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Há um elemento comum a todas as seitas, religiões ou manifestações místicas conduzidas pelo homem dentro da cultura ocidental e oriental: a mensagem para uma vida eterna, independentemente, da forma experimentada. Ao mesmo tempo, esse terceiro milênio, especificamente, no Brasil, nunca se abordou, com tanta ênfase, a busca e o encontro com o transcendente e com os mistérios que se sobrepõem à matéria. Pessoalmente, sou um crente ativo da realidade etérica e, dentro de minhas imperfeições e limitações, busco trilhar o caminho para essa proximidade. Justamente, por ser tomado de tamanha ignorância, tenho vivido momentos de reflexão em relação à maneira de viver e a qualidade desse modo, projetadas à rotina, minha, e das pessoas que participam das experiências oportunizadas em meu dia a dia.

Minha indagação inicial centra-se na motivação e objetivos para se alcançar um espaço divinizado e o tão recitado mundo melhor? Creio que a caminhada pelas esferas transpessoais, representa a construção de um telhado após a casa edificada. É inconcebível dar início a essa obra por aquilo que se cobre, sem, anteriormente, levantar-se as paredes que darão sustentação à proteção. Nesse exato momento, somos donatários de um lar e dentro do ninho, pessoas as quais nos tomamos de responsabilidade. Em nossa volta, dezenas, centenas, até milhares de outras que ocupam espaços ao nosso redor e que direta, ou, indiretamente, também agimos em prol do benefício e do bem estar desses e, dessa forma, reciprocamente. Estamos inseridos junto à fauna e a flora, a natureza em geral e em convivência com milhões de indivíduos, que assim como cada um de nós, ruma, de determinada forma, em um mesmo sentido.

Essa estadia material, nada mais é, do que a formação de uma bela e grandiosa escada, para então, galgar-se uma ascensão mai próxima e digna diante de tudo que está afastado da realidade terrena. Uma relação simples de causa para efeito. Há uma lógica: não se colhem melancias plantando-se cebolas. Ou seja, não se colocam as mãos nas ondas do mar, sem o esforço de se dirigir até uma praia onde lá fazem morada. Faz-se necessária a consciência da existência de um prólogo à eternidade. Essa composição é estruturada sobre dois pilares mestres, o trabalho e as interações edificantes. Toda e qualquer ação pode ser definida como trabalho, ou, obra sendo realizada e conduzida em virtude da finalidade implícita ao comportamento. Não é só a atividade formal que se traduz como trabalho. A benfeitoria ao outro, por mais singela que seja a atitude, revela uma importante iniciativa. Toda ação é passível de reação. O gesto inicial, então, desencadeará, uma série de consequências, influenciando na vida de várias pessoas.

“Segundo a expressão de Lavelle, a morte dá «a todos os acontecimentos que a precederam esta marca do absoluto que nunca possuiriam se não viessem a interromper-se». O absoluto habita em cada uma das nossas empresas, na medida em que cada uma se realiza de uma vez para sempre e não será nunca recomeçada. Entra na nossa vida através da sua própria temporalidade. Assim o eterno torna-se fluido e reflui do fim ao coração da vida. A morte já não é a verdade da vida, a vida já não é a espera do momento em que a nossa essência será alterada. O que há sempre de incoactivo, de incompleto e de constrangedor no presente não é já um sinal de menor realidade.

Mas então a verdade de um ser já não é aquilo em que se tornou no fim ou a sua essência, mas o seu devir activo ou a sua existência. E se, como Lavelle dizia em tempos, nos julgamos mais perto dos mortos que amámos do que dos vivos, é porque já nos não põem em dúvida e daqui para o futuro podemos sonhá-los a nosso gosto. Esta piedade é quase ímpia. A única recordação que lhes diz respeito é a que se refere ao uso que faziam de si próprios e do seu mundo, o acento da sua liberdade na incompletude da vida. O mesmo frágil princípio faz-nos viver e dá ao que fazemos um sentido inesgotável.

Maurice Merleau-Ponty, in ‘O Elogio da Filosofia’  –  http://www.citador.pt/textos/o-eterno-e-a-propria-vida-maurice-merleauponty

A informalidade é marcada pelas ações corriqueiras, envolvendo familiares, vizinhos e indivíduos que participam de atividades afins. A boa vontade inicia-se já, aqui, dentro de cada uma das provas travadas em nossa realidade e não depois, imaginando-se um ser angelical que pelo uso de supostas asas, passa por uma transformação sem sentido, ridícula até e, inexistente. Só se alcança o bem fazendo o bem. O entrosamento com as premissas místicas e religiosas que aguardam o ser para sua caminhada pela eternidade é semeada aqui, nas provas e expiações que nos lapidam e purificam. Não basta intitular-se, optar em ser pai e mãe, amigo, marido ou esposa. Obrigatoriedade não é sinônimo de realização e de tarefa cumprida. Muito menos iludir-se em envolver-se, assim como a cadeira da sala participa de sua decoração. Sem o devido comprometimento com aqueles que nos são íntimos, pouco participamos do desenvolvimento e do aprimoramento de suas vidas e, ainda, menos capacitados nos tornamos para influenciar os que a nós não convivem intimamente. Ai entra o trabalho formal de cunho social e coletivo.

Sem uma preexistência harmônica e saudável no âmbito informal, não se geram subsídios necessários para a doação e o reconhecimento empático para aqueles que não nos são próximos. Falta um preparo prévio para essa empreitada. O trabalho é uma de nossas grandes responsabilidades sociais, através dele contribuímos para suprir as carências pessoais e coletivas. Trabalhamos, ao menos assim deveria ser, única e exclusivamente, pela razão de as pessoas precisarem de nós. Oferecemos a parte que nos cabe e as especialidades que possuímos em prol da felicidade de quem nos solicita. Não se deve trabalhar pelo dinheiro ou eventuais benefícios oferecidos. Tais situações acabam sendo meras consequências, resultantes da troca que se deve fazer. Esse não é um discurso piegas, pelo menos não deveria ser interpretado assim, haja vista que é o que qualquer um deseja receber quando procura saciar seus desejos e precisões.

Para isso, não se pode interpretar as relações de trabalho como obrigação, muito menos punição. Não se deve tê-lo como peso e nem sacrifício. É preciso exercê-lo com esmero, buscando aperfeiçoamento contínuo e sempre percebendo aquilo que, pessoalmente, pode ser feito para melhorá-lo, independentemente, das variáveis que possam prejudicá-lo. Se pessoas precisam de nós, cada um precisa dos outros e passa a se querer o atendimento para isso. Não se pode desejar do outro o que não se esforça a oferecer a esse. Isso é no mínimo egoísta. Oferecer o bem e atender aquilo que é necessário a outrem é o prenúncio para a conquista do que se almeja em termos de contemplação e um estado sublime para a alma.

Aquilo que se faz é a marca que se deixa. A vida eterna se inicia pela lembrança que imprimimos dentro da história que vivemos. Aqueles que passam sua história, escrevendo-a em páginas em branco, são esquecidos. Os que escrevem insanidades e ruindades, são pessimamente recordados, preferencialmente, esquecidos. A ambição pela vida eterna e a estabilidade paradisíaca não vem graciosamente. O que se anseia para o futuro deve, indubitavelmente, ser construído no presente. Não existe mágica, milagre, ou qualquer outro tipo de fantasia delirante, minimizando nossos erros e ilusões. O que há é a obra e sua marca se faz a cada milímetro percorrido. Nós somos responsáveis, únicos, pelos nossos processos. Essa é a essência da liberdade que somos possuidores. É a meta de se estar na carne e de partilhar a matéria. De resto, apenas devaneios sobram à sombra do engano. Mesmo a eternidade é delimitada pelo tempo, pelo espaço da preguiça e da negligência. Imagem

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