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Educar é uma ação presente em diferentes âmbitos sociais, aliás, um processo, supostamente, contínuo à vida das pessoas. A origem latina da palavra designa ao sujeito que educa a postura que incita a criação, instruindo seus educandos a irem além de si, fazendo-se comum e conhecido a outrem. Essa premissa, não menos grega do que propriamente latina, deveria ser o termo de responsabilidade, tanto para o mundo empírico, informal como a família, como para o academicismo, que organiza e teta fazer do saber, algo imparcial para que assim se expanda e transforme as relações sociais e ambientais. Não pertence à educação, ou, ao menos, assim não o deveria ser, a mera imposição reprodutiva das coisas, dentro de uma metodologia impositiva e mecanizada dos conteúdos oferecidos ao aprendizado das pessoas. O medo, que é uma reação emocional, frente à imposição autoritária de um dos tipos de poder, no caso, o saber, difere, em absoluto, do respeito que se passa a ter do conhecimento internalizado. O respeito é consequência da consciência que se passa a ter sobre o conteúdo e, a diferenciação que se faz entre a realidade pessoal e coletiva. A segunda é saudável e de resolutividade infinitamente maior do que quando comparada ao meio.

Percebe-se, entretanto, um paradoxo importantíssimo e, socialmente aceito, dentro dos mecanismos da educação. Há um não aguentar, onde não se comporta mais o novo e, como resultado, um princípio criativo que venha a diferir daquilo que é vigente. Pauta-se uma não paciência àquilo que, eventualmente, ameace o que está pré-estabelecido e inserido dentro de uma zona de conforto para a manutenção dos padrões públicos das diferentes classes sociais e das culturas estabelecidas. A intolerância, palavra que sintetiza esse arcabouço de adjetivos, passa a ser o ícone que permeia o processo de ensino e aprendizagem. À família, dentro de um modelo tradicional, propagam-se estruturas vigentes acrescidas das projeções emocionais dos pais, ou responsáveis, repassando suas frustrações, as alegrias daquilo que fora conquistado e, assim, uma blindagem que visa proteger, desmedida e irracionalmente, ou, uma faixa de liberdade que liberta os tutores do peso daquilo que passa a ser a condição de suas escolhas para serem pais e mães.

A imposição daquilo que deveria vir a ser forma a normatização dessas relações familiares. Em parte, não se condena e nem se profere um discurso para a abolição do que é saudável e inevitável a essas prerrogativas. Afinal, oferecemos tão somente o que angariamos ao longo do próprio desenvolvimento. Identificamo-nos e reproduzimos dentro de nossos referenciais. A reflexão permanece na inconsistência tida como única, absoluta e verdadeira para essa forma. É comum não ser notada a vitalidade humana nessa formação humana que se inicia na infância: a oferta de alternativas, dentro da relação de causa e efeito, que marca a relação diária das pessoas, presenteando o educando com a possibilidade para a escolha e a experimentação. Não me refiro à libertinagem ou a permissão de um caminhar inconsequente, mas, tão somente, da supervisão e do acompanhamento para aquele que se descobre e revela ao mundo à sua volta. Vamos dizer assim, uma possibilidade para o auto reconhecimento do como se está e o como se constrói o passa a ser.

 
Estes valores são transmitidos à jovem geração pelo contacto pessoal com os professores, e não — ou pelos menos não primordialmente — pelos livros de ensino. São os professores, antes de mais nada, que desenvolvem e conservam a cultura. São ainda esses valores que tenho em mente, quando recomendo, como algo de importante, as «humanidades» e não o mero tecnicismo árido, no campo histórico e filosófico.
A importância dada ao sistema de competição e a especialização precoce, sob pretexto da utilidade imediata, é o que mata o espírito de que depende toda a actividade cultural e até mesmo o próprio florescimento das ciências de especialização.
Faz também parte da essência de uma boa educação desenvolver nos jovens o pensamento crítico independente, desenvolvimento esse que é prejudicado, em grande parte, pela sobrecarga de disciplinas em que o indivíduo, segundo o sistema adoptado, tem de obter nota de passagem. A sobrecarga conduz necessariamente à superficialidade e à falta de verdadeira cultura. O ensino deve ser de modo a fazer sentir aos alunos que aquilo que se lhes ensina é uma dádiva preciosa e não uma amarga obrigação.” 

Albert Einstein, in ‘Como Vejo o Mundo’  –  http://www.citador.pt/textos/educacao-para-a-independencia-do-pensamento-albert-einstein

A escola regular, por sua vez, não deixa de ser uma extensão do que se inicia no núcleo familiar. Agrega-se o ensino do conteúdo técnico e operacional, ampliando a capacidade cognitiva, mas, prosseguem-se as orientações e limitações para a educação pessoal e, agora, interpessoal de meninos e meninas. Professores são tão pais e responsáveis como os que levam suas crianças para as instituições de ensino. A estrutura técnica dos profissionais é, reconhecidamente, insuficiente, onde modelos pedagógicos são aplicados através de formas seculares de disseminação de ensino, onde sempre o educando precisa se adaptar a isso e não ao contrário. Isso tudo frente à nova realidade do padrão cognitivo e da ampliação das funções mentais das novas gerações. Nada pode ser, somente, tudo é. E o mais incrível nisso tudo é a falta de compreensão existente no repasse desse saber e uma notória decoração situacional.

