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Abordar o tema do comportamento humano, assim como a manifestação das suas emoções, relaciona-se, estreitamente, a formação do conhecimento humano e, logo, a um dos pilares de maior sustentação para o seu desenvolvimento: a institucionalização do cristianismo através da expansão da igreja católica. O ser, ou o ente, é aquele que atua, como resultante do que pensa. Nenhum pensamento é ausente de sentimento, pois, até mesmo a indiferença, qualifica os conteúdos processados mentalmente. O Lobo Frontal, situado no Sistema Nervoso Central, associado à massa cinzenta no córtex, produz as conexões especializadas para que a inteligência seja acionada. A região do Giro do Cíngulo e do Hipotálamo acionam as reações afetivas. A relação entre o pensamento e a inteligência é temporal, pela conotação consciente e, atemporal, pelo produto armazenado na inconsciência, onde os dados de memória oscilam entre os dois sistemas. O sujeito é manipulado pelos estímulos dos meios, onde se concretizam os símbolos e paradigmas da cultura, assim como os próprios componentes do inconsciente coletivo descrito por Jung. Não somos o que representamos, muito menos agimos tal qual, ao acaso. E isso não se reflete apenas aos princípios do senso comum, regentes da coletividade, mas, igualmente, ao bom senso aplicado pela individualidade que dá o tom subjetivo de cada uma das partes que constituem a sociedade.

Historicamente, encontramos da figura de Paulo de Tarso, um marco da edificação desse princípio dogmático para a cultura ocidental. Nascido na Turquia foi para Jerusalém, onde participou do apedrejamento de Estevão, seguidor de Jesus de Nazaré. Justificou-se essa sua atitude pelo fato de ser judeu fervoroso e adepto dos preceitos da religião oficializada pelo Império Romano. Esse recorte, pertencente aos fatos ocorridos em sua vida, traduzem a relação consciente de Paulo com os valores presentes à realidade em que se inseria. Filho de pai pagão e de mãe cristã, atuante dentro dos pressupostos, Paulo de Tarso foi um homem que não renunciou ao senso comum ditado para o período. Estudou e viveu todas as paixões características de um jovem erudito  e diferenciado na hierarquia comunitária. O homem, então, esteve assim, como é provável ter estado de outras formas ao longo da própria vida. Como outro ser qualquer, universalmente, Paulo de Tarso passou pela experiência consciente de experimentar tudo o que era oferecido por sua educação, seus traços étnicos e a cultura que pertencia. Socraticamente falando, não esteve nem bem e nem mal, nem mesmo foi correto ou errado ou aplicou-se a alguma verdade concreta. Simplesmente usou o que fora oferecido, passando pelo exercício comportamental de reconhecer. Essa dinâmica é exatamente a mesma usada até os dias de hoje, nas relações entre pais e filhos, indivíduos que apreendem e reproduzem pela repetição, sem o devido preparo para pensarem a respeito de suas escolhas.

Em uma fase de sua vida, Paulo é tocado, um provável “insight”, pela associação que teve ao cruzar um espaço em Damasco e obervar uma luz originada do céu, fazendo-o refletir sobre sua atitude persecutória sobre os cristãos. Dentro da ótica teológica, Tarso recebe um sinal de Deus para modificar a sua atitude e iniciar um trabalho missionário de evangelização. Psicanaliticamente falando, trás o céu para perto de sua realidade interna e associa o fenômeno com a ligação estabelecida com a mãe, figura forte e determinante em sua formação, optando sem seguir o modelo da matriz maternal, de forte influência em sua vida. Em termos comportamentais, pode ter percebido que a sua ação não era compatível com os demais membros do grupo pertencente. Social e politicamente falando, talvez tenha se percebido à margem  e com necessidade de inclusão, de ser aceito e de participar do novo que tomava conta do meio. Enfim, várias poderiam ser as explicações e justificativas, mas, o relevante, foi à escolha do homem, seguindo seus valores, suas crenças e conflitos. Aqui, igualmente, não passou a ser, dando continuidade a uma repetição de estados, renovados. A partir desse instante, pregou e assumiu o posto de o maior divulgador do cristianismo no Médio Oriente e na Europa. Afirmar se foi por fé, princípio ou conveniência a opção feita, é mera questão de sorte. Apenas Paulo de Tarso poderia ajuizar, mas que aconteceu isso foi. Mais uma vez aproximamo-nos das escolhas realizadas na atualidade, quando sujeitos optam, sem que os que a sua volta conheçam de fato as razões e, muitas vezes, o próprio indivíduo não as sabem, e todos acabam defendendo seus pontos de vista dentro da guerra intelectual.

