Skip navigation

Biologicamente falando, o homem, animal em sua essência constitucional, é dotado de instintos rudimentares. Manifestados, sua ação busca a saciação do desconforto e mal estar, como da autodefesa frente às situações supostamente ameaçadoras. Essa característica é pertencente a toda a fauna e flora que preenchem o material vivo sobre o planeta. Mesmo diante do aperfeiçoamento da cognição, responsável pelo desenvolvimento de sistemas elaborados para a sobrevivência, a modernidade não anula esse princípio vital. Torna-o, sem dúvida, mais refinado e elaborado, porém, sem conseguir levar à exaustão seus impulsos rudimentares.

Numa conceituação bruta, a fome existe, o sono procura a cada um de nós, independentemente de seu tempo e hora. As necessidades fisiológicas emergem e o sexo não deixa de ser saciado quando irrompem os limites do tolerável. É claro que hoje, não mais agimos feito o predador em busca de uma presa indefesa, nem depositamos nossos corpos em um solo apropriado para o repouso. Com exceções, não fazemos nossas necessidades em público e no exato momento em que temos vontade. Sexualmente, não nos guiamos mais pelo cheiro do cio e cobrimos as fêmeas em seus momentos de fertilidade. Evoluímos, segundo a própria concepção filosófica da humanidade.

Hoje há um sacrifício em massa da vida que nos alimenta, depositadas em locais de alcance para a busca do que nos alimenta. A relva transformou-se em colchões ortopédicos, repleto de ornamentos que contribuem ao sono saudável e agradável. Fezes e urina são depositadas em louças de fino trato, delimitadas em espaços privados que possibilitam o isolamento desse ato marginalizado, porém, natural. E o sexo flutua agora pelo cheiro dos perfumes e os componentes comportamentais que identificam não apenas o cio, que expressa à vontade de se ter uma relação, mas, também, a exaltação das carências e o desconhecimento real daquilo que se busca.

Esse breve relato não serve para mostrar que tudo continua igual, apenas enriquecido. Muito menos um estímulo ao retrocesso, resgatando nossa origem animal. Ao elaborar o tema para esse artigo, veio-me à mente, apenas o conflito básico descrito por Freud no início do século XX e as explicações conflituosas vividas pelas pessoas. Não há nesse mundo, tão extenso e populoso, ser humano desprovido de algum tipo de prazer, de vontade. Esse é um elemento inato, herdado compulsoriamente por cada um de nossa espécie. A inteligência maturou nossa versão animal, não se poder ter dúvida sobre isso, entretanto, as relações sociais, sufocaram, em intensidade maior, os brotos de linda vida nas pessoas. Desde a organização social e sua respectiva estruturação funcional, todo o conteúdo elaborado através da análise, da dedução, da síntese e da antítese, nem sempre conseguiram obter um canal adequado para ser drenado.

Muitos manifestaram seu princípio de prazer através da paz, da divulgação do amor. Foram banidos, perseguidos e assassinados. Outros, fizeram uso das revelações, como Chico Xavier e Leon Denis e volta e meia eram testados e cobrados pela coerência do que vivam e repassavam às pessoas. O bloqueio social é o então denominado princípio da realidade. Uma realidade controladora que tem por função manter a ordem e o bem estar entre os que convivem. O que foge ao padrão é marginalizado e ainda nos tempos atuais, perseguido. Crescemos e nos desenvolvemos aprendendo, empiricamente, a bem relacionar esses dois vetores, sempre optando por um em detrimento do outro. Essa adequação formula a primeira grande guerra do indivíduo, estabelecida com ele mesmo, dentro de sua alma, fazendo-o por vezes sofrer, frustrar, sentir dor e construir vazios irreparáveis na sua luta pela caminhada. Eis a guerra primitiva ou também poderíamos denominá-la de a guerra original. Iniciada em si, propagada aos que cercam e disseminada nos grupos sociais em que se inseri.

Em nossa rede de interações, tomados de mecanismos de defesa com o intuito de não agredir, ferir, desconhecer ou tornar-se supostamente ridículo diante de si e dos que estão à volta, utilizamos a omissão como recurso básico para nossas deficiências emocionais. A capacidade de interpretação e de conhecimento sobre o mundo nos fez amplo, logo, com habilidade incalculável para agir, transformar e manipular as coisas e as pessoas. Mas nem sempre tais mecanismos são absolutamente eficazes. A mentira entra como um fator complementar para dar sustentação à manutenção de nossa permanência na malha viária principal de acesso ao senso comum.

Esse distanciamento do enfrentamento nos faz reclusos em nós, alimentando as frustrações e as insatisfações derivadas da falta de luta em prol do bom senso que o desejo pede. Gritamos por harmonia, equilíbrio e paz, como se alguém nos ouvisse e, pior, como se o outro fosse responsável por aquilo que semeamos e cativamos nessas relações. O divórcio com o bom senso, ou discernimento sobre o próprio eu, igualmente nos marginaliza e escraviza, assolando-nos aos porões escuros da ausência de consciência e conhecimento sobre si próprios. Entregamos de mão beijada nossas vontades e centramos nosso desejo na ação de oferenda desse mesmo querer aos receptores. Indubitavelmente frustrados, pois isso não ocorre, voltamo-nos alienadamente ao supremo dos seres externos, Deus, para atender as nossas necessidades mais elementares. Mais um equívoco, pois Deus não segue esse princípio.

Muitos personagens da história humana foram atrás de seus desejos. Mesmo perseguidos e banidos, conquistaram tesouros infindáveis para a cultura e o progresso, perpetuados ao longo de séculos e de gerações. Cada identidade marcada nas almas que peregrinam, são depositárias fiéis de vontades condizentes com sua escalada evolutiva. Dar vazão ao que senti é experimentar sua capacidade e drenar suas possibilidades ou incapacidades frente aquilo que tanto se quer. É transformar sonhos e ilusões em realidade ou consolidar bases sólidas em atitudes edificantes e de contribuição ao bem estar pessoal e coletivo. Não importa qual seja a missão ou a necessidade, viver é preciso.Imagem

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: