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A palavra juízo substantiva o predicado. A declaração que se faz a um sujeito, denominando-o. Entretanto, há, igualmente, a ação a definir. O juízo é uma produção naturalmente humana, pertencente ao funcionamento mental, derivada da produção de juízos em relação a algo ou a alguém, enfim, o ato de ajuizar o fenômeno. É por esse princípio que efetivamos nossa conexão com o mundo, o externos, ligado as interações e, o interno, com as manifestações pessoais. As alterações do juízo, desmembram-se em duas qualidades funcionais para o pensamento. O erro, originado do ignorar e o delírio, provocado pelas alterações marcantes daquilo que se passa pela realidade. Somos cercados por grupos distintos de juízos formalizados na sociedade que nos forma e isso nos conduz a estabelecermos crenças, ou o conteúdo que adotamos como fielmente verídicos, as superstições, ou aquilo que nos faz manter sobre e assim reger a vida, ou sobreviver. A evolução agregou as ideias prevalentes, também definida por Nobre de Melo (1979) apud DALGALARRONDO, 2000, de “ideias errôneas por superestimação afetiva.”

Na visão semiológica, dentro da psicopatologia, o juízo é construído pela associação de vários fatores,desde os neurofisiológicos, emocionas e socioculturais. Já caráter delirante, vem de uma busca de adaptação para o funcionamento adequado da mente. É o juízo que qualifica a interação com o meio social, ajustando, criticando ou opondo, conforme definem os traços da síndrome sociopática. É pensamento que compõe seus conteúdos, associando-os por identificação, estabelecendo os traços que esboçam as formas e a velocidade de sua manifestação. Essa formulação se faz na via coletiva, repassada às partes que compõem a massa e, parte, igualmente, do privado, ou pessoal, e dissemina-se para alguns componentes que cercam. O indivíduo é consequência de sua sociedade, desde a preexistente até a atual, onde se insere. Isso não é fruto do acaso, há um desenvolvimento, prático e teórico, embasando. A Patrística, principalmente nos momentos que antecederam a fulminante entrada da Escolástica, fundamentaram as estruturas para o pensamento moderno e, acima disso, para o juízo acrítico da contextualização vivida.

O Neoplatonismo disserta sobre o conhecimento sobre si mesmo e a condução para uma elevação da alma, aproximando-se de uma beatitude negligenciada lá na era do pecado original. O veículo seria a fé, onde a crença leva a entender e a compreensão potencializa a fé. Instaura-se, assim, um nova ordem para o mundo, dentro de um modelo dogmatizado e ritualizado, dentro da associação com os componentes do Helenismo e do Gnosticismo. Porém, essa versão poética da cognição, refletida ao comportamento, resultou em uma ambivalente dicotomia, desestabilizante para a humanidade, assim como para os pressupostos que verificavam essa corrente filosófica: o bem e o mal, opositores extremos pertencentes a um mesmo espaço ocupado pelo sujeito. Santo Agostinho, renomada autoridade nos círculos católicos e nas esferas filosóficas, repete, insistentemente, a criação benévola de Deus, atribuindo, apenas ao homem, o mal. Ou seja, envolver-se com esse adjetivo, é uma escolha da criatura e nada relacionado ao Criador. Então, para se estar próximo da divindade e da redenção, o burilamento das inclinações negativas e profanas, precisam ser contínuas, permanentes e disciplinadas. Ora, se foi Deus o criador, a inclinação vem da gênese e com certeza com uma finalidade vital. Àqueles que não trilham esse caminho, são levados a se corromperem, abrindo as portas para o erro e, consequentemente, o mal

