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Definir o termo consciência é tão complexo quanto apresentar um meio para aprimorá-la, desenvolvê-la. Neuropsicologicamente falando, a consciência é tida como o estado vigil que dá clareza aos órgãos dos sentidos, possibilitando o contato com aquilo que ocorre com a pessoa e dentro de suas relações. É um dado de lucidez apontando  diferentes níveis de luminosidade quando do encontro com os estímulos externos e internos. Em verdade, um reconhecimento sobre determinado aspectos ou sujeito. Essa descrição, nada mais, enuncia o aspecto operacional do cérebro para a conexão com o que provoca e instiga qualquer ser vivo. Uma conquista incalculável para a imersão do homem à sua constituição anatomofisiológica. Considerando, brevemente, uma era de religiosidade em que o eixo vivencial era teológico, posteriormente, o Renascimento que resgata o ser para si mesmo, atravessando o período de revolução industrial até chegarmos à eclosão tecnológica, compartilhou, pela atenção concentrada coletiva, o olhar, a interpretação e a busca para a edificação de cada uma de nossas necessidades de conforto e de sobrevivência.

O aperfeiçoamento intelectual, ao longo de todo esse tempo, levou-nos a uma capacidade vasta em termos de visão de mundo e de seus personagens componentes. As ciências sociais e humanas passaram a derivar essa consciência a outros contextos naturais de atuação do indivíduo. Modernamente, teoriza-se a consciência da moral e dos valores, alicerces que sustentam a identidade pessoal e mantém a integridade do uno, de cada uma das partes, entes, que atuam, ativamente, sobre o todo que fomenta a humanidade. A consciência social, não menos relevante, é tratada e dissertada como um meio para a dignidade da sociedade. Há a busca de uma clareza para a economia em prol de um significado de igualdade para as diferenças. A política não difere já que desde o século XIX busca-se a promoção à não institucionalização privada daquilo que é público. Aqui poderíamos alcançar a consciência sobre a saúde, a terceira idade, a criança e o adolescente e até mesmo pelo resgate da alma, ausente de um cunho religioso ou científico.

Amo e honro o saber, tanto como aqueles que o têm; dando-se-lhe o verdadeiro uso, é a mais nobre e poderosa aquisição dos homens. Mas aqueles, e são em número infinito, que nele alicerçam o seu valor e a sua fundamental capacidade, que abdicam da inteligência na memória, acolhidos à sombra alheia, e nada podem senão pelos livros – nesses aborreço-o eu, se ouso dizê-lo, um pouco mais do que a estupidez. Na minha terra e no meu tempo, a sabedoria melhora bastante as bolsas, raramente os espíritos. Se os encontra obtusos, pesa sobre eles e sufoca-os com a sua massa informe e indigesta; se lestos, logo os purifica, clarifica e subtiliza até o esgotamento. É coisa de qualidade quase indecisa; instrumento muito útil às almas bem formadas, pernicioso e daninho às outras; ou antes, coisa de preciosíssima utilidade que se não obtém barata; em certas mãos é um ceptro, noutras uma folia.”

 
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Michel de Montaigne, in ‘Da Arte de Discutir’  –  http://www.citador.pt/textos/o-saber-como-ceptro-ou-como-folia-michel-eyquem-de-montaigne

                A cada um desses departamentos do saber, uma infinidade de conhecimentos foram elaborados e aperfeiçoados. As informações em todas as áreas e segmentos entoam um arcabouço teórico fenomenal. Comprova-se que hoje, muito se pensa e, até mesmo se faz, nessas especialidades. A rede, segmentada, de atenção concentrada, focada em partes daquilo que se chama vida é algo no mínimo maravilhoso. É a essa atenção concentrada, a paixão por “Sophia”, que nos tornou escravos do próprio saber. A cultura foi tão bem impregnada, que acabamos nos fazendo apegados, o elo tomou as proporções do apego. Possessivos pelo conhecimento, findamo-nos em um ciúme patológico e, simultaneamente, numa inveja descomunal. A emulação pelo saber do outro e a disputa pelo posto no pedestal da verdade. A cobiça vem da ânsia em angaria mais e fazer-se melhor que outrem. Verdadeiras batalhas intelectuais, acirradas, travam-se pela boa intenção do melhorar o que não existe, ou, aquilo que já tem uma noção qualitativa, ao menos na grande maioria. Vale lembrar que o amor verdadeiro é aquele que liberta e não aprisiona. A necessidade de controle e estabilidade levou o homem a enclausurar “Sophia” no topo da maior de todas as torres, distanciada de si mesmo.

Por tudo isso, não restaria questionamento sobre a esplêndida resolutividade que o ser humano obteria acerca de suas próprias situações, as naturais e as artificiais. Factualmente, não é isso que se constata. Vamos a chamada: a moral e os valores existente, oscilam em demasia entre o saudável e o não saudável, entre o bem e o mal. A ação social é frágil, começando pelas famílias, as ruas e os bairros, partindo ai para os clãs de maior volume que necessitam e se fazem carentes de algo. A economia cada vez mais caótica e a proliferação das diferenças sociais infladas a cada dia. A política conveniente, a criança abandonada e por ai vai. Eis o calcanhar de Aquiles que comprova que conhecer é incompleto frente a consciência. Teorizar difere de experimentar.

Consciência são as chaves da cela em que “Sophia” fica trancada, paradoxalmente, como joia rara, única e de valor imensurável. É o respeito que se aplica a todo e qualquer tipo de saber, onde necessariamente não se obriga a acatar, mas, simplória e humildemente, subordina-se pelo fato de ser apenas mais uma das várias faces do diamante. É o contínuo reconhecer do ignorar, sem dar valor ao que se tem internamente, mas aquilo que é ofertado por tudo que se cerca. Ao contrário do que se prega, a consciência não é subjetiva, tornando-nos subjetos de nós mesmos, isso é o lógico por onde atuamos. A consciência é alcançada quando se desprende do estado em que se está e do desejo de ser ou do a de vir. É a permissão do encontro entre o eu, que também não pertence, com o tu que  caminha livremente. Uma passagem que confraterniza e brinda a descoberta que virá a se redescobrir. Consciência é a lógica que imputa sobre a afirmação de Aristóteles (Século IV a.c) de que “Todos os homens, por natureza, desejam conhecer.” , a simplória, contudo, riquíssima, ambição de contemplar. É um dar valor, verdadeiramente, ao que se sabe, pois não se conhece para si, mas, tão somente, para se ofertar ao meio, com veneração a alguém que se nutre e nãopela onipotência de quem leva a oferenda,  e se não fosse isso, nenhum sentido se teria.

A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por consequência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema. É do consciente que provém uma multidão de enganos que fazem com que um animal, um homem, pereçam mais cedo do que seria necessário, «a despeito do destino», como dizia Homero. 


Se o laço dos instintos, este laço conservador, não fosse de tal modo mais poderoso do que a consciência, se não desempenhasse, no conjunto, um papel de regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso dos seus juízos absurdos, das suas divagações, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa palavra do seu consciente: ou antes, há muito tempo que teria deixado de existir sem ele!

Enquanto uma função não está madura enquanto não atingiu o seu desenvolvimento perfeito, é perigosa para o organismo: é uma grande sorte que ela seja bem tiranizada! A consciência é-o severamente, e não é ao orgulho que o deve menos. Pensa-se que este orgulho forma o núcleo do ser humano; que é o seu elemento duradoiro, eterno, supremo, primordial! Considera-se que o consciente é uma constante! Nega-se o seu crescimento, as suas intermitências! É considerado como «a unidade do organismo»! Sobrestima-se, desconhece-se ridiculamente, aquilo que teve a consequência eminentemente útil de impedir o homem de realizar o seu desenvolvimento com demasiada rapidez. Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram para a adquirir; e hoje ainda estão nisso!

Trata-se ainda de uma tarefa eminentemente actual, que o olho humano começa apenas a entrever, a de se incorporar o saber, de o tornar instintivo no homem; uma tarefa de que só se dão conta aqueles que compreenderam que até aqui o homem só incorporou o erro, que toda a nossa consciência se relaciona com ele. 

Friedrich Nietzsche, in ‘A Gaia Ciência’  –  http://www.citador.pt/textos/a-consciencia-friedrich-wilhelm-nietzsche

                A consciência, assim, é a mais pura manifestação do sentido. Uma sensibilidade apuradíssima que enaltece o eu pelo altruísmo dedicado ao meio que se insere, o lar e os moradores da grande casa. Para esse sentimento, há uma única nomenclatura que o designa com integridade, amor. A consciência é uma manifestação de amor à si e ao outro. Alguns autores até a denominaram como sendo a prisão do homem. Ledo engano! É inerente ao ser humano a liberdade de escolha. Somos dotados pelo livre arbítrio, ditando a lei que pontua a ausência de problemas, mas, sim, a presença única das escolhas. A falta de liberdade é ditada pelo não saber que não conhece. A vã fantasia em crer que sabe e por essa razão o caminho é reto. É delegar ao outro a responsabilidade por essas escolhas, eximindo-se da importância que se tem pelos processos conduzidos. Defender-se é cárcere, com barreiras e muralhas impostas por algum tipo de poder, onde o conhecimento se faz como um deles. Quando se opta pela razão e a lógica alheia, existe um não pertencer e simplesmente uma carência para ser aceito ou incluso. Já no momento em que se faz pelo outro, é um desvencilhar-se do que é, desnudando-se do que se crê e acolher a escalada, diferenciada, de evolução de cada um.

2 Comments

  1. Excelente texto


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