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A afetividade, dentro da semiologia da Psicopatologia, é definida como uma das funções mentais do ser humano. A terminológica é ampla, englobando uma multiplicidade de formas de expressão das vivências afetivas, “como o humor, as emoções e os sentimentos” (DALGALARRONDO, 2000). Abordar o tema da afetividade é traduzir as nossas reações, os estados e o tônus afetivo, oscilantes em intensidades diferenciadas e produzidas por razões diversas. Essa marca funcional, universal à constituição das pessoas, acompanha a antropologia desde os primórdios, já que possuímos elementos inatos, primitivos, assim como os elaborados e desenvolvidos dentro do processo evolutivo. Não há instrumento que meça, quantitativamente, o volume das manifestações afetivas, nem individualmente, tão menos, coletivamente. É um fenômeno intrínseco na natureza das pessoas e debatido, qualitativamente, dentro da área das ciências humanas.

O que se constata, é uma linha de convicção, onde a maioria das pessoas, em média, trafega em termos de exposição do afeto. Existe um padrão que se perpetua através das gerações, com manifestações, em forma de exceção, que passam a ser classificadas, observado na análise dos critérios diagnósticos dos transtornos mentais. Contudo, há uma origem e um desenvolvimento. Lavoisier (1743), além de ter afirmado, comprovou, que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Essa Lei também se aplica às demonstrações externadas para as emoções. Primitivamente, o elo ao desconhecido, provocou uma reatividade passional, intempestiva, onde o temperamento, fator de cunho constitucionalmente genético, era utilizado como um veículo para a relação com os estímulos ameaçadores. O não saber, então, passou a ser combatido com outro, provocado pela mente do homem. O que era obscuro necessitava de luz para que assim ocorresse a aproximação. Nada mais útil do que a produção do misticismo para essa batalha. Comportamentos foram produzidos, posteriormente, ritualizados e carregados de propriedades mitológicas e assim, racionalmente definidos. A desorganização social perdurou por séculos e por isso vamos nos deslocar no tempo e parar do período após o surgimento da figura de Jesus.

O modelo experimental, executado pelo homem de Nazaré, concretiza a relação do homem matéria com o homem espírito e o resgate da magia se estabelece, definitivamente. “Ora, foi nesse meio impregnado de conhecimentos, mitos e ritos gnósticos que a mensagem do cristianismo foi transmitida para o mundo ocidental. Segundo o teólogo Rudolf Bultmann, foi no helenismo sob o viés do gnosticismo que se deu a transformação de Jesus de Nazaré em Jesus Cristo…” (DUTRA & HEBECHE. História da Filosofia II, 2013, UFSC). Uma composição, preexistente, onde o domínio e a invasão de limites, tanto espaciais como humanas, com a nova maneira de sentir, além de pensar, as relações individuais e sociais, através da racionalização do místico, organizado, cognitivamente, pelo contexto espiritual, acompanhados, ai sim, de uma repercepção relacionada à promoção da inteligência para o meio inserido. É nesse momento que se deriva o ramo para as expressões sentimentais para todo o tempo posterior a nossa evolução, ou seja, fazendo-se contemporânea para a travessia do terceiro milênio.

Esse movimento espiritual, acionado por Cristo, conduzido por Paulo de Tarso de demais pensadores, consolidando a idade média, era de introspecção e ensimesmamento, simbolicamente, um ato gestacional para a maturação da ideologia religiosa, moldaram e adestraram os seres para uma nova visão acerca do mundo e, inevitavelmente, a manifestação do afeto consolidado. Destaca-se aqui que, o sentimento de um único homem fora tomado como propriedade, através da política pública, transfigurado e divulgado como não apenas a nova verdade, mas, sim, como o caminho único para a libertação de algo que nem consciência plena se tinha a respeito do cativeiro. Não resta dúvida de que a espiritualização do homem era, e é imprescindível, porém, essa fora e é conduzida por uma alma material e não pela aproximação com o espírito, propriamente dito. A Gnose significa conhecimento sobre o caminho de salvação do ser, aproximando-o do Deus, do divino. Duas intenções perseguidas pela humanidade desde os primórdios. Faz-se necessário uma análise para a consciência dessa razão e desse afeto.

Historicamente, refiro-me a um contexto social relativamente desnorteado, partindo do princípio da austeridade, do autoritarismo e da violação comum e explícita dos direitos das pessoas. Havia um não senso para os direitos humanos, as potencialidades pessoais e, principalmente, pelo respeito ao limite de cada um. Absorver uma postura paradoxal seria algo da ordem do impossível. Por esse cenário, justifica-se a diversidade de interpretações, assim como a ânsia para um novo estado de convivência. As prerrogativas para uma identificação divina era incabível, pois sem se saber, não se atinge o intento de conhecer ao outro, ainda mais esse sendo, assim, tão transcendente. Para essa conquista também era preciso reconhecer o caminho, a forma. O que se encontrava eram comunidades temerosas, até mesmo um tanto quanto persecutórias, vigilantes e com um leque de possibilidades reduzidíssimo. Uma descrença no outro e, consequentemente, em cada um da maioria que era parte integrante dos vulgos.

