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O conceito aplicado à imagem e à pessoa de Judas Iscariotes vai bem além de adjetivos que o desqualificam ou punam suas atitudes frente a seu  líder Jesus e todos os companheiros da equipe de apóstolos, selecionadas, criteriosamente, seguindo cada um dos itens de inclusão, definidos para o êxito dos resultados estabelecidos. O traidor, ou aquele que fere a confiança, tornou-se mais um ícone da história religiosa do mundo ocidental. Ao homem simples e rude, seguidor dos ensinamentos e da conduta de um mestre, delegou-se toda a carga de injúria, ignorância, contrariedade, medos e ameaças presentes à revolucionária ação da era cristã. Compilaram-se todas as efemeridades aplicadas por romanos, judeus e tribos espalhadas na velha Europa e parte do extremo oriente médio em um único representante a ser martirizado e condenado, secularmente pela sociedade, como o exclusivo réu em relação às tormentas vivenciadas pelo Cristo. O fato é que exatamente assim, como relata a história, sucederam-se as escolhas de Judas, porém, um julgamento parco e insólito aplicou-se, similar ao que Sócrates havia passado cerca do 600 anos desse acontecimento. O presente artigo tem como finalidade analisar o processamento das funções mentais dos dois principais personagens do evento, aproximando a capacidade humana de construir ideias, aplicá-las e por fim utilizar-se do julgamento que fere os fatos e altera o sentido das coisas.

De acordo com os manuscritos de Judas, Jesus foi ter com seus discípulos, focando seus ensinamentos exatamente no tema da Páscoa, ritual esse que se passaria pouco tempo depois do encontro. Ao deparar-se com seus apóstolos orando, colocam em xeque as intenções de cada um com a prece e, ainda mais contundente, revela, afirmativamente, que nenhum dos presentes poderia ter a certeza de que era ele, então, o filho de Deus. Encolerizados, direcionam-se ao Cristo, questionando-o de maneira inconformada e impositiva. Acabam com isso dando a Jesus mais uma prova da humanização que tomava conta de todos, reiterando a magnitude material que cada corpo ali possuía. Desafiou-os para a pequenez do homem, convocando-os a ficar em pé a sua frente e, então, assim, manifestarem-se. Douto em sabedoria e sensibilidade, Cristo era detentor da percepção do calaram-se e do submeterem-se à figura de poder daquele que os representava. Com honestidade e assumindo seu real estágio evolutivo, foi Judas Iscariotes, a figura ímpar que deu a si a permissão para agir, concretamente, como seu aprendiz e, humildemente, ergueu-se à frente do mestre, mesmo sem a condição de fitá-lo nos olhos, e cumpriu a chamada daquele que o ensinara e promovia sua ascensão.

Recolhido em si, com o pensamento desorganizado e conflitante, veio Jesus em seu amparo, separadamente de todos os demais irmãos de postulado. Simples e sem delongas, somente levou a Judas o conhecimento de que a redenção era conquistada com o sofrimento anterior e que para se alcançar o belo e o majestoso, primeiramente era necessário viver o paradoxo para essas definições. Anuncia ao pupilo, logo após, a futura revelação para si, provocando ansiedade e inquietude no mesmo. Em contrapartida, Jesus se isola e só depois reencontra seus discípulos, informando ter estado com outra geração superior. Questionado a respeito de quem eram, simplesmente aponta as diferenças entre o estado humano em que se encontravam e a situação daqueles que haviam estado consigo, reiterando que não havia compreensão total dos fatos para os homens. Interpretativamente, a razão para essa posição aponta para uma incompreensão ou deturpação daquilo que estaria por ocorrer com a revelação a ser ditada por Cristo, repassada pelos anjos ou espíritos iluminados na conversa anterior.

“Judas falou, “Mestre, como tu escutaste a todos eles, agora também escuta-me, pois eu tive uma grande visão”.Quando Jesus ouviu isto, ele riu e disse-lhe, “Você décimo terceiro espírito, por que tenta tão esforçadamente? Mas fala, e eu serei tolerante contigo.”Judas lhe disse, “Na visão eu me vi sendo apedrejado pelos doze discípulos, e [45]que estavam perseguindo- [me severamente]. E eu também vim para o lugar onde […] depois de ti. Eu vi [uma casa…], e meus olhos não puderam [entender] seu tamanho. Grandes pessoas estavam cercando-a, e aquela casa [tinha] uma cobertura de folhagem, e no meio da casa havia [uma multidão — faltam duas linhas —], dizendo, ‘Mestre, leva-me juntamente com estas pessoas’”.[Jesus] respondeu e disse, “Judas, tua estrela te extraviou.” Ele continuou, “Nenhuma pessoa de nascimento mortal é merecedora de entrar na casa que você viu, pois aquele lugar está reservado para o sagrado. Nem o sol nem a lua regerão lá, nem o dia, mas o sagrado habitará lá sempre, no reino eterno com os anjos santos. Olhe, eu te expliquei os mistérios do reino [46] e eu te ensinei a respeito do erro das estrelas; e […] envie-o […] nos dozeeons” (http://pt.scribd.com/doc/3320311/EVANGELHO-APOCRIFO-DE-JUDAS)

