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Nessas últimas semanas, o jornalismo televisivo informou algumas atrocidades ocorridas no Brasil e em outros países, motivando algumas reflexões relecionadas à maneira como a sociedade se comporta. Nos EUA, três garotas sequestradas e mantidas em cárcere privado, violentadas, abortando e sofrendo danos físicos e mentais ao longo de dez anos. Interessante que as mesmas residiam a poucos metros da casa em que estavam aprisionadas. No Brasil, um jovem invade um ônibus, isola os passageiros na parte traseira do veículo, manda uma pessoa recolher os pertences das vítimas e vai para frente da catraca e violenta uma mulher na frente de todos, com uma arma nas mãos e vai embora. Confesso que estou sendo simplista e sintético, pois poderia descrever aqui alguns extensos parágrafos com exemplos de barbaridades cometidas entre as pessoas. Porém, não é essa a intenção, até mesmo porque essa é uma rotina comum, apesar de chocante e desagradável. Pensei sobre a solidão, em verdade.

O tema é muito discutido na área das ciências humanas, analisado dentro das especialidades ligadas ao comportamento humano, da sociologia, identificado pelos movimentos antropológicos, ponderado na Filosofia, presente nos versos dos poetas, cantado nas melodias das canções e, até mesmo, justificativa para a manifestação de sintomas que definem os critérios diagnósticos para alguns dos transtornos mentais, sendo um deles a sociopatia. Percebe-se que há uma evitação para esse estado, um tipo de repulsa em pensar e uma reatividade para se viver, inclusive quando isso se retrata em pouquíssimos instantes da vida de uma pessoa. “Solitudo”, latino, existe por ser acompanhado de “solus” , sozinho. A solidão simboliza o conjunto vazio, a ausência de qualquer tipo de acolhimento e a inexistência de integração.

Essa qualificação não é apenas aflorada quando da não presença do outro. Um número expressivo de indivíduos sentem essas mesmas manifestações, em momentos diversos, quando se encontram cercados por outras pessoas. A vida comunitária, na atualidade, pulsa, intensa e velozmente, moldada pelo paradigma do individualismo e do egoísmo desmedido e danoso a todos os envolvidos. Muitas vezes, não conhecemos nossos próprios vizinhos, até por que, cumprimentá-los, não é sinônimo de aproximação e de intimidade. Nas relações de trabalho, o que pauta são as trivialidades e as condutas técnicas e operacionais e o tal do jargão aplicado, denominado de pessoas, passa a ser um lindo discurso. Como contraponto, se há a intenção para uma aproximação maior, o risco de ser estigmatizado como intrometido e sem limites, é quase absoluto. Ponderando essas passagens diárias, percebe-se que dezenas e, até centenas de pessoas, passam por entre nós e atravessam o caminho que percorremos, entretanto, a sensação de solidão é a que predomina, pois o só é o que mais acompanha cada um.

“O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(…) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

Miguel de Unamuno, in ‘Solidão’  –  http://www.citador.pt/textos/o-solitario-miguel-de-unamuno-y-jugo

A situação norte americana, não poderia ter tido um desenrolar diferente. As sequestradas viveram dez anos vizinhando a própria casa. Havia incômodo com coisas estranhas que aconteciam, até a polícia fora chamada umas duas vezes. Houve um envolvimento, mas, sem nenhum tipo de comprometimento. Lembrei-me de fatos que pude acompanhar na área da saúde mental em comunidades onde o aspecto social e comunitário predominava na conduta. Igualmente, recordei das experiências vividas na vida pessoal e pela observação de amigos, conhecidos e familiares. Interessante que me dei conta de quantas coisas se assemelha, mesmo que não dentro de uma mesma intensidade e voracidade como as descritas, contudo, de não menor importância e de impacto na vida de qualquer um. O que é preciso se conscientizar, é sobre a agressividade socialmente aceita, os atos convenientes e interessantes, que contribuem para um suposto bem estar das relações de da convivência.

A essa solidão coletiva, cabe uma mensuração de consequências. Não há a participação efetiva sobre a realidade dos que nos acompanham. O interesse fica minimizado e, consequentemente, a importância em relação à vida humana passa a ser banalizada. É como se tudo se tornasse mais significativo do que a vida em si, daquilo em que estamos, do que nos tornamos e passamos a ser. A essência é marginalizada, fazendo com que o que é periférico, torne-se o eixo central para a ação dos que se dizem pensantes e sentimentais. Que não se confunda o estar só, pois nessa escolha não existe o abandono provocado na solidão. Aqui há um encontro consigo, um mergulho à própria intimidade e um encontro com indagações e respostas que conduzem à evolução e a transmutação pessoal. Àquele que opta por estar só é, inquestionavelmente, muito mais bem acompanhado do que os que vagam a procura de alguém dentro da imensidão solitária de tantas companhias

Esse prenúncio de violência, estruturado pela indiferença, é o que gera a inquietude, a ansiedade e as oscilações de humor, que podem ser manifestas pelo embotamento e a aniquilação homeopática, ou, pela procura pela aniquilação do meio que o ignora e desvaloriza, adotando comportamentos que machucam e ferem os tidos vilões dessa gigantesca insatisfação. O resgate do amor verdadeiro é o grande bálsamo para a redenção que precisamos.

“A pessoa que sou é única, limitada a um nascer e a um morrer, presente a si mesma e que só à sua face é verdadeira, é autêntica, decide em verdade a autenticidade de tudo quanto realizar. Assim a sua solidão, que persiste sempre talvez comopano de fundo em toda a comunicação, em toda a comunhão, não é ‘isolamento’. Porque o isolamento implica um corte com os outros; a solidão implica apenas que toda a voz que a exprima não é puramente uma voz da rua, mas uma voz que ressoa no silêncio final, uma voz que fala do mais fundo de si, que está certa entre os homens como em face do homem só. O isolamento corta com os homens: a solidão não corta com o homem. A voz da solidão difere da voz fácil da fraternidade fácil em ser mais profunda e em estar prevenida.” 

Vergílio Ferreira, in ‘Espaço do Invisivel I’   –  http://www.citador.pt/textos/a-voz-do-silencio-vergilio-antonio-ferreiraImagem

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