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Eis um estado não humano, perseguido, obsessivamente por todas as pessoas. Originada de ‘“eleútheros”, da raiz grega, seu significado aponta, objetivamente, a um ser, livre. Contemporâneo à etimologia da palavra, a filosofia grega fundamentou, para o saber da humanidade, alicerces indiscutíveis para a condução do conhecimento formal, acadêmico, e, valorativamente, verdadeiro para a ordem das leis morais que regem e padronizam a vida pública. Platão afirma em suas dissertações que a verdade é única e pode ser alcançada. Paradoxalmente, a verdade deixa de se fazer presente, no exato momento em que passa a ser verificada e comprovada, ou seja, sua vitalidade está atrelada ao instante, imediato, do agora. Considerando que o saber é uma derivação imediata e inseparável da verdade, pode-se conjecturar que a informação é permanente, entretanto, o saber, mutável, veloz e constante, logo, pouco se sabe de fato, em relação às certezas que se tem. Sem o devido saber, aprisionasse à liberdade ambicionada.

O conhecimento ramifica-se para dois objetos, equivocadamente, distintos. O reconhecimento do eu, faz-se, assim, um ponto de partida, e do outro, formalizando o encontro entre as partes que se estimulam. O segundo pressupõe-se ter vida própria, porém, é uma mera consequência da subjetividade dessa primeira pessoa, singular e, efetivamente, única. Essa individualidade do sujeito, ou o seu ego, propriamente dito, é dotado, não necessariamente, apenas, de inconsciência, como formulou Freud (1900), referindo-se a um conteúdo de pensamento e de afeto reprimidos pelas instâncias psíquicas. O homem é donatário, um tipo de sócio majoritário, igualmente, da não consciência, ou seja, é controlado pelo indomável estado de não saber, pactuando-se à condição e optando em continuar a ignorar. É mais fácil ter o outro como objeto de estudo e de busca pela compreensão, pois esse assume o lugar do julgado e do avaliado. Ao outro cabe a incumbência de gerir o público e ao ego a de ordenar, ao menos, tentar, o privado.

O encontro do eu e o tu, compondo o nós, descrito por Moreno (1925) em suas considerações em relação a socionomia, forma um enredo, no mínimo, pragmático frente a funcionalidade dinâmica do homem civilizado. A essa interação cabe ponderar que, tornamo-nos objetos variados e infinitos, construídos a partir de uma mesma proporção de subjetividades. Somos conceituados, e por isso nos conduzimos, pelo olhar e a imposição do outro que nos cerca. A verdade universal, originada do academicismo, nada mais é do que a padronização orquestrada das notas, escalas e variações que definem a música que todos dançamos, mesmo em salões de baile distribuídos em espaços diferentes. Um mecanismo com dois potentes vórtices de controle, onde o público tutela o privado e esse último anseia estar fazendo parte do primeiro. Um conflito mais do que básico, socialmente vital, onde as partes se confundem com o todo e o todo massifica as partes para que essas passem a ser uma coisa só, desconsiderando-as e as desvalorizando em sua individualidade ameaçadora.

Arendt (2006) pontua que a psicologia moderna auxilia o indivíduo a se ajustar a esse contexto que denomina como deserto, desprovendo-nos da capacidade “… de transformá-lo em um mundo humano.”. O princípio ético do bom relativizasse através da dicotomia de um senso comum em detrimento ao desejo de suas partes. A lógica da verdade dualizasse pela multiplicidade de percepções, pensamento e reações. Lembro que condicionamento não é sinônimo de espontaneidade, nem mesmo de veracidade e aplicação plena de energia para a condução e realização dos fatos. A parte estética, oscilando entre o belo e o não belo, é variável, pelo menos em sua intensidade, de acordo com o olhar do ego subjetivo que ali participa. O uno, em uma concepção ontogênica, participa e confunde-se com a de todos os envolvidos. Logo, esses quatro elementos filosóficos, não coadunam, na prática, a uma mesma coisa e um mesmo referencial, pelo simples fato de que o ego não é íntegro em sua estrutura de não consciência sobre si e as coisas.

Para a liberdade se fazer presente, a sensação de segurança precisa tomar conta do sujeito. Sua preexistência encontra-se no conhecimento devido sobre si que, então, disponibiliza-o à interação com o outro. É só, e somente assim, que o eu passa a se capacitar a permanecer disposto de si. Uma organização interna, ou privada, que aplica coerência ao que se é de fato, dando condições plenas, dentro o que se reconhece em dado momento, para um exercício público, ou coletivo, íntegro e tomado pela saúde mental, física e energética, tão clamada e desejada por todos. A história nos remonta um inverso, antagônico, ao que sempre se quis. Assmann, em seu Esquema da Racionalidade (do Racionalismo) Ocidental, refere-se ao pacto de relação do homem com seus objetos ignorados, onde num primeiro momento da evolução buscou-se a razão pela natureza, depois através de Deus até chegarmos ao próprio homem, onde necessariamente o outro é o agente externo para esse movimento. Nas três etapas, éramos servos do meio, depois do divino e atualmente, até pela imagem e semelhança paradigmática dos ensinamentos teológicos, escravos de si mesmos. Verdades oscilantes e saberes divididos, muito pouco integralizados.

Retomando a reflexão do primeiro parágrafo, a perseguição humana pela liberdade já a faz encarcerá-la. Esse movimento leva à condenação da liberdade pelo fato de o homem buscar fora de si, pela incorporação de um modelo pronto e comum, algo que supostamente antagoniza o seu próprio referencial. Resgatando a narrativa de Platão no livro “O Banquete” quando se argumenta sobre a libertação do homem sobre ele mesmo, através do raio do Deus que o torna menos potente, já que era possuidor de duas cabeças, quatro braços e pernas e a partir daí sai vagando a esmo pelo mundo em busca de sua cara metade, reflito a respeito do ser que se afastou de si mesmo, marginalizando-se para a invasão de outros como forma e completude as suas deficiências e carência que o tornam, efetivamente, aquilo que o é. Uma confusão de existências que indefinem algúem e conduzem para a sensação do ninguém, conforme questionamento de Arendt (2006).

Pressupõe-se, assim, que a não consciência do ego, transgride para a doença da alma, no sentido de valorizar a essência do que se é. Nossa avidez irracional, e desprovida de entendimento emocional, item de qualificação para todo e qualquer segmento do conhecimento, é o que nos induz ao aprisionamento do que estamos e somos, anulando, de fato, aquilo que sentimos.

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