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Depois de séculos de abandono, a sexualidade feminina, foi percebida como um foco de interesse nas pesquisas científicas. Shere Hite, na década de 70, do século passado, entrevistou e avaliou centenas de mulheres nos Estados Unidos, publicando no ano de 1976 sua famosa obra Relatório Hite, obtendo uma extensa repercussão em todos os continentes do planeta. Hite compilou de forma organizada e metodológica, a percepção e o conhecimento da mulher sobre seu corpo e a qualidade de vida sexual que constrói em suas relações.

Mesmo diante de um suposto processo de desenvolvimento humano e de evolução tecnológica, onde o poder de criação do homem angariou conquistas indescritíveis, os resultados dessa pesquisa apontaram para situações alarmantes perante a realidade concreta da sexualidade feminina: o grupo estatístico majoritário de pesquisadas que nunca tiveram, ou, se tiveram, raramente um orgasmo. As mulheres, que, então, atingiam seu prazer, assim o faziam pela estimulação do clitóris e não pela fricção das paredes da vagina, como assim era o pensamento vigente.

Esses, e muitos outros pareceres, desencadearam reações de surpresa e, até mesmo, espanto, às áreas do conhecimento, oficializadas na academia, como também ao público leigo, constituído pela sociedade em geral. O desinteresse e a negligência comportamentos e afetos tão significativos para a vida da mulher, foram, sem dúvida, o grande fator motivador para essa ignorância inaceitável. Em verdade, talvez, o maior assombro à consciência coletiva, não fora as informações em si coletadas, mas, descobrir que a mulher formava uma característica sindrômica relacionada à má qualidade da vida sexual e, pior que isso, essa mesma mulher desejava, ardentemente, uma mudança de contexto, ou seja, buscar e ter prazer em suas relações.

Passados mais de trinta anos e rompendo o terceiro milênio, a realidade, vinda à luz do saber humano, não apresentou uma mudança significativa. Fala-se mais, o acesso às informações tornaram-se mais fáceis e a busca por uma nova forma de vivência sexual é notória. Mesmo assim, a repressão sobre o desejo, à percepção distorcida em sobre o sexo e as conquistas efetivas ainda caminham lentamente e as progressões poderiam atingir uma faixa populacional maior e condições bem mais refinadas para uma parte das mulheres que se dizem satisfeitas com suas satisfações.

O fato é que sexo ainda é tabu, mal percebido e definido e sua condução nos processos educacionais e na efetividade de sua prática na vida adulta, anda reflete sombras do passado e raízes profundas no preconceito e no julgamento que os dois gêneros impõem o modo de agir em uma sexualidade ativa, ou, inativa, dependendo na negação o da anulação que se faz desse comportamento.

Vamos resgatar alguns fragmentos da antropologia e da história a fim de remontar a construção dos processos educacionais da sexualidade feminina, estruturando os alicerces que definem a inclinação afetiva da mulher perante suas escolhas comportamentais para o ato sexual.

Antropologicamente, fósseis e relatos de pesquisas nos mostram que a humanidade, antes mesmo de evoluir, necessitou passar pela etapa de desenvolver bases para adaptação entre os organismos e o ambiente em que se inseriam. Essa percepção aponta o homem com um princípio de individualismo, essencial à sua sobrevivência, consciente disso, porém, sem o conhecimento dos fenômenos. Evoluindo, obrigatoriamente, agregando um conjunto de informações para crescer continuamente.

Os mecanismos para esse processo são observados nas conclusões de Foley (1998), quando afirma que a definição para a humanidade surge de “… uma passagem da anatomia para o comportamento, e do comportamento para a cognição, e a paisagem intelectual tornou-se cada vez mais escorregadia.” O abandono da solidão e os processos de agregação, tornando-o um ser sociável, direciona o homem para um significado de conveniências coletivas. A organização social, através das definições de papéis e de responsabilidades, acontece a milhões de anos na história evolutiva, cuja finalidade é o fortalecimento da raça e a supremacia humana sobre seus pares dentro do reino animal, vegetal e mineral, ou seja, sobre a vida.