“Judas disse, “Mestre, poderia ser que minha semente estivesse sob o controle dos regentes?”Jesus respondeu-lhe dizendo, “Vem, que eu [—duas linhas que se perderam—], mas isso você sofrerá muito quando você ver o reino e toda sua geração.”Quando Judas ouviu isto, disse, “Qual foi o bem que eu recebi? Pois tu me separaste para aquela geração.”Jesus, respondendo, disse-lhe, “Você se tornará o décimo terceiro, e será amaldiçoado pelas outras gerações—e você regerá sobre elas. Nos últimos dias eles amaldiçoarão sua ascensão[47] para a [geração] santa.” (http://pt.scribd.com/doc/3320311/EVANGELHO-APOCRIFO-DE-JUDAS)

                Após alguns diálogos travados com Judas, preparando-o para sua tarefa e construindo junto a ele, alicerces essenciais para que então conseguisse suprir sua mente com razões irascíveis à execução do anunciado, Cristo executou o mesmo movimento, dotado com as mesmas intenções, com todo seu apostolado. Pelas narrativas, fica clara a atenção concentrada de Judas no foco daquilo que lhe fora atribuído. Em contrapartida, aos 12 discípulos, encontrava-se dispersão ao intento e uma busca desenfreada para o auto desenvolvimento e a proximidade com as gerações espiritualizadas, mencionadas pelo mestre. A partir daí, desdobram-se as cenas conhecidas por todas e reveladas nos outros livros bíblicos. Denuncia-se o líder, que morre padecendo na cruz, e condena-se seu fiel e solitário escudeiro a saga da morte filosófica e as penúrias da escuridão quando de sua participação com as gerações localizadas acima das esferas da crosta terrena. Descritos os fatos, dentro da visão de Judas, vamos refletir um pouco sobre o comportamento humano que se repete até o milênio atual.

Há um contexto epistemológico a esse período. Um domínio absoluto do império romano, onde as diferenciações e as discriminações atuavam com rigor. A desorganização social e a fragilidade de valores eram prementes. Além disso, fruto da cultura grega, geograficamente situada entre os continentes asiático e europeu, e de influência significativa para os dois polos, o politeísmo mantinha uma raiz respeitável no acolhimento das civilizações. A postura filosófica do povo judeu, origem de Cristo, era ortodoxa e paradoxal. Enfim, uma estabilidade social era característica e em meio a essa multifacetada realidade, surge um visionário, fazendo uso de suas atribuições cognitivas e com isso persuadindo uma coletividade significativa a pensar e então produzir uma reforma íntima e pessoal. Nesse processo transitório, ressalta-se que falamos de indivíduos mergulhados e compatíveis àquele cenário. A base vital da erudição proclamada por Jesus Cristo era pragmática, opondo-se a maioria marginalizada da sociedade e, em paralelo, combativa à posição de exercida pelos mandatários políticos dos países que se impunham aos demais.

O funcionamento mental, coletivo, era, de maneira geral, orquestrado e padronizado, condicionado a uma certeza de possibilidades restritas, de vigília pelo conteúdo persecutório do pensamento e limitado ao curtíssimo espaço ocupado pela massa dominada. Jesus marginalizou-se, pinçando um seleto grupo de homens para caminharem ao seu lado, fiéis e cúmplices. Semeou-se a nova cultura e os paradigmas vigentes foram se rompendo, intensificados pelas ações dos apóstolos, tanto com a morte de seu mestre, como posteriormente, através da disseminação pelos seguidores. Judas ateve sua atenção às orientações de seu mestre. Focou sua concentração não só nos ensinamentos, como na relevância para a execução da tarefa para que fora eleito. Não dispersou-se a si, apenas acatou aquilo que imposto foi, delegado por quem era dotado de consciência a cerca do significado de sua atitude. Seus colegas, também assim o fizeram, porém, direcionados no sentido amplo que conduziria a propagação do ensinamento essenciais do Cristo. O primeiro apegou-se a si como veículo de condução e os demais à comunidade que precisaria sentir essa passagem de Jesus.

