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Acredito que as relações afetivas representem o principal tema retratado pelas manifestações criativas da humanidade ao longo dos últimos séculos. A literatura seja pela crônica ou romance, a poesia em seus versos, como as citações célebres de figuras públicas, enaltecem a aliança de um sentimento supremo. Filmes, novelas e reproduções de curta duração, apontam suas tramas, sempre, para o foco do amor. A música, da mesma maneira, entoa melodias e refrãos que traduzem a vida cotidiana dos apaixonados e enamorados. Daria para afirmar que as manifestações sentimentais estão presentes em quase todos os segmentos criativos, de elevação moral e espiritual que sustentam a sociedade moderna. Fala-se e se vive o amor romântico com uma intensidade indescritível, ao ponto de se definir o amor da alma gêmea, eterno e indestrutível pelo tempo, pela distância ou por maior que se apresente a complexidade ameaçadora para o sentimento e o envolvimento promovido. Indago-me, como autêntico representante do signo de peixes, com ascendente no mesmo,   –  vejam a prova e a expiação em que me encontro  –  a respeito dos mecanismos do amor e a efetiva transparência com que o afeto é manifesto pelas pessoas para as outras personalidades que complementam o mundo dos que amam.

                Solidão não existe na natureza, apenas surge por opção. Nunca somos sós e a convivência sempre está acompanhada de alguma forma de amor em intensidade e qualidade diferenciadas. O seio familiar é o grande laboratório experimental de homens e de mulheres dentro do complexo mecanismo de aprendizagem sobre o amor. Meninos identificam-se com a função e o papel masculino de seus pais, ou de qualquer outra figura masculina, e as meninas com a mãe ou a mulher que assume esse papel. É o que Freud (1900) em seus estudos descreveu como sendo o complexo de Édipo, ou o estabelecimento de gênero para percorrê-lo na vida adulta. Outro aprendizado relevante é já é sobre a vida amorosa e sexual desses representantes. Os pais, consolidam um exemplo para os filhos em sua maneira de demonstrarem a maneira como vivem conjugalmente e o valor que atribuem a sim e a parceria estabelecida para essa origem familiar. Skinner (1904) mostrou que a internalização de um conhecimento acontece pela convivência junto ao estímulo, muito bem provocado pela repetição contínua e estável nas educações parentais. Agrega-se as duas estruturas, o saber e a verdade cultural elaborada pela coletividade e simbolizada por paradigmas e mitos que acabam regendo o senso comum e a maioria absoluta das pessoas guiadas por esses princípios (Jung, 1875).

                Adultos, então, partimos para o empreendimento universal da vida amorosa. A intenção inicial desdobra-se em duas vertentes. Perpetuar o modelo original visto e repassado pelo aprendizado ao longo do desenvolvimento, ou, abortá-lo e procurar um tipo diferente de amor a ser vivido. Em ambas há a necessidade, a carência a ser preenchida pelo desejo que se instala para a construção dessa identidade de responsabilidade e representação comunitária. Para a largada, o eu posiciona-se para estar. Estar à disposição do novo e de sua exploração, visando familiarizar-se com a posição a ser ocupada. O ego, identidade do eu, está querendo, almejando, desejando e ambicionando comprovar suas precisões e efetivas escolhas diante daquilo que é inevitável ao desenrolar dos princípios da vida. O eu está aberto para o mundo externo e rasga-se internamente à conjunção das realidades. Essa transitoriedade verbal é manifesta sem prazo de validade. Acontece até a consciência, de mãos dadas com o inconsciente, decidem fazer uma escolha.

                O processo eletivo leva a uma suposta estabilidade emocional e a precisão de uma apropriação sobre a figura do parceiro ou parceira. O transicional passa a uma forma de fixação. O eu deixa de estar para ser, a função e o papel exercido sobre a pessoa que passa a estar ao lado. Definem-se denominações, títulos, um conjunto de regras e de leis, ditando-se o ritmo relacional ocorrido pelo encontro de indivíduos. Sou namorado, noiva e depois esposa. Sou seu e você é minha. Percebe-se, com constância, o afastamento da principal e maior forma de amar, que é o amor próprio e a preservação da individualidade por submissão e passividade a alguém a quem se transfere a responsabilidade pelo bem estar, a sobrevivência e a própria vida entregue não apenas a quem se ama julgar, mas, a uma pessoa em que se acredita, piamente, ter reciprocidade nesse sentimento, consequentemente, assumindo o repasse pessoal das carências projetadas. As fases de estar e ser para alguém, são universais e pertinentes a qualquer pessoa. Sentir é uma coisa um pouco mais complicada.

                Verbalizar e manifestar sobre o amor é diferente de sentir que ama e é amado. É preciso estar motivado e com amplo interesse para saboreá-lo. É a chave que abre a alma pessoal para colher tudo o que o outro tem a repassar. Não depende de característica, qualidade e nem de comparações. É um reflexo incondicional, desencadeado pelo simples fato de amar. A eclosão dos órgãos dos sentidos, apura a aproximação. Fazer do cheiro do outro, a essência do ar que se respira. O gosto, o prenúncio alegre para degustar e saborear. Palavras formando um conjunto rico de insumos a serem seguidos e orientados cada vez que forem importantes para a evolução de quem se ama e da relação em si. Um olhar expressivo e cobiçado, intencionando adentrar ao mundo do outro e também convidá-lo a participar do seu. É admirar, descobrindo em cada piscar, uma nova forma, um novo desenho, potencializando na mente, no corpo e na alma aquela fome gulosa de sempre estarem juntos e sentirem-se em meio ao lazer gostoso de pertencerem. É fazer das sensações do corpo, aproximações com íntimas com a própria descoberta e a oferta do que se tem de melhor ao que tanto se senti.

