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Bem e MalDentro de uma concepção evolucionista, a matéria viva atravessou as etapas de adaptação, fixação e desenvolvimento dentro do ecossistema. Independentemente da origem, os organismos não foram criados nem bons e nem maus, mas, tão somente, preparados para a adequação frente aos obstáculos naturais. Digamos assim, um princípio instintivo de sobrevivência frente às supostas ameaças oferecidas pelo meio. A  primitividade, ponto de partida para a formação atual, jamais atuou sobre a ótica da justiça, definindo aquilo que, então, pautava a fronteira entre o bem e o mal. A vida, em sua gênese, ajustava-se, diferenciando riscos de oportunidades. Uma equação, mera e simples, acoplando cada uma das diferenças e das necessidades  de cada sujeito, parte do grande todo.

O aprimoramento das funções mentais, especificamente o pensamento e a inteligência, permitiram a elaboração de conceitos e, por defesa, a instauração de mitos e o condicionamento de ritos para a concretização de uma estabilidade vital. Exatamente aos aplicados as inclinações para o bem e para o mal. Contudo, faz-se necessário passar pelo crivo de uma purificação experimental, ambas as terminologias, para que as ambições idealizadas não as deturpem. O bem é um estado de ânimo incorporado, involuntariamente, desde os primórdios da escalda do homem, fixando a sensação de bem estar pessoal. Um movimento avassalador que buscava, incessantemente, o benefício próprio para adequá-lo às vicissitudes enfrentadas. Logo, o mal era percebido como tudo aquilo que contrariava  e impunha uma ação contrária para a determinação de um estado conveniente para o equilíbrio e a harmonia. Um processo egoísta e de auto preservação, nada poético.

O estado para a busca do bem, em sua matriz individualizada, está presente até os dias de hoje. Aliás, essa padrão é, ainda, o que predomina. Agregaram-se, nos últimos dois séculos, sendo potencializado nas últimas décadas pelos pressupostos humanísticos disseminados para as sociedades, a cultura do bem intencionado, ou seja, a idealização de uma postura altruísta em que o sujeito abdica de si em detrimento do outro. Defino como intencionada pela justificativa de que, a competitividade e a corrida materialista, transformaram os homens em seus principais temores e reflexos de intimidação. Não obstante das lutas travadas para o domínio, pleno, do meio, coube ao ser humano ampliar o espaço de domínio, aplicando sobre si mesmo um tipo de exploração, desajustado, pela relação de poder ocorrida entre o senso comum e os marginalizados, marcados pelas diferenças que não se generalizam. Ou seja, o bem, ainda hoje, não deixa de ser um conveniente instrumento utilizado para agradar aos outros e, assim, sentir-se aceito e incluso, ou, como mera resposta aos temores divinizados das criaturas servis e fiéis  do Deus imaculado. O mal se restringiu, miseravelmente, a esse pressuposto de manutenção comunitária.

Assim, aquilo que fora arco reflexo, espontâneo, de uma adaptação, dotou-se de vontade para ai provocar as escolhas de cada um de nós. A relação semântica para esse processo, parte do campo das senso percepções, quando o homem essencialmente sentia e, por repetição, passou a perceber. Encontrando um estado de repouso adequado, a estabilidade, definiu-a e com o surgimento da linguagem, a simbolizou. Entretanto, esses símbolos do bem nascem, eminentemente, de uma formulação subjetiva em que o eu os fixa, de acordo com a sua necessidade de defesa e de auto preservação, frente à própria realidade da sal vida, mas, principalmente, diante do automatismo de comparações que se efetivam com as diferenças demonstradas pelos outros, Epistemologicamente falando, a noção de diferenciação entre o bem e o mal é agregada, já nos primórdios, nas primeiras relações do indivíduo com os estímulos externos, desconhecidos e amedrontadores.

A dualidade aqui apresentada gerou a instabilidade do ser. Fizemo-nos antagônicos frente às alternativas que emergiram, como efeito, paradoxais no estabelecimento de valores. Isso se verifica, hoje, na relação travada entre o bem e o mal. O bem ainda não é um valor humano, visto que se rumina em pensamento, anseia-se em ideal, mas, a sua prática ainda permanece enraizada sob a égide de uma conveniência confortante ao executor. Obviamente, sem considerar algumas raras personalidades que passaram pela história. Santo Agostinho afirma em seus postulados, justamente, a árdua batalha, presente no interior de cada homem, entre suas várias vontades. Complemento falando nas suas tendências.

Assim, a essencial relação de poder, maracá factual da história, tem sua nascente e aprimoramento, na conquista do controle sobre o meio externo. Até mesmo o inalcançável passa por essa premissa, delegando a Deus, como ente imaginário, a solução para os conflitos inexplicáveis e sem solução. E não ao Deus que oportuniza e cria para recriar. Tornamo-nos, em verdade, polipresentes, polipotentes e policientes. Negligenciamos a nós mesmos e abandonamos o potencial imensurável para a autocompreensão e entendimento de si mesmos. A essa instabilidade, verifica-se a não verdade do indivíduo, apenas, a suposta verdade daquilo que se deseja ser o objeto, a coisa, o outro.  O saborear concreto do bem, passa pelo pré-requisito de fazer-se em sim, e, ai, ter condições de levar ao outro como escolha voluntária e efetiva.

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