A Igreja, que o que tem em comum ao cristianismo, é o mero uso da falácia de autoridade chamada Jesus, diferencia-se numa quase totalidade das prerrogativas do sujeito de sua obra. Adotado do conhecimento vigente da época, ultrapassou as barreiras da ameaça anarquista do homem e de seus apóstolos, levando à coisa a condição de oportunidade para a fixação da estabilidade diante do caos vivenciado e potencializado pelo nazareno. Essa institucionalização produziu alguns efeitos para à dinâmica da vida. Primeiramente, consolidou-se uma realidade paralela àquela vivida diariamente. Por sinal, outra realidade melhor e repleta de expectativas e de esperanças para os rotos, marginalizados, pecadores e desviantes do comportamento saudável.

A situação chegou a um ponto que isso era conquistado pela troca de bens materiais por um lugar ao céu. A responsabilidade foi terceirizada, ou seja, Deus assumiu os resultados dos processos cabíveis àqueles que os executavam. Por barganha, a humanidade foi ensinada que a reparação por seus erros e inconsequências era obtida a baixo custo. A própria funcionalidade social refletia esse princípio. A educação era ofertada aos nobres e ao clero e todos os demais permaneciam a serviço do pensamento religioso e a lei de ação e reação era similar à difundida pelo método de Deus: recompensas e punições. Tudo muito simples e de grande estimulação à acomodação. O não senso chegou a patamares tão elevados que, com tudo isso, nem os cultos religiosos eram presenciados pelos vulgares, ou, discursados em latim não dando condições para o entendimento de muitos. Mesmo assim, à ordem aplicada havia uma obediência incondicional.

Afetivamente, os povos foram marcados por um traço relevante de obediência, serventia e acato a lei moral. A convivência atual marca traços nítidos de todos esses mecanismos usinados nesse intervalo de tempo. A projeção feita para um ente externo, mesmo para os descrentes em Deus, é notável. A delegação das responsabilidades ao divino ou aos outros é uma retórica comum nas relações entre as pessoas. Há uma grande motivação para a conquista através de meios fáceis, preferencialmente recebidos, graciosamente por alguém e até mesmo por Deus que tudo pode. O sistema familiar é patriarcal, ou matriarcal, tendo um líder que conduz e coloca as regras e leis para o convívio. Existe uma dificuldade em se assumir a própria identidade e de se seguir aquilo que é percebido como ideal ou relacionado ao desejo pessoal. A tendência em se inclinar para aquilo que passa pela aprovação do outro e, com isso, alcançar a aceitação dos que conosco estão, é predominante. O senso comum se sobrepõe à individualidade, fragmentando o potencial e a capacidade de execução de cada uma das partes pertencentes ao mundo. A descrença sobre si

“Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avaliação e uma classificação hierárquica dos instintos e dos actos humanos. Essas classificações e essas avaliações são sempre a expressão das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: é aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe é útil em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro -, que serve também de medida suprema do valor de qualquer indivíduo. A moral ensina a este a ser função do rebanho, a só atribuir valor em função deste rebanho. Variando muito as condições de conservação de uma comunidade para outra, daí resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. A moralidade é o instinto gregário no indivíduo.” 

Friedrich Nietzsche, in ‘A Gaia Ciência’  –  http://www.citador.pt/textos/instinto-de-rebanho-friedrich-wilhelm-nietzsche

                Dentro de uma cultura, na maioria, dita democrática, a liberdade entra como um fator antagônico à proposta. O aprendizado sobre o medo e a relação de serventia, faz-nos escravos em sistemas variados. Inicia-se pela clausura à veemência familiar, onde o princípio do clã precisa ser seguido independentemente da vontade. Projeta-se para a vida escolar, pois é o método e a filosofia de ensino que precisam ser aceitas e não a identidade do educando como veículo para a condução do processo. Isso não difere nas relações de trabalho e em alguns grupos em que nos inserimos a fim de participar da realidade comunitária da vida. Francis Bacon (1561), afirma m seu “Ensaio  –  Das Altas Funções”, que o aprisionamento vem a acontecer nas esferas do estado, da reputação e dos negócios. Refletindo, atribuo o cárcere privado do ser, a simples repetição do ponderar a estimar as considerações do outro, e do divino, sobre si mesmo e assim calcar, seguidamente, a aceitação e a inclusão a um sistema que, na totalidade, não pertence ao eu. Para isso, atuamos de maneira calculada, com ou sem exatidão.

Considerando que todas essas ações foram conduzidas pelos homens, é indigno reputar a Deus sobre a responsabilidade desses efeitos. Penso, que muito menos Jesus, pois acabou sendo, meramente usado para que a humanidade ajustasse o desequilíbrio e a desarmonia pro que passava. Isso não significa que ambos não sejam reais nas esferas transcendentes, apenas mal interpretados e negados frente à capacidade evolutiva dos homens. Fé e a espiritualidade formam questões que precisam passar, primeiro, pela capacidade de elaboração da realidade material.

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