De oratória inigualável foi junto aos gentios que Paulo de Tarso provocou a maior disseminação do cristianismo. Os gentios compunham uma nação, ou povo, distinto, do povo israelita, em que, gradualmente, se converteram a nova religião. Além de seu novo estado incorporado, Tarso dispôs-se a fazer da sua verdade, a realidade de todos com quem podia compartilhar. Um desejo, estimulado pela intenção, de modificar o estado do outro a partir da codificação de uma permanência de seu ser, assim como cristão. Especificamente, nesse caso, o êxito foi tão grande, que a suposta verdade de Paulo foi propagada por séculos e atravessou centenas de fronteiras. A suposição colocada é porque já havia uma mescla entre o cristianismo, o catolicismo e a herança helênica, já presente nessa nova relação de saber da humanidade. Repete-se, aqui, mais um movimento similar  ao da atualidade quando do repasse pela educação e cultura. Aqui, relembro de uma frase de Dostoievski, pontual, afirmando que “Existe no homem um vazio do tamanho de Deus.”

 

                Paradoxalmente, nem o profano e nem o divino preenchem o atual estágio evolutivo do ser humano. É a insatisfação que prevalece. Talvez parecida com a que Paulo de Tarso viveu ainda jovem, depois enquanto judeu até ser condenado à morte pela guilhotina por Nero. A mesma, tão rotineira, perfazendo o dia a dia da maioria absoluta das pessoas. O vazio é um conjunto quase que infinito onde o elemento pertencente, exclusivo, é o homem. Hoje, isso é real. O impacto de  Paulo de Tarso é  visível a esse contexto, absolutamente perceptível, pela seguinte lógica: Jesus, o objeto de sua ação, foi transfigurado. Agregou-se à sua prática, nada menos que sofística, os fundamentos do judaísmo e da política, impregnada no cerne da sociedade. Pior, sem mesmo se ter uma definição clara de quem fora aquele homem, meio anarquista e meio santificado, agregou-se a ele a filiação a Deus e até Maria, já dava indícios de uma martirização errônea e equivocada. Cristo, pressupõe-se, deixou de ser o ser que foi e, no mesmo sentido, Paulo também deixou de ser o que realmente era. Falou-se do homem, sem sabê-lo de fato. Foi muito mais dogmatizado do que compreendido, mais imposto do que sentido. Fora intitulado como mártir, sem, quem sabe, o próprio Nazareno se sentir assim, afinal, tinha consciência de sua tarefa.

Não o introjetaram pelo respeito do que realmente o marcara, mas, sim, pelo medo das ameaças dos outros que o interpretaram. Num estalar de dedos, o catolicismo se estabelecia e vingava feito praga pelos solos do velho mundo e alguns espaços do Oriente. O cristianismo foi hierarquizado, ritualizado. Mitos foram brotando, como o aplicado ao próprio Paulo, e, simultaneamente, isolou-se dos fiéis, como fóbicos sociais o fazem da vida em grupo, isolando o que era do povo, para os protegidos. A doutrina eclesiástica assumiu o papel de maior terrorismo da humanidade, combatendo seus contrários, difamando seus opositores e cerceando toda e qualquer forma de saber para a égide do transcendente, dentro de uma relação de causa e efeito apavorante, delirante e alucinatória, racionalizada pelo bem de todos, dentro das minorias, e a felicidade geral das nações, seu governantes e detentores de poder.