Machos e fêmeas, nesse empreendedorismo, acabam definindo suas estratégias de ação. A função biológica e o biotipo físico, delegam às fêmeas a maternidade, a tutoria e o zelo pelas crias e o pequeno núcleo comunitário constituído em tribos primitivas. Cuidadoras, eis o grande adjetivo herdado à função feminina desde os primórdios. O bicho mulher, zelava pelos filhotes, dando de comer e gerenciando o bem estar desses, assim como os dos machos que as cobriam sem nenhum princípio de fidelidade e comprometimento. O mundo da fêmea era o interno, centrado em um único e exclusivo núcleo de relacionamentos e de ações. Submissa pela fragilidade física e a função reprodutora biológica, a mulher sustentava suas relações nos vínculos parasitas com suas crias e nas limitações de suas ações em detrimento da soberania da força, da conquista e da exploração do macho.

O condicionamento operante, na formação dessas necessidades, dá à humanidade a portabilidade da cultura e da forma de viver do meio ambiente. Do exercício biológico natural, condensamo-nos a um espectro social de funcionamento. O comportamento que era meramente individualizado, passa a formar uma identidade coletiva, onde, então, a cultura impõe uma dinâmica determinista e sobrepõe-se a liberdade de escolha de seus membros.

Esse fenômeno, presente na formação e no desenvolvimento humano, justifica a perpetuação dos papéis e das responsabilidades funcionais do gênero masculino e feminino nos vários grupos sociais pertencentes à realidade planetária. A situação é tão real que a mulher até hoje é responsável pela ação cuidadora da prole, da evolução de um mundo interno denominado de lar, onde um macho, ainda que teoricamente, luta incansavelmente por seu posto absoluto onde seu maior comprometimento é com seu próprio ego e com seu desejo insaciável.

Submissa e permissiva, a mulher acompanhou, resignada, a evolução da espécie masculina em suas necessidades exploratórias de conquista e de domínio do meio ambiente que habitavam. Após o período de primitividade, a mulher foi se amoldando, cada vez mais, no intrínseco perfil da passividade cultural. Outro marco na história do homem, aponta para séculos antes do surgindo do Cristo, quando Moisés, narrado no antigo testamento bíblico, revela as leis de Deus para o povo. Esse relato revela não apenas uma imagem de religação do homem com o Criador. Os fatos mostram, também, a depredação social construída. A degradação nas relações era eminente, e a convivência entre homens para com as mulheres, depreciava o respeito, a dignidade e a estima desse gênero desqualificado e desconsiderado pelas necessidades e preceitos comunitários vigentes. A mulher era um mero objeto de uso e contemplava a voraz saciação de demandas reprodutivas, sexuais e de ordenação dos clãs para as desmedidas aventuras masculinas frente ao desbravamento do desconhecido.

Atrevo-me a afirmar que Moisés tenha sido o primeiro grande jurista da história e, além de falar em nome do Pai, também se direcionou ao litígio do contexto que se colocava em oposição a valores. O período cristão, propagando-se os fundamentos do amor, tentou um resgate da imagem feminina, porém, apenas em 334 d.c, no Concílio de Constantinopla, o Papa Constantino, pela primeira vez, agrega à Igreja esse sexo abandonado. Isso não foi um reconhecimento, mas, sim, uma conveniência, pois política e economicamente, a mulher santificada simbolizava o núcleo familiar e isso para o progresso social seria de extrema valia. Depois de toda uma jornada, então, a fêmea sai de uma posição absolutamente subalterna e passa a ter o controle acionário e mandatário sobre a comunidade.

Essa promoção provocou a pior de todas as consequências para a expressão e a liberdade sexual da mulher. Santificada e estigmatizada, doutrinariamente foi conduzida a uma vida de pudores e cerceada de possibilidades para a expressão de seus desejos e da busca pela satisfação como indivíduo ativo nas relações afetivas. A mulher fatal foi assassinada e a dogmatizada se desenvolveu, mantendo-se firme e atuante, única e soberana até o final dos anos 70. Propagado e difundido pela cultura e a educação, a mulher foi adestrada a ser submissa, passiva e capaz de tudo, menos quando referidas às suas vontades.

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