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Antes mesmo de o nosso nascimento, todo um legado de sonhos, expectativas e projeções são nos depositados. Um nome é definido através de um referencial pré-existente. Um segmento religioso é colocado na bandeja e nos servido poucas semanas após nossa chegada ao mundo, quando não se torna já uma lembrancinha oferecida aos visitantes na maternidade. Até mesmo nossa profissão é idealizada, assim como o que não passaremos a fim de não sofrermos ou quanto chegaremos a ganhar para conquistarmos um padrão de vida maior e melhor do que os tutores que nos acolhem. Deixamos de sermos filhos, consequência natural de um encontro de amor, e tornamo-nos ídolos, frutos de uma idealização irreal derivada da dor e do sofrimento dos pais. Talvez, na melhor das hipóteses, uma perpetuação das conquistas obtidas por esses, a fim de perpetuar a saga de uma família ou de um ideal.

A coisa não para por ai. Todos a nossa volta, ao longo das primeiras etapas do desenvolvimento, fermentam essas expectativas, enaltecendo-nos o tempo todo, referenciando nossa beleza, esperteza e dando uma permissão permanente para as manifestações dos nossos desejos, dos nossos impulsos e enaltecendo, inclusive, nossos instintos mais primitivos. Quando passamos, então, a formalizar novos vínculos coletivos, marcado pela entrada no ambiente escolar, júbilos de satisfação são expressos, pois há a marca fundamental para o início da construção da nova vida. Analogamente, para muitos núcleos familiares, esse alavancar da criança para a imersão ao mundo social, aproxima-se, inconscientemente, do símbolo coletivo de criação do messias, aquele que carrega consigo a boa nova e a esperança de oportunidade para um novo caminho.

Ai deparamo-nos com uma encruzilhada significativa. Toda a ação para sobrepor a nova geração que chega, novos sentidos, incompatibilizados pela inabilidade de seus antecessores, passa a ser enfrentada pela amplitude da independência alcançada, naturalmente, pela criaturas dessa criação. Sem exceção, somos filhos não de um pai ou de uma mãe, mas, sim, “filhos da ânsia da vida” (K. Gibran). Num primeiro momento, carregamos todos os suprimentos ofertados pela sociedade que nos cerca, a fim de conquistarmos uma condição básica à nossa sobrevivência emocional, física e comportamental. Incorporamos por necessidade e, até mesmo, falta de referenciais diferenciados, até mesmo porque somos educados por um único centro, sem diversificações. Através das interações sociais, passamos a depararmo-nos com as diferenças e, consequentemente, compará-las. Numa primeira instância, basta-nos definir o melhor entre um e o outro, mas, logo em seguida, agregamos o terceiro elemento para essa disputa absolutamente humana relacionada às escolhas: a minha identidade, que mescla a herança com os novos estímulos, processando toda essa riqueza na grande usina do eu.

A maioria absoluta, para não radicalizar, e afirmar, veementemente, todos, compactuam com a incerteza de sua individualidade, alimentando os monstrinhos da multiplicidade de personalidades que pulsam em si, desnorteando o rumo do caminho a ser seguido. A encruzilhada, literalmente, assume a roupagem de ícone e um pedestal de reverência e de sacrifícios toma conta da vida das pessoas. Ai, um simples caldo de galinha, associado a esse contexto, promove o despacho de toda a macumbaria provocada pelo homem para si. Nada de irradiações dos santos, apenas, a cisma de seus filhos que teimam em brincar de deuses. Ora, é de conhecimento de todos, a facilidade que se tem, por essa razão, de acomodar-se sobre a realidade da vida dos outros, e não da sua própria. Pulsamos, intensamente, pela necessidade de atender as expectativas alheias. Ter o reconhecimento das pessoas é de fundamental importância para os seres vivos, e os mortos também, diga-se de passagem. Objetivamos, na grande maioria das vezes, atender as súplicas originadas das necessidades de quem está a nossa volta e por isso afastamo-nos do viver.

 
E especialmente devemos evitar a invasão da nossa personalidade pelos outros. Todo o interesse alheio por nós é uma indelicadez ímpar. O que desloca a vulgar saudação – como está? – de ser uma indesculpável grosseria é o ser ela em geral absolutamente oca e insincera.”

Fernando Pessoa, in ‘Livro do Desassossego’

                Fica estabelecido, até mesmo preconizado, uma situação simbiótica entre as inclinações e desejos pessoais para com as manifestações da demanda dos que nos cercam. O resultado para esse fenômeno é a neurose compartilhada e estabelecida na roda social. De antemão, tudo o que é sentido e gerado internamente pelas pessoas, passa pelo crivo do filtro do senso comum, habilitando-nos, ou não, à execução. Momentos frequentes e repetidos a todo instante, já que somos dotados da possibilidade para alternar, mudar e escolher em cada fração de segundos. A coisa chega a patamares tão frustrantes, que até mesmo o conteúdo do pensamento é escravizado pelos fantasmas dos feitores que assolam a nossa estrutura e composição. Um jogo de forças, que ora nos atrai para dentro dos princípios pessoais, encorajando-nos e, logo em seguida, puxa para o julgo das impossibilidades infinitas, aplicadas pela norma, pela lei e pela carta de valores que norteia a circunscrição de onde nos inserimos. Isso não nos faz ser, apenas estar, sentindo um turbilhão de afetos inadequados e inapropriados, fazendo a busca ativa de um estado de conforto, uma harmonia relativamente elementar para podermos tocar a vida em frente. Fazemo-nos pertencer ao outro.

O princípio da não felicidade está em não nos possuirmos. Abandonamos a si em detrimento ao outro. Isso não é altruísmo, muito menos presságio para a certeza da evolução espiritual. É burrice mesmo! Igualmente, voltar-se a si, preservando a hegemonia do que de fato me caracteriza como parte fundamental do grande todo, não é egoísmo, de acordo com o significado pejorativo aplicado à expressão. Egoísmo é a inclinação de projetar aos demais eus das minhas relações, o que sou e quero, buscando uma unificação e padronização de atos e intenções, sobre uma única ótica e padrão, as minhas. A identidade precisa de preservação, só assim impactará, efetivamente, como resultante a grande marcha da responsabilidade social. É a única maneira para se promover a evolução, sem que haja uma repetição customizada de velhos padrões, disfarçando algo novo em relação a uma caquética postura e pensamento que se perpetuam ao longo da história humana.  Preserva-se o saudável, lembrando que penicilina foi revolucionária para a saúde pública, porém, não se faz uso dela diariamente, de oito em oito horas, apenas quando se faz necessário.

Pertencer a si, percorrendo seus labirintos interiores até alcançar a maior de todas as riquezas para a humanidade: a decodificação dos mistérios de si mesmo. Para isso é preciso coragem, um pouco de loucura. Perseverança, mas, acima de tudo, fé. Fé em si para reconhecer o grande valor que possui e o quanto esse tesouro é capaz de contribuir com as várias realidades a sua volta. Crer que esse valor é seu, único e intransferível e que a riqueza do outro se constitui de itens diferenciados. Acreditar em não jogar fora, desperdiçando energia no intuito de aplicar ao outro o que é seu. É oportunizar-se ao grande encontro consigo, irradiando felicidade por sentir pertencente a si, ao seu atual estágio de evolução e maturidade, contentando-se com essa aquisição e conquista, respeitando as diferenças e avaliando a incorporação das mesmas, ou não. Imagem

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