Todos orientados, debruçando-se às ramificações do exercício incumbido. Tinham a noção de si, dos papéis e das responsabilidades, assim como ao impacto promovido no micro e macro sistema, preenchendo uma totalidade para aquele pragmatismo vital. A vivência de tempo e de espaço era nítida, transparentes. Judas projetava-se no futuro imediato, protagonizando um ato hediondo contra alguém a quem devotava seu amor e sentia a pena paga pela condenação dos que não entendiam seu ato. Fixava-se na sua posição encarnatória, como agente direto para a efetivação dos pressupostos de Jesus. Aos demais, cabia o desdobramento do pensamento e da alma, lançando-se há um tempo futuro, onde suas preleções semeariam toda a obra edificante do grande pensador. Num mesmo instante, todos mantinham-se ao lado daquele que os fizeram renascer dentro da própria vida. Cada um, dentro de suas especialidades e finalidades, decifravam os estímulos pela senso percepção, milimetricamente acordados com as intenções determinadas pelo projeto evolutivo para as civilizações. Sentiam, tocados pela certeza de estarem ali para agirem. Percebiam, cada fragmento como um elemento vital para a resolução. Toda essa relação com os estímulos externos e divinos, eram associados às representações mnemônicas, justapondo cada conteúdo apreendido para alcançarem a excelência em suas missões.

Uma carga afetiva, ou vibracional, comum, onde cada vetor energético era direcionado a um propósito comum. Jesus Cristo e todos os envolvidos na meta comum, emanavam amor, dentro de seus perfis e, principalmente, de acordo com o estágio de evolução que cada um daqueles homens se encontrava. A vontade era idêntica, contudo, o conteúdo do pensamento não, pois o ponto de ligação, individualmente falando, era amplificado, ligando cada indivíduo a uma resultante específica. A forma e a velocidade mantinham-se equitativas, talvez alterada pela alta ansiedade de Iscariotes pela dura ação a ser executada. É no juízo que se observa um divisor de águas. Até a revelação de que Judas havia delatado o mestre, a verificação era equilibrada. Imediatamente após, expressões deliróides, originadas de juízos falsos por haver uma estrutura psicológica lógica e inteligível, conduziram o executor a pena máxima a um crime anunciado, previsível e necessário. O desdobramento para essa manifestação, foi à pulverização de um delírio coletivo, transformando o obreiro em um algoz.

Academicamente falando, o eixo significativo de construção do saber ocidental, encontra-se na era cristã. Logo, difundiu-se que existiu um mártir e um traidor, dentro de um dos segmentos históricos. Um herói e um culpado. Um equívoco, antagônico, a própria lição proferida por Jesus. Jamais o mestre colocou-se como um ser além dos demais, ao contrário, falou em igualdade e amor, possíveis somente na posição de equiparação. Situou, cada um de seus aprendizes, em seus lugares e condições adequadas, mostrando as infinitas possibilidades e contribuições oferecidas por cada nível evolutivo. E oportunizou o exercício do livre arbítrio, fazendo-os evoluir. O entendimento intelectual, ainda é embasado na dicotomia entre o bem e o mal, na competição e na rivalidade, ou até mesmo na ilusão referentes às alusivas figuras idealizadas do paraíso livre do assumir as responsabilidades por atos e sentimentos. Claro que um desdobramento nítido de uma educação secular, preexistente a presença de Jesus e lapidada a partir dali. Por isso que evolução apregoa um crescer gradativo e a precisão de se digerir e processar cada uma das etapas percorridas. Em resumo, ainda concebemos todo esse enredo, atuantes à geração terrena citada nos apócrifos, ou seja, internalizamos um parecer eminentemente humanizado dos acontecimentos e não factuais, marcados pelo que foi deixado como legado para o homem. Amar verdadeiramente não consiste em afagar. O ato mais duro para quem ama, verdadeira e incondicionalmente, é “bater” para conduzir ao caminho reto. Não teria sido essa, assim, a missão de Judas Iscariotes?! Não teria sido edificada uma incompreensão e deturpação das finalidades acontecidas?

Referência Sugerida à Leitura: http://pt.scribd.com/doc/3320311/EVANGELHO-APOCRIFO-DE-JUDASImagem

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