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O silêncio é algo representativo. Sua expressão é singular e o significado de sua comunicação, preenche vastas lacunas, então desconectadas, pelos gritos incessantes daquilo que nada se fala. Vulgarizado, ultrapassa todas as barreiras do senso pejorativo que o definem, miseravelmente, como sendo o aquietar-se frente ao conflito ou a discussão. Sua intenção é nobre, ainda que mal interpretada, pois almeja, simploriamente, levar em retirada o ruído que atrita e desvia as boas intenções que originam os encontros.

O silêncio gera a possibilidade de acolher. Angariar a informação e através dessa processar um novo, ou talvez, refazer, o conhecimento. É humilde, na medida em que reconhece ser melhor não expor, pela fala desabalada, jogando ao vento, palavras sem sentido e, até mesmo, difíceis de serem compreendidas àqueles que as aproximam. É caridosa, já que, em sua suposta passividade, abre portas para que a ansiedade e a insanidade, em várias oportunidades, sejam extravasadas como único bálsamo à alma dos que se impõem.

O silêncio é encontrado na arte, onde o que se senti é falado ao que se simboliza. Os versos tornam-se imagens daquilo que se encontra, unicamente, na mente e no coração. A partitura extravasa a vibração que pulsa, intensamente, no peito de seu criador. A rotação de tronco e os movimentos dos braços e das pernas, desenhadas pela coreografia de quem vive na dança, reflete o movimento interno, inalcançável, do bailarino. Já a prosa, essa descreve o que de fato é, deixando a aparência de lado e dando lugar ao sentido que se faz.

O encontro consigo e a busca pelo transcendente, igualmente, são marcados pelo silêncio. Afinal, como ouvir o clamor da própria vida que chama, sem se calar diante do próprio engano? A plenitude ambicionada e a redenção perseguida encontra-se na vastidão infinita, lá, localizada no inalcançável, distante das palavras, dos estados assumidos e das intitulações que nos tornam algum tipo de ser. É somente pela fragmentação do que é pela sede do de vir, que passamos a assumir esse espaço de liberdade e de igualdade, aonde o silêncio nos conduz.

O silêncio não traduz a morte, nem mesmo sucumbo a quem se aproxima. É simples essência, com exatidão. É sua rotina que nos afasta da mesmice do rondar que nos faz contornar o círculo que se sustenta em redoma. É o que nos manda sair e tomar conta da amplidão. Mas como esperar a interpretação daquilo que cala, se mesmo com as palavras expostas, o não entendimento é fazer-se presente perpétuo. Sujeito a múltiplas interpretações e desvios a caminhos infinitos? Ora, se não damos conta da palavra falada, o que seria do silêncio se não um sussurro longínquo aos que se prostam pela surdez de suas falácias racionais.

O silêncio clama pela ausência do ruído que interfere na adversidade e nas diferenças. Explica o não entendimento do que se repete com avidez a fim de dar entrada onde a porta se fecha. É o idioma simples do sentimento, sem regra gramatical e nem concordância de ações. É puro pela sua coerência, respeitoso pela participação e humilde por deixar participar todo aquele que simpatiza ou não com sua retórica. Ao muito que é dito, inflama a discórdia e a contradição, potencializa a agressividade das vaidades e arruína o amor entre as pessoas. No que se cala, há a direção da atenção e a preocupação com o que até então era despercebido.

O silêncio é a verdadeira oração, ditada pelo que há de mais íntimo no ser. É a boca que fala sem o recitar da palavra, somente emitindo a vibração do que de fato se é e se senti. É a prece do encontro consigo e das revelações mais fecundo a outrem. Afinal, como viver “As Horas pela Alameda” de Fernando Pessoa, sem se embriagar pelo silêncio:

“As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda, 

Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada

Sob o azular do luar…
E ouve-se no ar a expirar –

A expirar mas nunca expira –
Uma flauta que delira,

Que é mais a idéia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila

Pelo ar a ondear e a ir…
Silêncio a tremeluzir… “

Fernando Pessoa, in ‘Cancioneiro’  –  http://www.citador.pt/poemas/as-horas-pela-alameda-fernando-pessoaImagem

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