Ensinou-se ao homem que perdura em si uma luta descomunal em seu interior, ou na sua alma. Isso, nada menos, reflete, a instabilidade nada natural, mas, comum, que afeta essa raça pensante, desdobrada em episódios repetidos de ansiedade, de culpa, punições e reparos. Signos visíveis e destacados dentro da sociedade moderna. Em síntese, fomos formados para crermos ser a nossa própria dificuldade, nosso mistério e a problemática que vagamos, a esmo, buscar elucidar. Além disso, fomos fomentados em descrer na verdade, já que tudo aquilo que se torna instável, faz-se móvel, oscilante, enfim, possível para outra maneira. De fato, o homem é possuidor do paradoxo que o faz experimentar o antagonismo. Isso o faz flutuar entre aquilo que é saudável e o que não o é, ou por ignorar, conscientemente a essência, ou, por apropriar-se, identificando-se, daquilo que reconheceu como sendo de seu pertence evolutivo. Deus, por sua vez, não pode ser um ser interesseiro, frente a sua magnitude idealizada. O saber o alocou à égide do julgo. Um juiz implacável onde aqueles que fogem às suas prerrogativas, acabam condenados ao exílio e à marginalização. No mínimo incoerente. Um verdadeira blasfêmia.

Epicteto, in ‘Manual’  –  http://www.citador.pt/textos/saber-avaliar-as-situacoes-epicteto

A presença de Jesus nos ciclos terrenos teria apenas a finalidade de gritar aos surdos o a de vir? Sendo donatários do mal, como se fazer ouvir? Essa hipótese maniqueísta, muito mais do que ser um contrassenso aos ensinamentos práticos do Nazareno, sucumbe, fielmente, à armadilha da punição perpétua para a raça humana, visto que fazer vem do conhecer, internalizar e passar a respeitar e, isso, dentro de uma sociedade que caminha em direção oposta, é quase impossível. Isso é verificado pela realidade atual, quando ainda pouquíssimas pessoas conseguem pactuar com a filosofia cristã original. Continuamos muito mais tendentes para Pilatos do que para Jesus.

Nesse instante da evolução terrena, cultuamos ao outro. O externo é quem nos referencia e faz guiar. Internalizar a identidade dos que nos são, ou, das figuras de autoridade que se destacam no meio social, é como o culto do endeusamento, onde sempre alguém é mais ou melhor do que nós mesmos. A renúncia a si é o ritual condicionante que nos leva aos atos e à fragmentação da própria personalidade e da desorganização do afeto. Passamos a invejar porque percebemos, ilusoriamente, que não possuímos o que cremos que há em alguém. Tomados de ciúmes, postulamos a troca continua em nossas vidas, já que tudo é melhor e mais saudável. Inevitavelmente, o julgamento acoplou-se ao nosso juízo, afinal, o próprio Pai a nós foi ensinado sua habilidade e capacidade para o julgo. Pré-concebemos pois o legado de verdades consumadas é repassado, de geração em geração e o que busca a luz fora da caverna passa a ser tachado de louco.

A reatividade social, observada pelas guerras, assassinatos, maus tratos, violações, as agressividades veladas, tão comuns,  e até mesmo nas aberrações, poderia ser interpretada pela incapacidade do ser de suportar o que senti e percebe no outro, ou como sendo o mal, ameaçador ao seu próprio ruim,  ou, por deter um bem , além do bem. Nosso juízo é impregnado pela culpabilidade e pela competição, afinal, na disputa entre o bem e o mal, deve ter um vencedor e esse é o sujeito não somente sua ação. Isso conduz a uma disputa, desleal, já que somos diferentes, com mecanismos diferentes daqueles aplicados nas arenas do Coliseu.  Própria religiosidade vivenciada, foge dos princípio vitais, e os fieis. A ânsia pela transpessoalidade, tornou-nos delirantes à origem do mal, motivados, justamente, pela acrítica do que o homem propôs ao próprio homem. A isso, há uma sequela que nos transtorna e dá a nossa natureza saudável, nem boa e nem má, mas, apenas saudável, de acordo com nossa capacidade operante, desviando-nos de nossa própria gênese. A história fez-se, simbolicamente, a cirurgiã plástica de figura de Deus, transfigurando-o àquilo que era interessante à humanidade e compatível com a incompetência para bem viver que nos confere.

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