanamente, pelo tempo de outrora ou aquele que vingará, é o que se localiza em nossas mãos, no aqui e agora. A espera é a representação do fim do mundo, de um mundo pessoal, particular, próprio. A somatória dessas perdas, faz-nos degenerar, sucumbindo à submissão passiva daquilo que não é, está, muito menos se senti como pleno, harmonioso e equilibrante. Diante do dogma místico, como filhos da criação, compete-nos o ser criador, pela simples retórica da imagem e semelhança. Congruência e coerência devem nos fazer aplicar isso, dentro de um modelo simples e sem enaltecimento, dos exemplos aplicados a Deus. Não é necessário se fazer fiel ou crédulo nas missivas de religação a Deus, basta ter bom senso e dignidade, para assumirmos, efetivamente, a consciência de que o bem estar do planeta, a nossa saúde mental, física e até espiritual, então, assim como a dos que nos cercam, encontra-se livre em nossas mãos, porém, presas nos pensamentos engessados e estagnados que nos mantém.

Imagem

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: