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Amar “Sophia” deveria ser um impulso natural para qualquer pessoa. De origem grega, a palavra tão somente traduz o saber. O amor preconizado a “Sophia” simboliza a caminhada exercida pelo homem, ao longo da história, em busca de um elo perdido, localizado entre o acreditar ser e o não saber. A guerra entra a possibilidade que move e a ignorância que incita. A herança platônica, vigente até os dias atuais, estimula a procura pela verdade, tendo o conhecimento como o veículo mais apto para essa travessia. Após tantos séculos perseguindo o desvendamento de tudo que se ignora, desde as manifestações naturais e intrínsecas, até as criadas pela própria humanidade, gera-se um fato inegável: conhecer é uma preexistência para a ascensão da qualidade de vida, mas, não, para a vida em si.

A sabedoria, latinizada posteriormente, reporta à definição para aquele que degusta, saboreia, intencionando por vez exercer a ação de saber sobre algo e, enfim, conhecer um mero fragmento que pertence à vitalidade em que se insere. Esse mecanismo ocorre pela relação de funções pertencentes à mente, passíveis a quem for, onde a atenção direciona ao foco. O pensamento elabora os conteúdos e associa aos armazenados previamente na memória. Toda uma carga de afeto, por mais imparcialidade que se busque, eclode num pulsar intermitente e, finalizam-se pelos processos da inteligência, formulando então ideias, conceitos, novos valores ou resgatando com um novo olhar tudo o que foi, é antigo. Essa construção se propaga pela informalidade, nas relações com aqueles que estamos, ou, formalmente, pelo preceito acadêmico, onde o universo se transpõe pela realidade das universidades e das pesquisas.

Estrutural e funcionalmente, estamos no lugar em que nos situamos, graças a todas essas formulações. Contudo, “Sophia” não foi suficientemente capaz para alimentar a alma humana. Basta parar e observar, sem grande acuidade, o todo que se passa a nossa volta. Continuamos presentes e, com intensa vivência, alocados à tragédia grega e repetimos no cotidiano das civilizações, a prática das diferenças, as marginalizações e o cessar constante da liberdade para o homem. Pessoas permanecem sendo assassinadas, violadas, desrespeitadas, tanto de forma direta, através de tiros e atentados, como pelos mecanismos frios da negligência e do descaso aplicados aos próprios semelhantes. Talvez, nem fosse preciso buscar na coletividade essa justificativa, bastava refletir sobre o princípio de satisfação de cada indivíduo, a sensação de realização ou a conquista de algum tipo de plenitude. A retórica predominante está na queixa que se faz insatisfeita.

O conhecimento, isoladamente, desprovê-se de consciência. O mesmo esforço aplicado à conquista do saber precisa ser imposto ao desenvolvimento de uma consciência a respeito daquilo que se passa, a saber. A cultura do conhecimento é tão impregnada que na gênese, a palavra consciência passou a ser utilizada no século XVII, aproximando o saber do elemento científico, incluindo nesses as artes. A escola grega pregou, dentro de uma definição ético-filosófica, a concepção da junção do ser com as responsabilidades, direitos e deveres associados à ética. No início do século XX, Sigmund Freud, trás à luz da comunidade científica um novo paradigma, reportando a consciência à somatória de todas as experiências da pessoa e a edificação de uma realidade subjetiva por essas. Finalmente, a entrada no terceiro milênio, inflama a execução de uma consciência coletiva, voltada para os direitos equitativos a todos.

“A consciência é a perceção imediata do sujeito daquilo que se passa, dentro ou fora dele.
É talvez uma das maiores fontes de problemas de toda a filosofia, por ser ao mesmo tempo o facto mais básico e também oque traz mais dúvidas quanto ao que na realidade é.
A consciência pode definir-se como o conhecimento que o Homem possui dos seus próprios pensamentos, sentimentos e atos.Podem-se distinguir dois tipos de consciência, a consciência imediata e a refletida. A consciência imediata ou espontâneacaracteriza-se por ser a que remete para a existência do Homem perante si mesmo, no momento em que pensa ou age. Aconsciência refletida ou secundária é a capacidade do Homem recuar perante os seus pensamentos, julgá-los e analisá-los.
A consciência possibilita ao Homem pensar o mundo que o rodeia e é nela que estão enraizados o sentimento de existência eo pensamento de morte, por exemplo. A consciência é a essência do ser humano e fonte de conhecimento e de verdade.
De acordo com Descartes, e o seu princípio “penso, logo existo”, a consciência surge como fundamento e modelo de todo oconhecimento. Através dela sabe-se que se existe e que se é, ou seja, uma coisa pensante, uma alma separada do corpo.
Para Espinosa, a consciência é a fonte de ilusões. Somos conscientes dos nossos desejos e representações, facto que torna aconsciência um conhecimento incompleto, que mantém o Homem ignorante das causas que produzem conhecimentoverdadeiro e total. Assim, a consciência não é de modo algum lugar de conhecimento verdadeiro, mas sim causadora deilusões, especialmente da ilusão da liberdade.
Existe ainda a consciência moral que é a consciência que os seres humanos possuem e que os permite distinguir o que umaação tem de moralmente prescrita ou proibida.
Segundo Nietzsche, a consciência moral, a voz da consciência, é na realidade a expressão de sentimentos que não têm nada de moral.”

http://www.infopedia.pt/$consciencia-(filosofia)

                A consciência permite usar tudo aquilo que se monta em termos de conhecimento. Além disso, qualifica, possibilitando a pessoa aplicá-la na hora, no espaço e com o sujeito exatos. Faz-se, indispensável, a empatia, ou a capacidade de se colocar no lugar do outro. Comprovadamente, dentro da ciência da Psicologia, o eu não apresenta consciência plena sobre si mesmo, ao contrário, é tomado por uma camada maior de inconsciência do que da própria luz que traduz a realidade. Além de um inconsciente natural, provocado por repressões e resistências às relações cosigo mesmo, com o outro e o meio, premeditamente, formulamos um desejo de não consciência a cerca de algumas coisas que se passam. Enfim, não passamos de meros desconhecidos da própria essência que nos pertence. Que tipo de atrevimento, então, exercemos, continuamente, no sentido de ter esse entendimento e, pior, acreditar, termos um saber sobre o outro? Vamos supor uma situação:

Consignía: A relação sexual pode levar à gravidez.

Hipótese: Quando ocorre no período fértil e executada sem algum método contraceptivo.

Conhecimento: Popular, empírico e científico.

Realidade: Índice elevado de gestações indesejadas.

 

                Logo, há um conhecimento prévio em relação ao processo gestacional, contudo, a consciência sobre sua aplicabilidade, não é plena. Infinitas situações poderiam passar por uma análise simples para a obtenção dessa verificação. Á essa relação, prima outra função mental determinante, à vontade. É uma dimensão complexa pela junção que faz entre os elementos instintivos e afetivos, conectando com todo o processamento cognitivo. Não se pode eximir aqui o componente do desejo do ser e partir para a ação. Todo esse agrupamento confere sistemas arraigados à realidade, assim como a não consciência, onde necessariamente a dinâmica nem sempre é concreta e simbólica. Entretanto, ambas agem em intensidades semelhantes e com impactos proporcionais. Ou seja, há uma justificativa para a escolha realizada, levando a um efeito, esperado ou não.

Todo conhecimento, desprovido de consciência, tende a levar o indivíduo a uma fixação. Fixação no sentido de amparar-se em uma verdade absoluta, fazendo do saber um eixo central para a conduta e as interpretações relacionadas ao que se vive. A verdade existe, mas tem um caráter temporário, já que aquilo que passa a ser, abandona esse estado na agregação de qualquer outra tipificação que a qualifique e, consequentemente, modifique-a. Outra coisa, a verdade do eu não traduz a verdade do outro e o tempo de permanência não é igual a todos. Entretanto, o que se observa nos ciclos e sistemas sociais, é a ânsia competitiva de imposições dessas verdades, como se a padronização fosse o meio mais eficaz e curativo para as mazelas de tudo que passamos.

O apego à realidade e o conhecimento externo leva ao afastamento daquilo que o eu é. Essa inconsciência o mantém, sempre, em um estado situacional, com alterações periódicas pela somatória de novos conteúdos. Fundamentais, mas parte desses não pertencem ao real de si mesmo, por isso se perdem, trocam ou mantém, comodamente, o ente preso a um mesmo ponto, ou por luta ou por fuga. Implica-se muito mais para o outro, ou o externo, do que para si mesmo. Dentro de uma noção de espaço e tempo, é comum tornarmo-nos irreconhecíveis a nós, projetando a identidade de nosso eu através daquilo que se percebe e acolhe pelo outro. Isso acomoda e se faz mais negligente em relação a si.

Willard Quine (1908) aponta a seguinte reflexão: “Uma vida não analisada não vale a pena.” O foco de análise deve ser a própria vida, no sentido das implicações provocadas às vidas alheias e a forma como se direciona o olhar para tudo que circunda esse eu que caminha e se faz presente. Sócrates, ao menos nesse momento consigo ter essa percepção, foi o ícone da consciência para o conhecimento. Muito mais do que afirmar, o Filósofo questionava, procurando obter o saber de sua origem e, não meramente, de suas percepções. Sua consciência, conduzindo-a a coerência essencial, o levou ao ponto de não se defender da própria condenação à morte. Optou pela morte do corpo físico em detrimento da morte da filosofia que ensinava e repassava aos seu discípulos.

Antes de tudo, vida cotidiana, ciência e religião (teologia incluída) de uma época forma um complexo interdependente, sem dúvida, frequentemente contraditório, cuja unidade muitas vezes permanece inconsciente. A investigação do pensamento cotidiano é uma das áreas menos pesquisadas até o presente. Há muitos trabalhos sobre a história das ciências, da filosofia, da religião e da teologia, mas são extremamente raros os que se aprofundam em suas relações recíprocas. Em virtude disso, resulta claro que justamente a ontologia se eleva do solo do pensamento cotidiano e nunca mais poderá tornar-se eficaz caso não seja capaz de nele voltar a aterrar – mesmo que de forma muito simplificada, vulgarizada e desfigurada.””Imagem

 György Lukács. Para uma Ontologia do Ser Social I. 2012

                Alcançamos um ponto de evolução que, na atualidade, há uma precisão vital para a transferência de amor para a consciência. Não no sentido de que essa se sobreponha ao saber, mas, na configuração de uma complementação essencial para a construção de uma ontologia, de fato, para o ser e o mundo que habita, a própria alma. Explorar o espaço que ocupa e cerca se dará com eficácia e sucesso apenas quando ocorrer o reconhecimento de si mesmo sobre algo. Não há dúvida de que é mais fácil proteger-se sobre o suposto saber, ao invés de agir pela plena consciência de si e do impacto disso sobre os sujeitos e o contexto de inserção. A consciência em relação a si apontará, efetivamente, a plenitude tão desejada em nossa antropologia e só assim conseguiremos vivenciar a ação do respeito na íntegra.

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