Após alguns anos, com a entrada à vida acadêmica, a situação não se modifica muito. Ampliam-se as informações, mas, os ditos mestre, continuam arraigados às suas raízes que delineiam o que e o como ser repassada à educação, onde o êxito, em termos de desempenho, é verificado pela aproximação a esse referencial e a mais nenhum outro. De peça em peça, simbologia dessa fragmentação, vai se montando um quebra cabeças sem a presença de todas as peças. Em tudo existe uma linha ou um eixo que determina o olhar dos que eram para serem os mestres, significando um olhar parcial, bitolado e estático para uma mesma coisa o tempo todo. E ai daquele que se rebela! Estará sempre à margem ou correndo riscos de jamais ser incluso por se opor.

A atualidade agrega outros meios de educação, como os de auto ajuda, auto desenvolvimento e os ligados aos postulados doutrinários e religiosos, fazendo com que a ascensão espiritual transforme o ser num todo. Há uma demanda social que clama pelo aperfeiçoamento das pessoas, individualmente, e nas relações com as demais pessoas, assim como uma cultura estabelecida frente às solicitações transpessoais. Dentro do contexto comportamental, protocolam-se regras a serem seguidas com o intuito de integrar a pessoas a um padrão que supra as eventuais precisões impostas ao controle e à estabilidade dos grupos sociais. Já àquilo que diz respeito à educação espiritual, percebe-se uma base semelhante. O que mais chama à atenção é que nesse âmbito, intitula-se à educação como evangelização, mesmo sendo conduzida pelo homem que rege essa institucionalização.

Enfim, dentro desse cenário, confunde-se educar com instruir. A instrução vem de um repasse de informações para um público que detém um conhecimento prévio, ampliando a percepção e a forma de se conduzir.  Uma ação que sai de fora e vai para dentro de que acolhe o conteúdo. Já a educação parte da construção, onde o educando capta os referencias, processa-os e, de dentro para fora, devolve à coletividade, colocando em comum o que lhe pertence a fim de ser processado e transformado. Nessa segunda alternativa, é o estagio atual de evolução e de maturidade que permitirá a internalização do saber com a consciência plena de sua transformação futura, já que se entende que é justamente essa criação pessoal que mudará tudo aquilo que é consolidado, já que olhamos, sempre, tudo, com outros olhos.

“A educação actual e as actuais conveniências sociais premeiam o cidadão e imolam o homem. Nas condições modernas, os seres humanos vêm a ser identificados com as suas capacidades socialmente valiosas. A existência do resto da personalidade ou é ignorada ou, se admitida, é admitida somente para ser deplorada, reprimida ou, se a repressão falhar, sub-repticiamente rebuscada. Sobre todas as tendências humanas que não conduzem à boa cidadania, a moralidade e a tradição social pronunciam uma sentença de banimento. Três quartas partes do Homem são proscritas. O proscrito vive revoltado e comete vinganças estranhas. Quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, em homens imperfeitos e depois em homens indesejáveis.

A insistência nas qualidades socialmente valiosas da personalidade, com exclusão de todas as outras, derrota finalmente os seus próprios fins. O actual desassossego, descontentamento e incerteza de propósitos testemunham a veracidade disto. Tentámos fazer homens bons cidadãos de estados industriais altamente organizados: só conseguimos produzir uma colheita de especialistas, cujo descontentamento em não serem autorizados a ser homens completos faz deles cidadãos extremamente maus. Há toda a razão para supor que o mundo se tornará ainda mais completamente tecnicizado, ainda mais complicadamente arregimentado do que é presentemente; que graus cada vez mais elevados de especialização serão requeridos dos homens e mulheres individuais. O problema de reconciliar as reivindicações do homem e do cidadão tornar-se-á cada vez mais agudo. A solução desse problema será uma das principais tarefas da educação futura. Se irá ter êxito, e até mesmo se o êxito é possível, somente o evento poderá decidir.” 

Aldous Huxley, in “Sobre a Democracia e Outros Estudos”  –  http://www.citador.pt/textos/queremos-homens-completos-ou-meros-cidadaos-aldous-huxley

                Dentro das várias formas de poder, temos no conhecimento um importantíssimo veículo. Muito se conquistou, sem dúvida alguma, e degraus significativos foram galgados nessa escadaria de ascensão humana. Contudo, é válido refletir, sobre o cerne que marca, hoje, essa relação: o poder do conhecimento à sociedade, regido pela intolerância. Esse é o ponto que se precisa refletir e alterar. A intolerância à criação, que é pessoal e intransferível, acaba por fragmentar o saber em seu todo e dificultar sua importância de transformação. Só por isso, aliena e o faz engessado.

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