                Sentir o amor é transpor toda e qualquer forma de barreira ou de dificuldade. É alimentar-se da certeza da união, da aliança que junta e não se corrompe. É ascender sem notar, matando a ansiedade ou a tristeza pela convicção da importante integração do erro e do aprendizado. É não julgar e nem viver de pré-concepções. É não definir, eliminado o ponto final e as conclusões evasivas e que não direcionam feito vetor de energia. Para sentir é preciso afastar-se de si e ao mesmo tempo, mergulhar no que existe de mais fundo na própria alma, acolhendo a cara metade e fortalecendo a identidade que dá sustentação para o viver a dois. É saber sem ter que simbolizar nem constatar, somente ser tomado pela vibração compatível de dois desejos que clamam, formando uma frequência única, ímpar, exclusiva a tudo aquilo que pode ser construído no tempo e no espaço. A morada de almas comuns.

                Sentir é ser transparente consigo, honesto com quem se compartilha, não por obrigação, simplesmente por não caber outra forma de amar nesse tipo de relação. É jamais mentir, sem precisar omitir e nem às vezes camuflar nada, por razão alguma. È poder, em dados momentos, alcançar a plenitude, mesmo que não seja permanente. É não trocar, substituir ou compensar a pessoa por outra, pois mais ninguém se encaixa tão perfeitamente na combinação calculada pelo amor. É não machucar, ferir, fazer doer ou provocar um assassinato da alma. É não desqualificar ou desencorajar, apenas ser firme e determinado ajudando a corrigir e a ser melhor. É ser simples, fácil e mesmo tomado por isso, querer sempre mais.

                As confabulações da vida afetiva nunca falaram em  facilidade.Ser tudo isso é luta, batalha, empenho e certeza. Dá trabalho, ao mesmo tempo, nada mais sublime e divino do que a imagem dessa construção. Não tem mágica e nem milagre. Apenas desejo, paixão e amor. Até mesmo para os casos tão ambicionados de almas gêmeas, tudo isso é necessário. É muito pouco a benevolência dos anjos e de Deus para o reencontro. É preciso fazer-se merecedor e dar valor a esse presente valioso que tanto acalenta provas, expiações e agruras da vida cotidiana. Não sentir isso, é não ter encontrado o amor verdadeiro, dando passos persistentes, a esmo, mesmo acompanhadas, em busca da cara metade platônicas. Já, sentir e não viver, ou viver e negligenciar, declinando o valor do sentimento ou sendo tão detentor da certeza que sempre será o tempo que os acompanharão, é encontrar-se perdido na imensidão do deserto da própria alma, afastando-se de si e de sua realidade, de suas possibilidades e conquistas. No primeiro caso, normalmente observam-se dois seres a vagarem a procura do desconhecido almejado, enganando-se mutuamente, ou por toda a vida, ou até o desenlace que ocorre para nova tentativa. O segundo, um pouco diferente, predomina o afastamento de uma parte, cara, caríssima, para quem fica.

                Independentemente, verifica-se que nada mais triste do que a inexistência do sentir o amor. A solidão acompanhada é deprimente e não corresponder a si, muito menos ao outro, frustrante. Não ter esse amor acoplado e retroalimentado, deixa perdido, no ar, todos os desdobramentos que ramificam para enraizar a vida. A menos valia, a insegurança e até mesmo a falta de sentido para as coisas, tomam conta da alma como uma avalanche. Pior, sem dúvida, para quem teve e perdeu, como na segunda opção. Provável que as reações sejam piores, mais intensas e desagregadoras.Um vácuo, ausência … uma amputação emocional que falta e não repara, não cicatriza nunca. Não sei definir, mas algo que é estabelecido entre um suicídio e um homicídio filosófico, dependendo de como seja o ponto de vista de quem vive. Uma reencarnação emergente dentro da própria encarnação.

                É preciso amar a si mesmo com intensidade, respeitando-se e valorizando-se, até a hora de ser presenteado com o bálsamo do amor. Ainda, tão importante quanto, é manter a consciência de que se precisa, acima de tudo, da integridade dessa alma, aconteça o que acontecer. Somos errantes, sem evolução e passíveis, a qualquer momento, de cometermos erros. Isso pode ameaçar, destruir, aniquilar … mas que seja por instantes, pois  a bela vida continua e nos espera. O desejo de todos é ser especial para alguém, único, a metade de um coração, de um cérebro, o outro pulmão, tendo a certeza de que o amor jamais conseguiria sobreviver, estando afastado. Entretanto, por incrível que pareça, no amor não cabe fantasias e ilusões porque mataríamos a sua veracidade e realidade.

                Um brinde ao amor e que todos possam conquistá-lo, porém, acima de tudo, lutarem para mantê-lo e dar-lhe vida, fazendo-o pulsar. Que assim seja. Imagem

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2 Comments

  1. Perfeito


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