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A ação de apegar-se tem como significado, literal, pegar, trazendo para si e incorporando o objeto ou o sujeito para a maneira que conduz a dinâmica de vida do apegado. O apego não está relacionado com o sentimento do amor, são duas coisas distintas, inclusive, antagônicas. O amor, verdadeiro, não aprisiona, liberta, permitindo ao outro usar a sua liberdade de acordo com sua vontade e necessidades, mesmo que equivocadas. Não impõe, apenas faz participar, compartilhar. A essência da manifestação amorosa encontra-se na nulidade de qualquer tipo de expectativa para a reciprocidade do ser amado. É pura incondicionalidade daquilo que se senti. Um envolvimento pleno, seguido de um comprometimento absoluto para o bem estar e a realização daquele que é amado, jamais dos que amam.

Já o apego, esse é visceral. Construído sobre os pilares de uma passionalidade impulsiva, desmedida e sem as limitações saudáveis do bem senso, do equilíbrio e da harmonia. O sujeito central da interação é aquele que se apega, já que todo o contexto relacional gira em torno de quem precisa e quem luta, avidamente, pelo encarceramento desse laço, do nó. Por mais absurda que possa parecer a ideia, não há uma intenção direcionada ao que se fixa, mas, sim, as necessidades pessoais que conduzem à essa aproximação. É como se esse passasse a se responsabilizar por aquilo que é vital para a vida do encarcerador. Uma projeção injusta e descabida das carências e das precisões pessoais que almejam viver a vida do outro e não a própria.

                “Nós só sentimos agrado para com os semelhantes – ou seja pelas imagens de nós próprios – quando sentimos comprazimento conosco. E quanto mais estamos contentes conosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós. É em consequência dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos o nosso distanciamento. 
Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais.
Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à sociabilidade com muita gente.
Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto se verifica, então receberemos uma grande alegria: afinal, estamos na mesma situação.
E, talqualmente nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes.
Assim, nós deixamos de desprezar os outros; a aversão para com eles diminui, e dá-se a reaproximação.
Eis porque, em virtude da doutrina do pecado e da condenação universal, o homem se aproxima de si mesmo. E até aqueles que detêm efectivamente o poder são de considerar, agora como dantes, sob este mesmo aspecto: é que, «no fundo, são uns pobres homens». “

Friedrich Nietzsche, in ‘A Vontade de Poder’  –  http://www.citador.pt/textos/a-necessidade-do-proximo-friedrich-wilhelm-nietzsche

                O apego, nada mais é, do que a manifestação suprema do egoísmo, para consigo mesmo e para o outro. É posse, detenção. Um ato muito mais voltado ao desamor próprio e para quem supostamente, acredita-se, amar, do que uma manifestação pura e verdadeira. É uma ânsia, por vezes, até desmedida, de preencher lacunas imensas dentro de si mesmo, como se alguém pudesse fazê-lo. Uma tentativa, vã, de se desligar dos problemas e das iniquidades. Há uma compulsão de uso onde a pessoa alheia passa a ser um veículo para a drenagem das amarguras e das insatisfações.

A saúde da mente está na relação que se faz consigo mesmo e na consciência sobre a participação, situacional, das pessoas, em etapas delimitadas da vida, complementando e auxiliando, não possuindo como propriedade. O princípio do amor ao próximo, independentemente, de quem o seja, está na não necessidade de retorno do sentimento. É o amar pela expressão própria e pelo perfil que se traça para a caminhada ao longo da vida. Ama-se por si, jamais pela reação de quem passa a ser esse objetoImagem

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