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É fato que a antropologia aponta para a relação do homem com o fator morte desde a primitividade. Pesquisas mostram que na era paleolítica superior, havia uma preocupação com os rituais do corpo e a preocupação com uma eventual continuidade da vida (MITHEN, 1998).

Os hebreus traduzem o significado dessa palavra através da ação da separação, onde “A morte é a separação entre o corpo físico e o elemento sutil refraim (sombras) ou espírito, nas versões menos arcaicas” (ARENDET, 1992). A ação de decompor o elemento físico da alma, dando a sugestão de uma continuidade da vida dentro de uma estrutura mais sutil. Já o povo latino, define a morte como um afastamento do indivíduo da luz. A mulher, a mãe original dá à luz ao filho e esse segue seu caminho. Com o fenômeno morte, esse se afasta da luminosidade e passa a ser encoberto pela escuridão da terra que o acolhe. Mors, latinamente definida, também conota solidão, ausentar-se da companhia dos outros homens. Contrariamente, “Num segundo sentido, mors é a antítese de ‘inter homines esse’. Em latim, a palavra ‘viver’ sempre coincidiu com ‘inter homines esse’, ‘estar em companhia de homens’” (ABAGNANNO, 1982).

O que a história nos conta é as atitudes de luta e fuga da humanidade para que permaneça agregada, interagindo o corpo com a alma e distanciando-se o máximo possível, sem se decompor. A finalidade desse texto é provocar uma reflexão sobre a obra humana e sua relação com a vida. Afinal, por que o início dessa discussão acontece pela separação, enfim, a morte?

Não basta ter e manter o corpo íntegro e funcionando. O que a sociedade moderna nos revela? Pessoas caminhando sem destino e, displicentemente, deixando-se levar como se não fosse uma parte ativa do sistema. Refiro-me à qualidade de vida, a sensação de bem estar e satisfação, resumidamente, a tão cobiçada felicidade que se distancia e a cada dia vai ficando mais longe de muitos habitantes desse planeta.

O homem é um ser sistêmico, ou seja, interage e atua em várias células da sociedade. É um agente dinâmico e sua participação contribui para o contínuo processo de modificação das coisas e, similarmente, das pessoas. A engrenagem é, indiscutivelmente, uma via de mão dupla, onde se oferece algum tipo de riqueza e, recebem-se as diferenças ou potencializam-se as igualdades. Esse movimento também é parte histórica da antropologia e esse significado é construído desde os primórdios.

Pare e pense: qual a razão de frequentarmos a escola tantos anos? O motivo que nos faz buscar uma especialidade profissional? Trabalhar, qual o sentido? E a relação com o elemento pecuniário? Para que ganhar dinheiro? Amigos, para que servem? Namorar, casar ou conviver com outras pessoas permitindo a troca de intimidade jamais vivenciada com outros. Por quê?

Para a surpresa de muitos, um percentual significativo de membros das comunidades espalhadas pelo planeta, não conseguem responder, com consistência, a maioria, ou quase que a totalidade dessas indagações. Creio que, inclusive, boa parte dos leitores, nesse momento, não faz. A minoria que constrói suas racionalizações estruturam definições parcas, insólitas e ausentes do poder de convencimento. O item de verificação das minhas afirmativas encontra-se registradas nas agendas dos Psicólogos e Psiquiatras, como também nos registros de inúmeros terapeutas alternativos. Nas frases das redes sociais ou na negligência, testemunhada nas relações interpessoais, onde os indivíduos se questionam sobre seu trabalho, criticam suas famílias, fazem descaso de seus pares amorosos, chegando ao ponto de terceirizarem suas camas e confidência a fim de alternar o ciclo vicioso e viciante que edificam através de suas escolhas.

O resumo da ópera pode ser definido como descaso, desleixo e desqualificação do maior fenômeno pertencente ao ser humano: a vida. Das duas, uma, ou as pessoas escolhem mel pelo fato de não serem dotadas de consciência a respeito de seus desejos e de suas capacidades, ou, ignoram o significado das coisas ou das pessoas. Em ambas as possibilidades, negligenciam sua responsabilidade social em detrimento de um egoísmo doentio que as mantêm sob a égide de um drama shekespereano. A maior vítima acaba sendo sempre o indivíduo, diretamente, e, indiretamente, o coletivo.

Apresento-vos, assim, a morte filosófica, cujo significado é o entorpecimento do desejo e da satisfação, aguardando, lenta e penosamente, a concretização de um fato que já acontece, a morte. Uma morte homeopática, em doses contínuas que prepara o corpo físico para desligar-se, definitivamente, desagregando-se de si, dos outros e da vida. A morte filosófica é um caminha à sombra, nada mais.

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  1. Reblogged this on Blog do Edyr Oliveira Júnior.


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