“Atrevo-me a afirmar que Moisés tenha sido o primeiro grande jurista da história e, além de falar em nome do Pai, também se direcionou ao litígio do contexto que se colocava em oposição a valores. O período cristão, propagando-se os fundamentos do amor, tentou um resgate da imagem feminina, porém, apenas em 334 d.c, no Concílio de Constantinopla, o Papa Constantino, pela primeira vez, agrega à Igreja esse sexo abandonado. Isso não foi um reconhecimento, mas, sim, uma conveniência, pois política e economicamente, a mulher santificada simbolizava o núcleo familiar e isso para o progresso social seria de extrema valia. Depois de toda uma jornada, então, a fêmea sai de uma posição absolutamente subalterna e passa a ter o controle acionário e mandatário sobre a comunidade.

 

                Essa promoção provocou a pior de todas as consequências para a expressão e a liberdade sexual da mulher. Santificada e estigmatizada, doutrinariamente foi conduzida a uma vida de pudores e cerceada de possibilidades para a expressão de seus desejos e da busca pela satisfação como indivíduo ativo nas relações afetivas. A mulher fatal foi assassinada e a dogmatizada se desenvolveu, mantendo-se firme e atuante, única e soberana até o final dos anos 70. Propagado e difundido pela cultura e a educação, a mulher foi adestrada a ser submissa, passiva e capaz de tudo, menos quando referidas às suas vontades”

(GOMES, Clécio Carlos. Educação Sexual Feminina, 2012)

                Esse fragmento ligado à sexualidade e à afetividade feminina, é um dos muitos pontos afetados pela concretização teológica da vida diária. Um exemplo real de tudo que fora analisado. Direcionando essas reflexões, a construção do pensamento ocidental desvinculou-se do ser que é para o ente o que deve ser, o reflexo do desejo do senso comum. A exposição dramática do ser que não atua, mas, sim, reproduz, mecanicamente, o sentido de algo que nem mesmo compreende ou consegue alcançar. A tradução comportamental das reflexões de Dostoievski. Nossa posição, individual e social, é a da alienação, uma fuga do que é na direção do que se almeja. Evoluímos em surtos, ora delirantes, outras, dentro de uma linha de convicção. O maior destaque, como resultante para esse processo, está na busca interminável que se faz para a delegação de responsabilidades aos seres que nos cercam, entre ele, Deus. Pais, mães, irmãos, amigos, governantes, todos são culpados por nossas mazelas e dificuldades e o Criador o salvador para todas as dores.

A transcendência acabou não ultrapassando as esferas da matéria, o eixo está centrado na mácula do mal viver e da não conformidade pelo inaceitável. A oração transformou-se em dissertações, uma obrigatoriedade que apela para angariar algo. Não há fé e nem crença, apenas uma esperança para algo melhor.  Fazer o bem declinou à esfera da miserabilidade, uma obrigação frente a ignóbil diferença provocada pelo povo dos filhos de Deus. Os templos, moradas do Pai, ambientes salutares para repouso e desfile de modas, ou, quando a situação é caótica, de súplicas para as ambições desejadas. E onde ficaria o amor pregado por Cristo?! Esse tal de vazio que nos persegue, fez-nos fragilizados e por isso descartamos aquilo que não nos convém. Amamos, sim, verdadeiramente, tudo o que nos interessa e serve, menos, espontaneamente, dentro de um segmento natural e dentro da prerrogativa cristã. E isso não é só da esfera divina, pertence também às ciências sociais, à filosofia, às ciências humanas e todas as demais áreas que lutam pelo segmento humano e o aprimoramento de sua qualidade de vida. Ou seja, todo um conjunto de ações do homem, incompatíveis com o celeiro nutritivo que perdurou século em sua própria história.

Paulo de Tarso, também conflitante, foi um mero instrumento, assim como qualquer outro poderia ter ocupado a função. Muitos de nós, assemelhamo-nos por esse conflito universal, oscilando entre o profano e o divino. Logo, algo de errado sucedeu-se dentro da usinagem de todo o mecanismo. É provável que se busque, como preenchimento, o ser que cada um de nós é, atuando por outra maneira.

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