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O ser não se propaga no vazio, está sempre alicerçado sobre as bases de uma cultura, sendo essa promovida pelo processo educacional, iniciado na família e perpetuado nas relações institucionais e sociais pelas quais se associa. A organização coletiva influencia na do sujeito. Somos acolhidos pelos valores e o modo de funcionamento desde o nascimento, e a participação na relação com símbolos variados é contínua e os elementos míticos e ritualísticos, perpetuados, então, de geração a geração. Não formamos apenas um conglomerado biológico eficaz, com respostas adequadas, de acordo com o biótipo que nos habilita a responder aos estímulos do meio. O genótipo que nos dá base, é um dos componentes que nos definem e caracterizam. As vivências individuais, em conjunção com o envolvimento e o comprometimento com as realizações sociais, autoriza, com propriedade, a compreensão mais límpida e transparente da pessoa e de suas interações com a vida. Uma subjetividade que define a identidade e uma subjetivação da cultura que a incorpora e transforma.

Há uma natureza própria, de exclusividade do indivíduo e uma segunda, ao qual se insere, interpretando e sendo o agente ativo dos mecanismos. Uma reinterpretação daquilo que significa para algo que será reanalisado, agregando-se aquilo que é próprio com o que é comum, público, a natureza da cultura. Clifford Geertz (1978) apud DALGALARRONDO (2000), define cultura como “um padrão de significados transmitido historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida.” (Semiologia da Psicopatologia). Pode-se citar, como exemplo, a reverência respeitosa feita ao símbolo da cruz. Cada um dos fiéis se curva, ou, ajoelha-se diante do crucificado, porém, sem distinção, todos se projetam para essa aproximação com seus credos e necessidades próprias. Até mesmo os descrentes o respeitam.

“O termo cultura tem associações diferentes conforme temos em mente o desenvolvimento de um indivíduo, de um grupo ou classe ou de toda uma sociedade. É parte da minha tese que a cultura do indivíduo está dependente da cultura de um grupo ou classe, e que a cultura do grupo ou classe está dependente da cultura de toda a sociedade a que esse grupo ou classe pertence. Por isso, é a cultura da sociedade que é fundamental, e é o significado do termo «cultura» em relação a toda a sociedade que se devia examinar primeiro. Quando o termo «cultura» se aplica à manipulação de organismos inferiores – ao trabalho do bacteriologista ou do agricultor – o significado é bastante claro porque podemos obter unanimidade a respeito dos fins a serem atingidos, e podemos concordar quanto a tê-los atingidos ou não. Quando se aplica ao aperfeiçoamento do intelecto e espíritos humanos, é menos provável que concordemos em relação ao que a cultura é. O termo em si, significando alguma coisa a que se deve conscientemente aspirar em assuntos humanos, não tem uma  história longa. 

 

Como alguma coisa a ser alcançada com esforço deliberado, a «cultura» é relativamente inteligível quando nos preocupamos com o acto do indivíduo se autocultivar, indivíduo cuja cultura é vista contra o pano de fundo da cultura do grupo e da sociedade. A cultura do grupo tem igualmente um significado definido em contraste com a cultura menos desenvolvida da massa da sociedade. A diferença entre as três aplicações do termo pode apreender-se melhor perguntando em relação ao indivíduo, ao grupo e à sociedade como um todo, em que medida o objectivo consciente de alcançar cultura tem algum significado. Podia evitar-se muita confusão se nos abstivéssemos de pôr diante do grupo o que pode ser objectivo apenas do indivíduo; e diante da sociedade como um todo o que pode ser objectivo apenas de um grupo.” 

Thomas Stearn Eliot, in ‘Os Três Sentidos de «Cultura»’ (Ensaio)   –  http://www.citador.pt/textos/as-culturas-de-individuo-grupo-e-sociedade-thomas-stearns-eliot

No final de década de 80, no século passado, existe um movimento dentro da área da saúde mental, focando interesse nos diferentes tipos de grupos étnicos e suas manifestações culturais. A relação com os transtornos mentais está sendo de grande valia para a construção de uma compreensão mais nítida a respeito do comportamento e da afetividade do ser humano. Além disso, a desmistificação dos critérios diagnósticos, sobrepostos, aos padrões de atitudes adotados por povos e comunidades, torna o mecanismo de identificação menos doentio, aproximando-o à naturalidade da educação. Também, possibilita uma diferenciação clara daquilo que realmente é psicopatológico daquilo que compõe ritos e mitos padronizados aos paradigmas comunitários.

A linguagem das emoções e os métodos para condução dos desvios e do sofrimento das pessoas acometidas passam a uma relevância importante. O cruzamento das culturas, promovido pela velocidade e facilidade de comunicação, assim como os movimentos migratórios, igualmente, tornam-se hoje foco de ponderação para os especialistas. A cultura imprime diferenciações de intensidade e de manifestação dos diagnósticos clássicos da Psicopatologia. Outra situação, são os sinais específicos, peculiares a povos determinados, sem necessariamente pertencerem à totalidade populacional no mundo.

Considerando que existem sociedades metropolitanas, ligadas à realidade industrial, as das regiões agrícolas, as com acesso aos recursos básicos essenciais e outras que não. Aquelas com precariedade nutritiva e alimentar e outras sem contato com veículos de comunicação, a diversidade é ampla e constituímos vários universos dentro de um mesmo mundo, onde cada uma terá sua ascensão dentro de alicerces próprios e pessoas com interpretações e reações ímpares. Mecanismos de defesa, precisões para adaptação e, principalmente, a não consciência de outras realidades e modos de vida, definem o modos operante para a ação e a projeção e emissão afetiva do ser. Identificam-se protocolos que se marginalizam ao senso comum e por isso, às vezes, são interpretados como desviantes e, da mesma forma, não saudáveis. Entretanto, paralelamente, percebe-se que muito das coisas tidas como normais, nem sempre são saudáveis, entretanto, aceitas pela maioria e adotadas como convenientes e importantes para a condução da rotina.

A composição biológica, que define genótipo e alicerça o fenótipo, analogamente, discursa sobre a prosa, ou seja, afirma, define aponta e, mesmo passível de alterações, mantém a essência. A cultura, através da educação, versa em poesia a dinâmica de vida de cada um de nós. Dá a subjetividade que não pertence ao universo, mas, tão somente faz participar, influenciando e sendo influenciado. Contudo, mais importante ainda, é seu caráter de visualização do mundo, o olhar com os olhos de quem vê, e ninguém mais. A síndrome cultural relativa aos estados de possessão, fazendo com que os filhos de santo entrem em transe no candomblé, ou, médiuns, incorpore nas doutrinas espiritualistas, possibilitam aos seus executores abrirem mão da própria consciência para o acolhimento de outra. Não se compraz aos estados delirantes e nem alucinatórios, apenas, o externar de um aprendizado e de um desenvolvimento. Logo, a cultura oferece infinitas linhas de convicções, cada uma dentro de suas qualidades e definições. Isso não é doença. A psicopatologia define-se quando, independentemente, daquela optada a seguir, há um afastamento dessa certeza, gerando um sofrimento e dor a si e aos que cercam seu contexto real. Imagem

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