Skip navigation

São tantas as coisas que angariamos ao longo da nossa vida, tanto as desejadas como as desgostosas. Nosso processo de desenvolvimento consolida uma estrutura básica, primordial, onde que, no decorrer da vida, vamos ascendendo nossa construção em um número indefinido de pavimentos, compartimentos e áreas especializadas. Um elemento vital para a obra é a identificação, cuja função aproxima-nos do que simpatiza e nos distancia das coisas que necessariamente não nos agradam. Formamos ideias, agrupamos conceitos e organizamos pacotes de valores que passam a reger as nossas condutas. Essa identificação que menciono, evolui, naturalmente, par a internalização de comportamentos e de pensamentos, gerados em nós mesmos e nos outros, fomentando princípios de coerência e de uma retidão equilibrada sobre as posturas. Nisso,  incluí a consciente escolha feita sobre a pessoa que é eleita para conviver, compartilhar e adicionar no dia a dia.

Dessa maneira conseguimos obter segurança, protegendo a integridade do nosso ego e resguardando-nos de avaliações empíricas, pré-concebidas ou julgadas, a cerca de nossa sanidade mental. Tornamo-nos, por assim dizer, inteiros, compactados e demonstrando certa lógica, mesmo diante do perfil absolutamente subjetivo que carregamos. Colocamo-nos, então, sob a custódia da autoconsciência e do reconhecimento que o outro nos concede, no sentido de harmonização das interações, e não de uma paga ou cobrança medíocre em que o eu tem que satisfazer aos seus de qualquer maneira ou a qualquer preço. Isso, na verdade, é o que deveria acontecer, porém, não retrada uma regra contundente nas relações sociais.

A ação de trair é, muitas vezes adotada, como uma maneira genérica, adaptada e, principalmente, racionalizada, por parte de seu autor, como um instrumento que apenas vem a aferir medidas inexatas traçadas sobre concepções muito bem discursadas, mas não aplicadas efetivamente. Trai é algo mais complexo e amplo do que as pessoas imaginam, ou se permitem ponderar. Num primeiro momento, parte do contexto real que é absorvido e onde inseri-se o sujeito, passa por uma transformação individual. A sensação interna não consegue mais refletir o que se estabelece com os estímulos externos, coisas e pessoas. Um conflito é gerado e o instinto de prazer entra em guerra com o da lei estabelecida e configurada pela própria escolha da pessoa. Com o intuito de não assumir erros ou possíveis danos, culpas ou qualquer outro tipo de sentimento que venha a denegri a autoimagem, distorções da realidade são promovidas, substituindo fatos por ilusões.

A ilusão resulta em um engano, organizado e muito bem arquitetado. Nosso instinto de sobrevivência jamais permitiria algum tipo de lesão que marcasse o ego ou corrompesse o que sempre nos esforçamos para expor na vitrine das relações. Começa-se, assim, a troca de uma parte do enredo, elementos da história, cenários e personagens. È adotado o delatar, com a intenção de rebaixar o que se é real e assim realocar no novo eixo os novos conteúdos originados da fantasia desencadeada. A primeira traição passa a ser aplicada ao agente direto, e não à vítima, ao contrário do que muitos concebem. Ou seja, o eu não é fiel aos seus princípios, os valores tão enaltecidos despencam nas bolsas da índole e do caráter. O eu engana-se a si mesmo, projetando sobre o coletivo ou, simplesmente, a um único, a degradação que semeia dentro de si. Reduz o traído com a finalidade de enaltecer a si e ao próprio equívoco. Mesmo infiel a tudo que acreditou, o traidor consegue manter-se pautado numa falsa verdade. Passa a ser infiel ao que concebe, entretanto, cada vez mais arraigado e fiel à manutenção de vital conservação. Assume-se uma nova custódia, a da traição.

ImagemDaí, deriva-se, sem dúvida alguma, a todos os envolvidos, diretamente, com essa escolha em trair. O traído, inicialmente, choca-se. Fica surpreendido com o antagonismo de tudo aquilo que aprendeu ao longo da vivência, independentemente do tempo. Soa falso, até mesmo inacreditável, já que o que é sugerido embasa um contraponto tão distante do que era conhecido. A falta de lealdade percebida, é inconscientemente reportada à frágil ligação que o sujeito da traição mantinha com a verdade discursada. Somente num segundo instante é que se desloca a infidelidade para a pessoa, como se fossem sinônimos. Incorpora, a partir daí, a angustiante sensação de partilhar, tempo e espaço, com o infiel. Título delegado, exclusivamente, ao algoz.

Eleger culpados é infrutífero e ramifica um legado de indisposições nada saudáveis. Reconhecer que os polos envolvidos, traidor e traído, são afetados intensa e abruptamente. Um eixo vital é quebrado, até mesmo destruído. A dor, o padecimento forma marcas, registros, permanentes em cada um dos lados. Um elemento de memória possivelmente, nunca apagado. Remoer, alimentar e fazer com que a situação torne-se presente, apenas faz adoecer e estagnar. Ao traidor cabe uma revisão leal aos seus preceitos de vida, respeita si, em primeiro lugar, e definir o que realmente quer para si, assumindo seu engano e retornando à estrada por onde manteve-se, assumindo para si e para o outro e reparando, como pode, o acontecido. Ao traído, buscar saber qual sua parte de responsabilidade no ocorrido, Humildemente, sair do pedestal da verdade e da onipotência e reconhecer que pode ser uma parte ativa do movimento. Caso contrário, buscar entender o que levou o outro a realizar o ato. Acima de tudo, ambos, perdoarem-se e darem início a uma nova caminhada.

Apesar das afirmativas expostas, tão contundentes, é sabido da dificuldade para esse exercício. A ferida é grande, e a mutação provocada em ambos os envolvidos é significante. Ao longo da minha carreira, esse foi um dos principais focos dos processos terapêuticos. Minha impressão é de que essa cultura instalada, passou a ser uma das grandes chagas da humanidade, em virtude da dor, da má condução das pessoas e dos efeitos negativos na vida de cada um. Não pode existir acomodação e conformidade. O enfrentamento se faz fundamental, o único caminho para a maturação do sentimento e da manifestação verdadeira do que se senti e se quer. Ninguém é de ninguém, contudo, o respeito, principalmente a si e a qualquer pessoa, é uma obrigação que nos faz ascender.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: