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Alterações do Tempo e do Espaço Promovidos na Escolástica

 

                As vivências no tempo e no espaço, simplesmente, estabelecem a essência para o universo e as bases magnas para a experiência humana, ou seja, medidas vitais para o funcionamento das relações entre o homem consigo e com o ambiente. São realidades que correm, independentemente, da vontade de seu sujeito, são absolutas (Leibniz, 1646). Kant (1724), afirma que nada pode ser conhecido fora da relação do tempo e do espaço, citando como exemplos as noções sobre Deus, liberdade e outras referentes à subjetividade humana. Muito já se pensou e falou a respeito do tempo e do espaço, tanto pela Filosofia, quanto a Física e também a Psicopatologia que se usa das noções de Bergson (1934), quando aponta a extensão espaço para a evocação do tempo e, de Heidegger (1889) que fala da compreensão do homem por sua condição de “estar/ser no mundo e com os outros” (DALGALARRONDO, 2000).

Para a vida psíquica, os limites que norteiam o tempo e o espaço, são de fundamentais importância para a organização interna de cada indivíduo para que possa se reportar ao intervalo de cada uma de suas ações, tendo a possibilidade de delimitar e de diferenciar uma das outras. Possibilita a composição do enredo de sua história, obervando cada um dos personagens participantes, o que e onde agiram e, cronologicamente, fomentando uma lógica para a relação de causas e de consequências para os fatos ocorridos ao longo do processo de desenvolvimento. A relação entre o tempo pessoal, subjetivo, com o tempo objetivo, ou externo, é a busca para a orquestração perfeita entre as partes, individualidades pessoais, e o todo, a grande ação da coletividade. Entretanto, está no descompasso para esse encontro, a principal retórica da caminhada humana.

Observa-se, cientificamente, na massa populacional, dois perfis diferentes: a maioria quase que absoluta crente em um Deus e, a minoria avassaladora, descrente das coisas místicas. Porém, poderíamos acrescentar uma terceira, a dos ditos religiosos que não seguem as filosofias que ditam suas rotinas. Para os religiosos, não existem barreiras que limitam o espaço para suas relações, ao contrário, cabe-lhes a possibilidade de um deslocamento espacial, estabelecendo a comunicação entre os dois mundos. Um desdobramento da alma, que se afasta do corpo e transita em locais diferenciados. Vários são os espaços da verdade, aliás, a matéria e o transcendente, apenas se diferenciam por sua estrutura de composição material, fundindo-se através da fé que se transforma em crença e na posterior realidade que conduz à vida, dentro de seu modos operantes.

O mundo externo oferece a prova e a expiação, departamentalizado em blocos de ações, ou, “karmas”. O sagrado é definido pela redenção e a aproximação a Deus, o caminho para a aproximação. Já o profano, é tudo aquilo que se encontra no atual estágio de evolução e de onde se deseja, veementemente, partir, abandonar. O tempo caminha em paralelo, através da duração ordinária, cronológica, e pela sagrada, onde tudo pode e deve ser recuperado, sendo sempre presente pela capacidade mental do homem espírito de transportar ao passado e ao futuro, como se tudo fosse uma única quantidade temporal, sem relatividade. Ao homem sem crenças de religação, há a fixação na cronologia presencial de suas atitudes. Aos ditos religiosos sem causa, cabe o uso do tempo e do espaço como um veículo de fuga da realidade em que se inserem a fim de obterem, ilusoriamente, o que precisam, de uma fonte mágica, criando mecanismos de defesa, formando sintomas e até desenvolvendo quadros médicos clínicos ou psicopatológicos.

O nascimento desse perfil de credo dentro das noções de tempo e espaço nasceram com a Patrística e se consolidaram na Escolástica, no auge da Idade Média. A primeira, interessada na teologia e a segunda na fundamentação de uma filosofia cristã. Ao contrário do que é percebido nos ciclos históricos, de que a Idade Média foi o período mais longo de escuridão frente à produção intelectual, é obrigatório se reconhecer que, a base ocidental para a produção do pensamento do homem, deu-se, exatamente, nesse período, ou seja, um instante repleto de riquezas em termos de aprendizado. Mesmo que às avessas, formamo-nos e passamos a ser o que somos hoje. Tomás de Aquino, maior expoente da Escolástica, afirma a existência de Deus em dois tempos. “Apriori”, por aquilo que vem antes e      “posteriori”, ou por aquilo que passa a vir Dele.

 
O prazer de narrar e de escutar é o de ver os factos serem dispostos segundo aquele gráfico. A meio de uma narrativa volta-se às premissas e tem-se o prazer de encontrar razões, chaves, motivações causais. Que outra coisa fazemos quando pensamos no nosso próprio passado e nos comprazemos em reconhecer os sinais do presente ou do futuro? Esta construção dá, em substância, um significado ao tempo. E o narrar é, em suma, apenas um meio de o transformar em mito, de lhe fugir.” 

Cesare Pavese, in ‘O Ofício de Viver’  –  http://www.citador.pt/textos/dar-significado-ao-tempo-cesare-pavese

Sendo, então, Deus, o centro do Universo, define-se que a razão predomine sobre a emoção, afinal, o sentimento é lascivo e passional, provocando danos nas pessoas. Uma anulação plena da subjetividade. A ética vem de uma felicidade plena, que não existe, porém, busca-se, no tempo futuro, o da crença e o da fé. Uma equação que elimina o princípio da razão, já que o futuro, em tese, não nos pertence. Ampliando, uma felicidade que não está contida no sujeito da ação, mas, sim, em Deus, a figura externa e alegórica da fé, mesmo que seu caráter seja delineado, tão somente, dentro das relações e das participações humanas. Aquino afasta a possibilidade de egoísmo a partir da harmonia e da amizade, mas, segundo as reflexões de Finnis (1998), a vida de virtude proposta, seria uma forma de egoísmo, afinal, se a inteligência, como função mental do corpo humano, está ligado a sua capacidade de fé e a justiça à média que cerca o senso comum, nada deve pertencer à pessoa, nem mesmo as suas responsabilidade naturais expostas na Lei da Semeadura, onde está é livre, ou deveria ser, e a colheita obrigatória, volta ao ser.

A filosofia da religião estabeleceu dogmas para o comportamento da humanidade. Em paralelo as teorizações feitas, devemos nos reportar a todo um movimento de massificação promovido pela igreja católica, no sentido de converter, por imposição, seus fiéis. As cruzadas, as guerras santas e as inquisições, tornaram-se a grande marca de toda era medieval. Uma atitude, de um estado dominado pela influência do clero religioso, absolutamente paradoxal aos postulados repassados e ensinados por Tomás de Aquino. Comportamentos nada saudáveis, ruins diante de seus pressupostos, mas, que, entretanto, consolidavam a absorção dos novos paradigmas através do medo, da ameaça à sobrevivência. Nesse sentido, factualmente, promoveu-se uma estagnação da caminhada evolutiva do homem, frente às suas necessidades de aperfeiçoamento. Houve, sim, um tempo que parou por, repetidamente, buscar o adestramento dos povos que eram assolados por essa boa, má, nova.

A sede de viver, segundo a potencialidade e a capacidade de cada ser, sobreposta às implicações da moral, bússola regente para a atitude e o pensar, de certa maneira, tornaram as noções de tempo e espaço, alteradas no consciente e no inconsciente coletivo da sociedade. Pela repetição, a ilusão sobre a duração do tempo, com certeza, ocorreu. Comumente derivada das intoxicações, esse quadro, para a época, associa-se, simbolicamente, à overdose imposta pela igreja aos hábitos e costumes das comunidades.Aprendemos que o tempo é uma possibilidade nas mãos dos que a podem manipular.  A atomização do tempo, que faz perder a margem com o que foi e o que será, igualmente pode veicular-se ao engessamento diante do novo. Pela repetição, perde-se um tanto da noção do que foi e daquilo que passará a ser.Incutiu-se que o que foi elimina-se pelo perdão confessado,modificando o futuro pela boa intenção, como se nada ocorresse diante da participação.   A inibição de fluir do tempo, ou de um avanço subjetivo em relação ao que se passa, perde-se pelo domínio daquilo que se impõe como lei obrigatória a ser seguida, fragmentado a própria estrutura do eu, ou do ego.

Mais significante ainda, são as alterações espaciais, que eliminam as fronteiras do eu com a realidade externa. Uma perda da própria consciência que se funde com o objeto da realidade externa, transpondo-os a uma só contextualização. Modernamente, percebem-se essas modificações em pacientes com diagnósticos efetivos, como no caso das alterações de humor, na Esquizofrenia e outros transtornos psicóticos e nos critérios diagnósticos para a paranoia, entre outras. Devemos nos ater à ascensão do homem frente a sua própria história, então, para poder compreender. Atravessamos século em que nos afastamos de nós mesmos e, sem a devida compreensão, buscamos, ansiosamente, pelo encontro com o ente externo, maior e punitivo. Sem a noção da auto regência, já que fora o Criador o grande responsável por tudo isso, perdemo-nos dentro de nós mesmos. A noção e a definição de liberdade, que nos incumbe pelo que cativamos, fragmentou a constituição da personalidade do senso comum e, consequentemente, da estrutura de cada uma das partes formadoras, ou egos que fazem parte do grupo social

A dicotomia do ser, em corpo e alma, estabeleceu uma dialética esquizoide, já que, se acopladas, são uma só, mas que para a divinização e controle coletivo, foi repartida, pedagógica e funcionalmente, para que todos pudesse ser domesticados. Com certeza, jamais pelo que Cristo demonstrou, mas, tão somente, por aquilo que a conveniência e os interesse políticos, econômicos e geográficos do estado, visavam para o suposto bem de todos. A “Laranja Mecânica” medieval, arrancou do homem a responsabilidade sobre seus próprios processos e mostrou a todos uma obrigatoriedade sem a devida reciprocidade. Jamais se aprendeu a ser caridoso, muito menos amar ao próximo. A fé passou a ser um tudo de oxigênio, uma maneira artificial para um belo dia, futuro, tudo estar estabilizado e feliz. Um passe de mágicas ilusório.

 

Jean-Paul Sartre, in ‘O Ser e o Nada’  –  http://www.citador.pt/textos/a-temporalidade-jeanpaul-sartre

O momento é do resgate. A reintegralização do saber e o resgate do eu, a valorização da criatura que também cria,que produz e deve ser implicado sobre o universo que projeta e, também, ao que pertence. Imagem

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