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Existe um padrão para a condução do indivíduo diante da rotina vivenciada. As respostas afetivas e as atitudes adotadas seguem, dentro de uma generalidade, uma sistematização delimitada entre uma medida e essa vem a caracterizar o perfil de cada ser humano. Denomina-se a isso de trajeto sobre uma linha de convicção, ou, o auto convencimento relacionado à forma de se postar diante dos fenômenos pertinentes à vida. A própria oscilação, natural, dentro desse processo, classifica-se como pertencentes à dinâmica pessoal. Estímulos mais radiantes podem e devem levar a um entusiasmo acima do habitual, assim como os negativos a um declínio nas reações frente a essas vicissitudes. Refiro-me a uma alegria maior e a uma tristeza, saudável, como mecanismo de compreender e internalizar as dificuldades surgidas. Com essa regularidade, formadora da estabilidade vivencial, a maioria absoluta da estatística dos seres humanos caminha.

Contudo, cada um de nós está passível de enfrentar impactos, de intensidade significativa, que podem vir a deslocar o indivíduo de seu eixo central e assim vagas fora dessa linha de convicção, alterando a percepção, o pensamento e as atitudes comportamentais e afetivas. Essas tensões inesperadas podem estar relacionadas desde as vivências traumáticas com os fenômenos naturais, as violências físicas, o luto, tanto no desencarne de pessoas próximas como nos processos de separação, os danos à moral e as surpresas negativas ligadas às decepções com pessoas próximas, das quais não se esperam violações em relação à confiança e a conduta. Tais ocorrências, assim como outras não citadas na exemplificação, permitem uma chance de resposta daqueles que as vivenciam dentro de um mecanismo definido como choque emocional.

Nesse momento, analogamente, é como se a engrenagem funcional da pessoa parece de atuar na direção e na velocidade comum e passasse a adotar outro sentido e rotação. Assim, o olhar, o processamento do pensamento e a reatividade, tanto emocional como comportamental, passam a assumir uma nova postura. Existem três alternativas para o desvio que se instala. O predominante está em uma negatividade, seja pela agressão, contra si mesmo ou aquele que provocou o choque, de maneira verbal, velada e até física. Dentro da negatividade, pode ocorrer, e é o comum, o declínio para o funcionamento afetivo e das respostas às imposições da rotina. A outra possibilidade está na indiferença, uma maneira para se ajustar ao novo que assola e só depois, posicionar-se em um padrão efetivo. Finalmente, um grupo minoritário, que são os que demonstram um afeto inadequado frente ao que se passa, externando uma elevação de humor e até uma negação para o vivenciado.

 
Suponde vós que tudo era reduzido a fórmulas e que a vossa crença era confinada à apreciação de graus de verosimilhança, e que vos era insuportável viver com tais premissas… que fazíeis vós? Ser-vos-ia possível viver com tão má consciência?
No dia em que o homem sentir como falsidade revoltante a crença na bondade, na justiça e na verdade escondida das coisas, como se ajuizará ele a si mesmo, sendo como é parte fragmentária deste mundo? Como um ser revoltante e falso?” 

Friedrich Nietzsche, in ‘A Vontade de Poder’  –  http://www.citador.pt/textos/um-ser-revoltante-e-falso-friedrich-wilhelm-nietzsche

A durabilidade e a intensidade para essas alterações são relativas. Depende da estrutura da personalidade e das eventuais pré-morbidez identificadas ao longo do desenvolvimento de cada um. Alterações neuroquímicas ocorrem, acompanhando o novo estado, que pode ter um perfil situacional ou permanente, em termos de desarmonia e de desequilíbrio. Efetivamente, não existe um retorno à situação anterior, pode até haver uma aproximação que venha a se assemelhar, porém, jamais a igualdade. O simples fato de se passar a perceber dentro de uma visão até então não rastreada, já trás novos elementos para uma amplitude maior sobre os fatos da vida pessoal e social. Há um novo saber que se sobrepõe ao preexistente. O cerne para o fenômeno está em manipular o contexto inédito de maneira saudável para que não se produzam novos prejuízos, tanto para quem passou pelo choque como para os que o promoveram.

Mesmo não sendo essa uma tarefa fácil, ao contrário, visto a complexidade de o diferente ser instalado invasivamente, sem a prévia preparação ou consentimento, a readequação e readaptação se fazem primordiais para que a harmonia e o equilíbrio, derivados da estabilidade emocional, instalem-se mais uma vez à dinâmica. Essa busca pode ser obtida pelo movimento próprio da pessoa ou com o auxílio de algum profissional que contribua para a reorganização interna e até mesmo neuroquímica, quando imprescindível. Aqui vale uma ressalva importantíssima, referente ao ledo engano do dito popular e até místico, em suas afirmativas relacionadas ao perdão como sendo o maior e mais importante remédio para a amenização de todas essas dores.

A ação de perdoar não altera o caminho da mudança afetada. Tudo será processado dentro de uma naturalidade para a preservação do eu. Mesmo que honesta e sinceramente o perdão venha a ser aplicado, a transformação para a relação e a transmutação do pessoal não deixarão de existir. Justamente pelo impacto do choque, o registro no banco de memórias fará com que o instinto de sobrevivência seja sempre acionado logo que o nível de ansiedade ameaçar a estrutura do ego, utilizando-se de veículos gerados, justamente, pela repercepção. O perdão é de grande valia moral e contribui, potencializando as forças, para que o indivíduo se reestruture e retome uma dinâmica, então, saudável., mas não a elimina, muito menos a faz surgir para uma eventual defesa contra sua repetição.

Por isso, há uma necessidade premente de pensar no modo como se atua consigo e com os que nos cercam. Com certeza, existem situações que fogem ao controle de nossas intenções, porém, boa parte dos choques emocionais é derivada de escolhas originadas das pessoas e voltadas para as pessoas, construindo-se conflitos e fragmentações significativas para o andar de muitas vidas. A responsabilidade sobre isso é, única e exclusivamente nossa, uma consequência das escolhas que fazemos em relação ao como nos conduzimos diante da vida e dos demais seres humanos. É preciso ponderar já que o mundo melhor, tão almejado, parte das nossas iniciativas, na maioria quase que absoluta das vezes.

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